Novos órfãos da cultura!
Além de substantivo feminino, a palavra cultura traz a definição de “Conjunto das estruturas sociais, religiosas, etc., das manifestações intelectuais, artísticas etc., que caracterizam uma sociedade”. Nesse sentido, a cultura de Blumenau está perdendo mais uma vez. A literatura e as artes plásticas estão prestes a ficar órfãs em decorrência do progresso e da total falta de interesse público em resgatar e investir numa arte secular: a linotipia.
Décadas atrás, outra “máquina” secular passou da Cultura Popular à Museológica. A Macuca, primeira locomotiva a cruzar a região do vale do Itajaí… Lembram dela? Hoje, estacionada na Praça do Cidadão (a mesma da Prefeitura) tomando sol, chuva e intempéries sem proteção. Aos cidadãos com menos de vinte e cinco anos, observam a “peça” sem nenhuma vida ou emoção. Já para quem passou dos trinta anos, os trilhos ainda tremem na alma e o aroma do óleo queimado persegue a memória sentimental. Ao Arquivo Histórico Municipal, restaram as fotos, algumas sem data e muita poeira.
Agora, é a vez da Gráfica da Editora Cultura em Movimento, braço da Fundação Cultural de Blumenau, desligar-se das tomadas e iniciar o processo de tornar-se definitivamente “peça de museu”.
O linotipo, inventado em 1890, é uma máquina que funde em bloco cada linha de caracteres tipográficos, como o da máquina de escrever. Suas matrizes (superfícies impressoras) são em baixo-relevo, justapostas em um componedor (utensílio no qual o tipógrafo vai juntando à mão, um a um, os caracteres que irão formar as linhas de composição). O próprio operador despacha para a fundição, a 270ºC. Mesmo com a quase extinção da técnica, com a chegada da imprensa offset, a cidade de Blumenau ainda era difundida como uma das únicas no país a trabalhar com o maquinário.
Técnica obsoleta aliada a profissionais com qualificação em máquinas digitais. Eis a “causa mortis”. Quem prefere máquina de escrever ao teclado de um computador?
Sem interesse na formação profissional por novos linotipistas e com a aposentadoria dos mestres nessa arte, as máquinas param enquanto a tecnologia toma conta da memória cultural da cidade. Perde a cultura e os artistas de um modo global, pois a Gráfica utilizava o linotipo para difundir vários projetos culturais importantes como Pão & Poesia, Doce Poesia, convites e material de divulgação de eveentos da Fundação Cultural além da edição de livros (inclusive do Arquivo Histórico). Em decorrência dessa falência natural de mão-de-obra, os trabalhos deverão ser terceirizados e consequentemente, as máquinas tornar-se-ão peças de Museu e de futuras visitas de alunos da rede pública.
Hoje, uma grande parte da memória cultural de nossa cidade está com seus dias contados. É o preço que pagamos pelos chips.
*Fátima Venutti é escritora e vive em Blumenau, Santa Catarina.
Por Fátima Venutti, em 19/10/2009 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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* Estimada Fátima Venutti, ATIVISTA CULTURAL e ESGRIMISTA da PALAVRA:
De que ADIANTA mudar o NOME das COISAS se as COISAS não MUDAM pra MELHOR INTEIRAMENTE???? Mudar NÃO significa extinguir a RAÍZ de uma ÁRVORE, que eternamente será a RESPONSÁVEL pela continuidade da VIDA INFINITA que pulsa no FENÓTIPO, e sobretudo, no GENÓTIPO que teima em SOBREVIVER diante de tanta GANÂNCIA e HOSTILIDADE TRUCULENTA e PUERIL a MEMÓRIA da GÊNESE CULTURAL dos POVOS!!!!! Beijão do AMIGO Paulo DonAmore ((( e-t-e-r-n-o APRENDIZZZZZZZ… )))
……e minhas memórias, brutalmente dilaceradas, sangraram sob o impacto da lâmina impiedosa da intitulada modernidade….
Fátima, obrigada pela luta, através de suas escritas, em manter vivas…..as raizes
Fátima,
Lágrimas não são suficientes para prantear a paralisação das linotipos e demais acessórios da Gráfica da Fundação Cultural de Blumenau.
As linotipos que lá estão, prestes a se tornar “apenas” peças de museu, vieram (se não me engano) das antigas oficinas do jornal “O Lume”, do pranteado jornalista Honorato Tomelin, fundador, também, do jornal “A Nação” nos idos de 40, depois absorvido pelos Diários Associados e, finalmente, fechado nos anos 80.
Mas foi das linotipos do jornal “A Nação” que sairam grandes jornalistas e radialistas, entre os quais destaco José Gonçalves, Adolfo Nolte, Orlando Marlos, o Zézinho da Gráfica ZF e tantos outros. Começaram suas lides nos teclados e foram absorvendo inigualável cultura ao longo de suas atividades.
Sem falar do imabatível linotipista Bernardo Tomelin, que durante décadas levou nas costas, com extrema dedicação, o trabalho da gráfica da Fundação Cultural.
Enfim…como se vê, tudo isto já faz parte da história. Só falta agora criar o Museu. E provavelmente ninguém saberá, no Museu, como manusear o equipamento,para – quem sabe ? – mostrar aos visitantes. E olhe que uma das linotipos ainda funciona muito bem.
Abraços do
Carlos Braga Mueller
Pois é, infelizmente a cada minuto novos órfãos culturais surgem e o pior: permanecem no anonimato. Memórias se perdem, são ignoradas, desconsideradas… Eu mesma como pesquisadora da Memória oral atuo solitariamente, por amor á arte mesmo, parece que já não importam projetos nesta linha, ainda mais em lugares interioranos de nosso país. Mas somos teimosos, continuamos e fazemos a nossa parte, mesmo que seja falando e falando sobre o tema, sempre alguém poderá nos ouvir.
Parabéns pelo artigo.
Um misto de tristeza e melancolia invadiu meu ser ao ler o artigo desta inominável escritora Fátima Venutti. Minha pena praticamente começou a desfilar na imprensa escrita naquela linotipo operada pelo glorioso Bernardo Tomellin, nos tempos em que o escritor José Gonçalves presidia a Fundação de Cultura e achava importante manter, nem que fosse como objeto de curiosidade turística, histórica ou museológica, a gráfica com suas linotipos a funcionar. Curiosamente um barulho que muito lembrava a passagem do trem pelos trilhos da Estrada de Ferro Santa Catarina. Ali editei durante alguns anos o Jornal Clarins do Vale e muitas vezes eu mesmo ia até a fábrica de clichês Blumenau para trazê-los ao “seu” Bernardo, a fim de compor o referido tablóide. Lembro da alegria de outro herói da imprensa blumenauense, Honorato Tomellin, quando, com lágrimas nos olhos ao lembrar do Lume, do Luzeiro Mariano, recebia de minhas mãos o despretencioso jornal.
Uma pena! Mais um capítulo da história que se finda. Não deveriam deixar acontecer. Até porque a imprensa brasileira certamente – desde que alimentada com notícias desta ordem -, poderia referenciar este tópico de Blumenau como mais um atrativo de nossa história, a história de gente que fez a imprensa catarinense desfilar por aqui seus primeiros e mais importantes passos – reverencio nesta oportunidade também Flávio Rosa como um destes ícones do passado.
Tomara que se possa reverter tal vaticínio e quiçá possa, o Sr. Prefeito João Paulo Kleinubing, passar à história como um político que soube, no momento certo, agir para que a história não se resuma apenas a museus e livros empoeirados.
Luiz Eduardo Caminha
Médico
MTb-SC 2966
Gostei de seu texto. Na rua onde cresci havia uma gráfica e eu me lembro bem dos linotipos. Faziam bastante barulho e deixavam um cheiro característico no ar! Seu texto me trouxe saudades!
Caríssima Fátima,
mudar, trocar, inovar, na verdade, não mudam a consistência e a existência. O problema reside na falta de cultura (ou na aculturação) do povo em geral (afinal, a ignorância é a mola mestra dos negócios). Não fosse assim, esses equipamentos poderiam continuar servindo ao propósito da manutenção da cultura, como algo diferenciado e diferenciador. Por que, no fim de tudo, sabemos, resta a necessidade de não sermos (tão) iguais. Em Florianópolis o poeta Cleber Teixeira mantém, em sua casa, sua tipografia manual, com o que atende clientes de todo o Brasil, ávidos por algo que os diferencie. Cultura é cultura. Sempre. Parabéns pelo texto. Pedro
Quero saber ser eu mandar as palavras (VALE O ESCRITO VERIFICA A CÓPIA 14:00 Horas