Nosso neofeminismo

Os incidentes da violência registrados por todo o Espírito Santo, no início do mês passado, vão além dos clássicos conflitos de rua. Indicam uma nova qualidade de protesto social, agora protagonizado pelas mulheres dos policiais, ao abraçarem, braço a braço, os portões dos batalhões, numa vigília sem descanso.

Desapareceu a hipótese, de ainda poucas semanas, de cansaço na ida às praças, caracterizando esses confrontos a exaustão do diálogo com as corporações e sindicatos.

A nova militância feminina, motivada pela falta e atraso de salário no orçamento doméstico, cria uma insatisfação irredutível nos lares dessa coletividade afrontada.

Nos contatos, as donas de casa de hoje cobram diálogo direto com as autoridades e criticam a instabilidade de seus possíveis acordos.

Essa resistência passou a independer, por inteiro, da volta dos maridos ao trabalho, como se viu no posterior retorno às unidades da Polícia Militar, negociado pelo governo capixaba. Fala-se, até mesmo, numa representação do grupo, com quarenta mulheres a abrir o seu dito ‘direito’ com o governo.

No entrementes e na vigília, segue o abraço das grades e o entoar de orações, de par com o Hino Nacional. As opções ainda divergem na busca de um acordo sem precedentes.

O perigo imediato é o da generalização nacional desse conflito, como observado no Rio de Janeiro, onde essas manifestações atingiram vinte e nove dos trinta e nove batalhões de todo o estado e disseminaram medo e caos.

Deparamos, a bem da tomada de consciência coletiva do país, um novo protagonista que declara que as associações não representam as mulheres e que se trata, sem volta, de um movimento das famílias.

A novidade deverá, inclusive, passar à lei, como reconhecimento da figura do motim, tanto os policiais venham à resistência inesperada, na segurança de seus cônjuges. As normalizações da ordem pública estão à volta com novas figuras de conflito, a se superar pelo entendimento desse neofeminismo no país.

*Cândido Mendes de Almeida é da Academia Brasileira de Letras.

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