Muito além do futebol

Por em 28/06/2010

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Nelson MandelaAcima, pintura retratando Nelson Mandela.

Pela primeira vez a Copa do Mundo é realizada no continente africano. Pela primeira vez a bola, personalizada, rouba o protagonismo dos jogadores. Não será por acaso que ela tem nome próprio: Jabulani – que, no idioma zulu, significa“celebrar”.

Se não pôde comemorar a classificação dos “bafana-bafana” para a próxima fase do mundial, o povo sul-africano pode celebrar sua histórica vitória na luta contra o apartheid.

Há cerca de vinte anos as leis impostas pela minoria branca proibiam o voto à maioria negra, assim como negavam aos negros o acesso á Igreja Reformada. Essas leis impediam o casamento e criminalizavam a relação sexual entre brancos e negros, vedavam aos negros o uso de instalações, espaços e serviços públicos destinados aos brancos, bem como os obrigavam a morar em guetos. Pelo “Nactive Lands Act”, os negros (dois terços da população) tinham direito à propriedade de apenas 7,5 por cento da terra, enquanto os brancos (um quinto da população) detinha a posse de 92,5 por cento e os mestiços eram excluídos do direito à propriedade do solo.

Os líderes negros, como Nelson Mandela, Moses Mabhida, Peter Mokaba e Jacob Zuma, foram submetidos à prisão e à tortura, da mesma forma que seu povo sofreu a humilhação, a injustiça e a violência institucionalizada.

Mas a luta do povo sul-africano venceu o apartheid e construiu o país que hoje recebe o mundo inteiro para a Copa. A eliminação prematura dos “bafana-bafana” não tira dessa gente a alegria e a sustentável leveza de ser que se reflete na irreverente e indomável Jabulani.

A celebração inscrita no nome da bola comemora a força desse povo, que se uniu para conquistar o estado democrático, a inclusão e a liberdade.

*Afonso Guerra-Baião é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.

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Por Afonso Guerra-Baião, em 28/06/2010.

6 respostas to “Muito além do futebol”

  1. Marisa Bueloni

    Afonso, que lindo texto! Talvez, o mais importante de tudo seja exatamente esta festa eterna que os sul-africanos tem para comemorar: a celebração do fim do apartheid. Quanto a Jabulani, de fato, parece “indomável”… Abraços da Marisa.

    #874
  2. Geraldo Leite

    Afonso,

    Afono, muito obrigado pelo texto. Talvez seja inexplicável para muitas pessoas ao redor do planeta que apesar dos infortúnios alguns povos sejam capazes de sorrir e de se alegrar a ponto de contagiar tudo à sua volta. A África do Sul é um exemplo forte dessa capacidade humana de superação e de celebração. A desclassificação dos “Bafana Bafana” deixará, menos para a África e mais para o resto do mundo, aquela ponta de curiosidade nostálgica de como seria uma vitória sulafricana no mundial. Certamente, danças, festas e vuvuzelas para acordar o planeta, quiçá o universo. Um abraço, Geraldo Leite

    #875
  3. Geraldo Leite

    Só para corrigir: AFONSO

    #876
  4. Rina Bogliolo Sirihal

    É que os africanos vão rapidamente aprendendo a se deixar guiar pelos pensamentos dos grandes sábios e não mais pelos crimes dos grandes guerreiros. Dentro de pouco vão afastar de vez ditadores e tiranos, abutres e ganaciosos e, junto do coral de Beethoven, em sua nona sinfonia, cantarão “Seid umschlungen, Millionen…” – “Sejam unidos, milhões…” Nesse momento glorioso, todos nos sentiremos exultantes e nos daremos as mãos.

    Acabo há pouco de ver a seleção de Ghana saindo da Copa. Senti pelos jogadores e pelo povo, mas tenho-lhes fé: sei que continuarão a lutar bravamente não só no futebol, mas para que suas vidas se tornem cada vez mais dignas.

    E você, cá de longe deles, Afonso, faz sua parte mostrando a coragem e a luz desse povo. Parabéns!

    #877
  5. Geraldo Armando Martins

    Vi Mandela recebendo a seleção de Gana e parabenizando-os por terem representado o povo Africano nas oitavas-de-final da copa e me lembrei quando íamos às ruas manifestar pela sua libertação: “libertem Mandela, nosso grande irmão!”… se recorda???
    Mas não o vi com um sentimento de vingança pois o seu exemplo forjou no mundo o surgimento de jovens com corações e mentes mais humanitários.
    Tanto que nas quartas-de-final estão países onde hoje mais concentram ONG’s que procuram ajudar os povos menos desenvolvidos do planeta.
    Pude ver na COP-9 da ONU, onde representei o sertanejo norte-mineiro, as preocupações de uruguaios, alemães, espanhóis e holandeses com os desastres ambientais e as consequências sobre as populações mais atingidas, entre elas, os africanos.
    Para além do futebol, a seleção vitoriosa estará gravada na lembrança desta Nação que, acima de tudo, “celebram” a vida.
    Saudações.
    Geraldo Armando Martins

    #881
  6. É Afonso,

    Serviu a copa como um cala-boca nos preconceituosos de plantão e mostrar que a África pode, sim!
    Acho pena que o grandioso “business” em torno do futebol chama mais atenção dos responsáveis pela transmissão mais do que o verdadeiro espírito esportivo (ufa, ele ainda sobrevive, debaixo disso tudo!). Os cronistas que querem parecer cientistas e erram mais do que meninos no primário. Jogadores preocupados com seus topetes no telão e prêmios individuais e esquecem que praticam um esporte coletivo. Cristiano Ronaldo, Rooney e cia. tem seus talentos melhorados no videogame para vender suas imagens. Quando vemos o real, vem a decepção. Salve os bafana-bafana, Gana, Uruguai, os leões e zebras da copa!

    #893

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