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Monstros de mundos paralelos?

Volta e meia, surge algum relato de aparição de monstro ou de criatura não classificada pela Zoologia. Não raro, esses avistamentos são testemunhados por mais de uma pessoa, o que afasta as hipóteses de alucinação, embriaguez e até mesmo de mentira. Já tive a oportunidade de ouvir relatos idênticos vindos de várias pessoas que testemunharam em grupo uma determinada aparição, apenas com uma pequena e natural variação de detalhes- as percepções e interpretações são únicas, então é normal que um repare em coisas que o outro não reparou. As aparições costumam se dar de modo completamente aleatório, em termos de tempo e espaço e dificilmente se repetem, a não ser nos casos que entram no rol das assombrações, o que é uma outra história.

Em alguns incidentes, após o relato, as autoridades locais e mesmo moradores fazem uma busca, para tentar encontrar a criatura vista e nunca houve sucesso: ela simplesmente desaparece, normalmente sem deixar traços- embora haja casos em que pegadas foram encontradas e até mesmo moldes em gesso foram tirados. Há alguns por aí atribuídos ao Sasquatch, o Yéti e até ao Chupa-Cabras. No caso do Chupa-Cabras, o pesquisador Carlos Machado conseguiu recolher alguns tufos de pêlo, que infelizmente não puderam ser analisados, mas que, a princípio, não pertenciam a nenhum animal- por exemplo, cachorro do mato, onça- nativo da localidade onde foram achados.

Isso prova uma coisa: a realidade dessas criaturas, ou seja, são seres, até certo ponto ou de certa maneira, físicos e palpáveis. Reais, sim, mas que talvez não habitem a nossa realidade; talvez sejam nativos de uma realidade paralela e que coexista com a nossa.

Num caso célebre de Poltergeist aqui no Brasil, em Guarulhos, um ser invisível, portador de garras afiadas como lâminas, rasgava estofamentos e roupas de cama, além de arranhar pessoas. Alguns moradores da casa onde ocorria esse fenômeno chegaram a ver de relance apenas a pata com as garras e até mesmo a criatura- disseram que se parecia com um gorila. Como nesse caso aparentemente havia envolvimento com magia negra, houve espiritualistas ligados a cultos afro-brasileiros que conseguiram identificar tal criatura como sendo um Omulum, um animal habitante de regiões densas do mundo espiritual ou mesmo um espírito humano animalizado, ou seja, uma criatura que vive num mundo paralelo, mas que, sob determinadas circunstâncias, pode agir na nossa realidade e deixar marcas.

Creio que o famoso Lobisomem se encaixe nessa “fauna”. Relatos de lobisomens são antiquíssimos. No Satiricon, de Petrônio, que parece ter sido escrito em 60 d.C., podemos ler a respeito da visão de um deles. Na França, ele é conhecido como Loup-Garroux. Entre tribos da África, não há histórias sobre homens que se transformam em lobos, mas há diversas lendas sobre homens, normalmente bruxos, que se transformavam em leopardos. Aqui no nosso país, essas histórias foram trazidas pelos europeus, porém elas serviram muito mais para dar nome a criaturas que já eram vistas há muito tempo pelos índios e que recebiam outros nomes- Pé-de-Garrafa, por exemplo- ou nem nome tinham. Eram simplesmente “bichos”- Gilberto Freyre nos fala sobre este “Complexo de Bicho” que o brasileiro possui.

Sabemos que, apesar da fantástica plasticidade do corpo humano, é impossível que este se transforme em outro animal e depois volte à forma original. Sabemos também que a lua pode até influenciar o comportamento humano- vide a expressão “lunático”; existem estudos que mostram que nas noites de lua cheia ocorrem mais crimes-, mas não a esse ponto. Nem a magia pode realizar tal coisa, ela tem seus limites. No entanto, as histórias estão aí e dentre as pessoas que falam sobre tais aparições, há muita gente séria e sóbria, que não quer ganhar publicidade com esse tipo de coisa, muito pelo contrário. Meu bisavô materno, que tinha como profissão apagar lampiões de rua a gás (lá no início do século XX), viu certa madrugada uma criatura semelhante a um cão, só que de um tamanho descomunal, que veio, saída de algures, célere e feroz em sua direção. Ele tentou atirar na criatura, mas a arma não disparou em nenhuma das várias tentativas, e o monstro simplesmente passou ao largo, deixando-o atônito. Ele não bebia, era um homem simples e não tinha o costume de mentir, além de não ter ganhado nenhuma vantagem ao relatar essa história, que virou apenas um “causo” contado nas reuniões de família.

Então, excluindo os casos de embriaguez, perturbação mental e “história de pescador”, como explicar os que sobram? É provável que o ser conhecido como lobisomem seja um Omulum, criatura da dimensão dos mortos, animal que lá vive, ou um espírito humano que toma a forma de animal. Ele pode, ainda, ser um tipo de Elemental ou Elementar. Pode ser que nos locais onde esses monstros são vistos haja Linhas Ley que facilitam a formação desses portais ou janelas. Ted Holiday, em seus livros, atribui uma natureza extradimensional ao Monstro do Lago Ness. Isso explicaria a razão dele nunca ter sido detectado por aparelhos como sonares, mas ele pode ser visto e até fotografado, como ocorre com os fantasmas. Seria o caso também do Mokele-Mbembe, uma criatura muito parecida com os brontossauros, vista de vez em quando nas florestas africanas. Existe outra hipótese, no caso de dinossauros, que seria a dos Arquivos Akáshicos. Estes seriam gravações nas quais está registrado todo o passado do nosso planeta, os seres que aqui viveram, todas as civilizações e suas respectivas obras. Alguma distorção espaço-temporal poderia abrir esses arquivos e exibi-los em determinadas épocas e situações.

Há quem negue a existência dessas criaturas pelo fato de vivermos na era dos satélites que tudo mapeiam. Entretanto, é importante ressaltar que ainda existem muitos lugares não alcançados. Não é possível entrar na maioria das grandes florestas e navegar entre as árvores usando O Google Maps, nem mergulhar nos oceanos, apenas visualizar “pelo alto”. Há, na floresta amazônica, lugares onde nem os raios de sol penetram. Há pouco mais de duas décadas, foi encontrada uma tribo desconhecida, que nunca teve contato com o homem branco. Sem contar com as cavernas: existe um mundo dentro do nosso, subterrâneo, inexplorado. A natureza ainda nos reserva muitas surpresas e, diante disso, é provável que algumas dessas criaturas ditas lendárias sejam tão concretas quanto nossos animais de estimação.

Por razões que ainda desconhecemos, tais criaturas podem ir e vir, quem sabe, através de portais interdimensionais que se abrem e depois se fecham. Isso pode acontecer, é o que parece, de modo acidental, bem como dirigido. Quem sabe, nós e nossos animais e plantas sejam acidentalmente vistos, vez ou outra, por habitantes de outro mundo? É bem possível que nós sejamos os fantasmas ou os monstros para eles (como aquele cartum no qual um monstro-criança reclama com a mamãe-monstro: “Mãe, tem um humano em cima da minha cama!”).

*Adriano Marcato é antropólogo, mestre em Literatura, professor e escritor.

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