Meu filho não é perfeito, e agora?

Por em 10/05/2010


Pais e filhosO nascimento de uma criança é cercado de expectativa: dos pais, da família, dos amigos e até dos médicos. Todos esperam uma criança “perfeita”! Que seja linda, saudável, calminha,… a alegria da casa. E ela chega. Calminha, saudável, linda, enfim, a alegria da casa. Perfeita! Cada um que cria suas expectativas não se dá conta da quantidade de coisas que espera dessa criança.

Ela nasce, cresce e se dá conta que não é exatamente “perfeita”.

Os pais começam a compará-la com outras crianças e percebem que ela não é melhor sempre, que não ganha sempre, que não é boa em tudo, mas que erra, faz um monte de bobagens e apanha muito da vida para aprender certas coisas que outros aprendem com facilidade.

Que angústia para os pais perceberem que seu filho, que deveria ser o primeiro e melhor em tudo, não passa de um ser humano comum! Pior ainda é quando não enxergam essa “normalidade” do ser comum e começam a se sentir fracassados por não terem gerado filhos excepcionalmente “perfeitos”. E quantas crianças e adolescentes não são “torturados” por seus pais em uma cobrança frenética e sem sentido para que sejam os melhores em tudo sempre? Limites e aptidões, além de dons e talentos são desrespeitados nesse momento. Ainda que um menino não goste de futebol ele tem que jogar e bem, para alegria e deleite de seu pai. Ainda que a menina deteste balé ela é obrigada a dançar, esfolando os pés para agradar sua mãe, que talvez não teve oportunidade de fazer dança quando criança.

Muitos pais querem se realizar nos filhos. Tentam impor a eles suas vontades, seus desejos e até seu modo de pensar, como se a vida dos filhos fosse uma extensão da sua, uma nova chance de fazer tudo aquilo que a vida negou no passado. O resultado disso são crianças com baixa autoestima, adolescentes desajustados e adultos infelizes. Ninguém tem o direito de usufruir da vida do outro assim!

Filho não é propriedade dos pais.

Filho não é bichinho de estimação.

Filho não é peça de exposição.

Filho é, antes de tudo, gente! Que sente, que ama, que sofre, que sonha, que veio ao mundo para ocupar um lugar único, específico, só seu. Não para dar continuidade aos sonhos de ninguém. Eles têm seus próprios sonhos.

Não é sem causa que muitos filhos “sonhados” para se tornarem médicos, advogados, engenheiros e modelos, tornam-se professores, biólogos, físicos, dançarinos, cabeleireiros e acabam por embrenhar-se nas áreas mais diversas. E não é apenas em relação às questões profissionais que isso acontece. Não são poucos os filhos homossexuais que são discriminados por seus próprios pais ao assumirem sua opção sexual. Sem contar também aqueles que se decidem pelo celibato ou pela não geração de filhos. Não era isso que os pais haviam sonhado para eles…

O respeito ao outro não tem que se restringir aos de fora da família, mas, e principalmente, começar dentro de casa, em um exercício diário que se fosse praticado em todas as famílias não se teria discriminação no mundo.

Meu filho não é perfeito. E daí? Ninguém é!

Meu filho é simplesmente meu filho, a quem devo amar acima e antes de tudo. O resto é construído no dia a dia, na relação de amor e ódio que se trava entre pais e filhos. Ódio aqui citado apenas para remeter àqueles momentos em que nos iramos com eles a ponto de ter dor de cabeça, não mais que isso.

Que possamos amar nossos filhos de tal maneira que respeitemos todas as suas especificidades e apenas os apoiemos em todos os caminhos e direções por onde eles seguirem. E se eles tiverem dificuldades na vida, reais ou imaginadas, que possamos colocar este amor como escudo para defendê-los, como luz para iluminar o caminho deles e como colo, braços e abraços para o refúgio certo e seguro.

*Cristina Silveira é professora do ensino fundamental e médio, pedagoga, especialista em dificuldades de aprendizagem, docente da rede estadual de ensino (RJ) e da rede municipal de Duque de Caxias (RJ), onde atua na Subsecretaria Adjunta de Planejamento Pedagógico e autora do livro Ziraldo na Sala de Aula (Editora Melhoramentos).




Por Cristina Silveira, em 10/05/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

8 respostas to “Meu filho não é perfeito, e agora?”

  1. Ana Valéria

    Oi, Cris!
    Como é de sua natureza, você sempre expondo polêmicas que merecem mesmo ser escancaradas e discutidas, parabéns!
    O fim de Narciso não foi dos melhores… Pensando nisso, é muito importante que nós, mães e pais, entendamos e estejamos sempre em alerta para que não façamos de nossos filhos pseudoexemplos. Ao contrário, temos que garantir o espaço individual que gere autonomia responsável, com erros e acertos que lhes pertencem.
    Grande bj, Ana V.

    #732
  2. Rosangela Cardoso Serrenho

    Cristina,
    Belo texto! Cobrança de perfeição é um dos males desta nossa sociedade doentia.
    Não esqueçamos de que nós pais também somos imperfeitos e que o erro faz parte do processo de crescimento do ser humano. Beijos

    #733
  3. JOSÉ PATROCÍNIO

    Cristina, a tua sensibilidade, o discernimento e a visão do problema exposto nos induz, indubitavelmente, à reflexão acerca de nossas próprias imperfeições, as quais são normalmente fechadas a sete chaves, pois nos fragiliza caso sejam tornadas públicas. Excelente tema, perfeitas colocações. Forte abraço do Kid

    #734
  4. Geni Nascimento

    Cris, muito oportuno o artigo para um momento de reflexão, pois cobramos essa perfeição, às vezes, simplesmente para agradarmos a terceiros que nem conhecem de fato nossos filhos. Se não tivermos plena convicção do nosso papel desempenhado, provavelmente aceitaremos críticas negativas com muita facilidade. Afinal, quem se julga perfeito simplesmente se acomoda. Bjs, amiga.

    #739
  5. Prezada amiga Cristina

    Como sempre, seus comentários são didáticos e, portanto, construtivos e educativos. Não podia ser diferente, uma vez que você é uma educadora no sentido lato. Como meus pais eram pobres, eu não tive esse problema. Eu fui fazendo o que a minha intuição ia dirigindo. Comecei como engenheiro e terminei como rofessor. Meus pais, que estavam mais precupados no nosso sustento material, não foram responsáveis por minha escolha.
    Nesse seu conselho educacional, gostei quando você diz que os pais projetam nos filhos seus desejos e frustações.
    Um abraço amigo do
    Bassalo

    #742
  6. jose alexandre da silva

    Se tomarmos como referência os textos de Freud no qual este “afirmava” que os filhos são – além da perpetuação da espécie – a manifestação viva de todas as frustrações, anseios e angústias dos pais, será natural que alguns dos aspectos mostrados pela autora do artigo surjam como uma espécie de espelho duplo de nós mesmos.

    #743
  7. graziela

    Gostei muito e vou divulgar!!!!

    #766
  8. Ricardo Santos

    Cristina,
    Muito interessante o texto e se aplica a um contexto em que os pais fazem dos filhos uma extensão de si mesmos, como você bem diz, os sonhos dos pais são realizados no filhos. No entanto, é preciso apreciar outros contextos, como a expectativa não só dos pais, mas as induzidas pela sociedade. Profissões estão sendo escolhidas pela chamada nota de corte e isto já consta de questionários paralelos à inscrição dos candidatos. Será que nossos jovens são orientados para fazer uma opção por si só? Naturalmente que sua visão que não devem ser os pais está corretíssima, a meu ver. Mas o que está sendo colocada no lugar dela? Quando os pais não influenciam na escolha e simplesmente dizem ” você terá que ganhar a vida, trabalhar, se sustentar, pois um dia não estarei mais aqui”. Além do que, naõ creio que o principal seja a linha de corte, no processo de escolha, nem o que os pais desejam, mas o que o mercado decide e a Universidade obedece, sem a devida formação crítica para a vida e o próprio mercado. Complexa a questão, quando visualizada na sua totalidade. Apreciei muito o artigo no contexto da relação pais e filhos, público para o qual se dirige. Abs e Parabéns

    #1153

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