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Meu cartão azul

Cartão azul
Entramos na Primavera e saí a ver as flores. Sentei-me num banco de praça e fiquei vendo um jogo de futebol de salão jogado por moças. Era a Primavera em movimento… Todas em rabo de cavalo, coloridinhas e astuciosas como as flores. Astuciosa? Sim… Não se engane. Mulher e flor quase sempre estão pescando e só pescam de garatéia, aquele aparelho de pescar geralmente com três anzóis; aparelho de pescar 3 em 1. Difícil escapar, diz o peixe. A flor se não pega o besouro pelo anzol da cor, pega pelo anzol do cheiro ou pelo anzol da astúcia. E de primavera em primavera o besouro cai na mesma cilada, mas é uma cilada boa, espalha o colorido, a vida. Lá vai o besouro voando, banhado de sementes. Já o homem chega um tempo em que deixa de ser besouro e enxerga a garatéia; que as cores e os cheiros são ilusões, mas vai assim mesmo porque reconhece a primavera e a ilusão não podem deixar de existir. O cronista é um besouro consciente, inclusive da sua ganância…

Disse há pouco que tinha saído a ver as flores, mas não foi bem assim. A mando da Primavera uma planta é que lançou o seu anzol colorido na minha janela e me arrancou de casa. Na minha infância eu gostava de sair da baixada onde morava e ir à casa da minha tia Maria, à noite, no alto do morro e de lá ficar olhando a Dutra, onde a Primavera não cessava nos letreiros luminosos e coloridos, espalhados nas margens da rodovia.

Mas foi olhando o jogo das Flores que me veio uma analogia da crônica e a quadra de futebol de salão. Não sei se a analogia é forte ou fraca, filósofo, mas julgue você mesmo, porque na crônica e no futebol de salão é tudo muito rápido, o espaço é apertado, e os dribles são curtos.

Na crônica e na quadra raramente as jogadas são aéreas; é um futebol de bola no chão; não de chuteiras com aquelas travas nas alturas, mas de tênis de sola plana; ao rés-do-chão como diz Cândido. Mas veja: vez por outra cronista faz gol de cabeça.

Outro dia li que a crônica difere da notícia e da reportagem porque não tem o fim de informar, mas refletir sobre o acontecido, entanto, refletir é pensar demoradamente e demoradamente é palavra que não cabe na crônica nem na quadra de futebol de salão. O refletir em ambas tem que ficar entre o rebaixamento e o G4; a precipitação e a prudência. E isso não é fácil. Melhor é fazer Medicina ou Matemática.

Essa Primavera se inaugurou com chuvas, chuvinha, mas estando resfriado fui me recolher numa Lan House e ler meus e-mails. Um deles era da Monique, que estava no computador ao lado e disfarçadamente lia o início dessa crônica, e veio escrito assim:

Sr. Lukata, lendo as suas crônicas “Meu cartão vermelho” e “Meu cartão amarelo”, vi que você fala de mim, então gostaria de usar o meu direito de resposta e vê-lo publicado também.

Ora, Lukata, se a crônica é um texto ao rés-do-chão, então não me venha jogar de chuteiras. É trazer os calçados certos: tênis de sola plana. Se a crônica é uma quadra de futebol de salão, onde tudo é rápido, dribles curtos, pouco espaço, porque você demorou 6 meses para me entregar um bilhetinho? Eu avisei: já estava noiva e para casar. Você leva 6 meses e ainda reclama um coração ensanguentado? Não dá! Você errou de futebol. Era de salão e não de campo.

Eu ia ao Posto de Saúde, não esperando uma jogada de profundidade, mas de palavras com peso de bola de futebol de salão; que não ficassem quicando dentro de mim. Frivolidades com a crônica sim, comigo, não!

A cada ida, sem nem precisar nebulizar, perdi as contas dos cartões azuis que lhe dei na esperança de que ao retornar você acertasse a jogada, partisse para o ataque, mas você ali, parado… É um oligofrênico! Veio um Prometeu roubou a bola e chutou no ângulo.

Olha, você deveria ouvir o músico Marcos Valle: “Eu preciso aprender a ser só”. Nada de Gilberto Gil: “Eu preciso aprender a só ser”. O melhor para você é ficar só. Ou nunca passou pela sua cabeça que eu poderia ser uma Pandora abrindo uma caixinha na sua vida, Epimeteu?

É! Não passou! Você é um Epimeteu. Mas pára de me dar cartão azul no teu peito, Lukata. Solta logo esse cartão vermelho e me expulsa desse corpo agora para nunca mais voltar.

*Lasana Lukata é poeta e escritor, morador de São João de Meriti, no Rio de Janeiro.

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