Mensalão: a culpa é dos mortos e do caixa dois

Por em 10/08/2012

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Nós brasileiros, tolos e babacas, continuamos, diante da estrutura corrupta do estado brasileiro, com a bunda na janela para que os espertos, “inocentes e bem intencionados ex-ideólogos de esquerda”, até então ditos arautos da decência e da justiça social, passem a mão nela. O problema é que babaquice tem limites. Até aqui, no julgamento da quadrilha do maior crime político da história-pátria, o denominado mensalão, que envolve, entre os acusados, políticos influentes do partido das vestais (PT), os únicos culpados, pelo visto, são os mortos, como um ex-vice presidente do Banco Rural, além do caixa dois, onde neste último caso, embora réus confessos da irregularidade fiscal – um grave crime de lesa-pátria e de desvio de dinheiro -, já se considerem absolvidos pelo decurso de prazo (prescrição). Um crime, portanto, dentro da legalidade.

De fato, para os tolos e otários como nós, que cumprimos o dever de cidadãos e pagamos nossos pesados impostos para sustentar o estado brasileiro, jamais teremos a inteligência necessária para compreender a intrigada e inimaginável manobra da criminalidade econômica que beneficiava alguns espertos políticos. Na coluna de opinião de O Globo, na edição desta quarta-feira (09/08/12), um jornalista, voltado para a área econômica, tenta explicar aos leitores o sofisticado emaranhado do ousado esquema denunciado como criminoso pelo Minsitério Público. Seria mais ou menos assim: um banco, em tratativas com o governo para para uma concessão que necessita, empresta uma vultosa quantia a um partido político, no caso o PT, com o argumento de que o citado partido, endividado, possa sanear sua contas. Nada demais. O empréstimo é feito através de uma agência de publicidade que tem negócios com o governo e que vai participar de licitações públicas e é indicada pelo governo para receber o empréstimo. Nada demais. Depois alguns empregados, do empresário-mor, fazem saques escamoteados de altas somas em dinheiro do banco para serem entregues a alguns políticos (espertos) que se beneficiarão do dinheiro ilícito e ainda repassarão parte dele a políticos de outros partidos para que votem com o governo nos projetos de seu interesse. Um samba do crioulo doido. Um crime quase perfeito não fosse o ex-deputado Roberto Jefferson ‘jogar no ventilador’ para não ser a palmatória do mundo.

Entenderam? Um pouco difícil para a nossa mediana inteligência compreender, realmente. Talvez nem Al Capone entendesse. O esquema ardiloso é de tão difícil compreensão que a estudiosa ministra Rosa Maria Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF) para poder conhecer em profundidade e ter base na análise julgamental, para condenar ou absolver, precisou contar com a ajuda do juiz federal Sérgio Moro, especialista e estudioso em julgamento de crimes de lavagem de dinheiro e considerado um magistrado rigoroso em suas sentenças. Não demora muito, o esquema é tão bem feito para não deixar rastros, não será nenhuma surpresa se o próprio procurador-geral da república, Roberto Gurgel que ofereceu a denúncia, em nome da decência na coisa pública, passar a ser réu de crimes de infâmia, injúria, danos morais além de crime contra a honra de alguns mensaleiros. Vergonha nacional. Imaginem se até aqui nada fosse denunciado e de nada soubessemos do ardiloso esquema? Com toda certeza o país já estaria a bancarrota e alguns bolsos superlotados de dinheiro.

Logo o partido que pregava a ética e a decência e que por muito menos foi às ruas, com a bandeira da moralidade, para o impeachment do ex-presidente Collor. Alguns dos réus do mensalão são os mesmos, inclusive, que aderiram à luta armada em nome da causa marxista-leninista, sob a bandeira da justiça social, pelo estado máximo e capitalismo mínimo, da inexistência da estratificação de classes sociais, do fim da propriedade privada, da espoliação agrária,etc, etc. Ocorre que o poder da grana, da vantagem ilícita e da fraqueza moral muitas vezes fala mais alto . E no caso do mensalão há todas as evidências de crimes de peculato, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva.

O que mais desencoraja é que diante da possibilidade impar do início do processo da moralização na política brasileira -falta também julgar o mensalão do PSDB em Minas Gerais- talvez uma decisão decepcione o povo brasileiro. A aposta é de um ex-ministro do STF: “Para a frustração se menor é preciso avisar à população que os réus do mensalão serão condenados, mas ninguém vai ser preso”, disse o magistrado. Num país de lei mais duras e menos misericordiosas alguns dos mensaleiros talvez já saíssem do tribunal algemados e encapuzados e direto para o pelotão de fuzilamento por cometerem gravíssimo crime de lesa-pátria. Em Cuba o mestre da ditadura da esquerda Fidel Castro, no páis onde alguns dos mensaleiros foram tomar aulas da guerra de guerrilha, seria assim.

No Brasil, no entanto, ao que tudo indica continuaremos, por muito tempo, com a bunda na janela para que passem a mão nela. Saudades do Gonzaguinha. O que esperar das futuras gerações com tantos episódios de mau exemplo no alto poder? Somos o país onde o ex-presidente da república nada sabia sobre o mensalão, depois declarou tratar-se de uma farsa, depois se considerou traído pelos companheiros, depois tentou adiar o julgamento ardilosamente (a imprensa denunciou) e que agora diz que tem coisas mais importantes a fazer do que assistir ao julgamento do mensalão. Profundamente lamentável. Contiunamos sendo o a país do mau exemplo.

*Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro.






Por Milton Corrêa da Costa, em 10/08/2012.

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