Meditando escada abaixo (ou porque um Feliz Ano Novo)
Aconteceu mais pro final do ano mesmo. Foi em outubro. A manhã estava chuvosa. Uma chuvinha fina, daquelas criadeiras, que já vinha caindo havia algumas boas horas. Eu me encaminhava para uma reunião de pauta de uma revista de empresários, e atravessava a passarela do Metrô São Cristóvão, na direção da Universidade Veiga de Almeida. Ao chegar do outro lado e começar a descer as escadas, o solado de borracha de minhas sapatilhas e a emenda de metal dos degraus da passarela — então batizados com a água da chuva — deixaram clara a sua incompatibilidade do momento, e tudo trocou de repente de lugar. Como naquele “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”, da música, aqui foram o céu e a terra que tomaram o lugar um do outro. Alternadamente e muitas vezes, o que era um sinal claro de que eu estava rolando as escadas. Isso mesmo. Rolei, sem qualquer cerimônia, aqueles degraus de cimento armado, numa velocidade vertiginosa que, de tão desabalada e imprevista, mudou rapidamente para um slow motion em que tudo passou a desfilar como que sem pressa diante de mim.
Curiosamente, enquanto eu quicava por aquele lance de escadaria, minha mente acalmou-se. Eu sabia o que estava acontecendo, era tudo muito claro. No entanto, apenas constatei aquilo, sem muita emoção. Não mais do que um vago “você está rolando a escadaria, Marcão”, que percorreu descontraído a minha mente, e de resto foi um vazio sem julgamento. Uma contemplação pura de mim mesmo, de meu corpo descendo, indefeso, aquelas arestas ameaçadoras, apenas as mãos defendendo instintivamente a cabeça e a boca, o resto totalmente entregue à queda. Não era um conformismo, uma aceitação de tragédia. Mas tampouco havia qualquer recusa ou negação. Era apenas a consciência atenta, relaxadamente atenta, experimentando a coisa, sem análise ou valoração.
Quando cheguei ao patamar logo abaixo, após o qual haveria outro lance de degraus que me acolheria em queda quase livre, sem maiores problemas, parei de cair. Tão logo me reorientei, chequei os braços, as pernas, e inventariei os ossos, os dentes e as roupas, percebi que estivera realizando, talvez, o que teria sido o mais sereno exercício de meditação que já vivenciara até ali. Não apenas a meditação formal, a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo, mas a meditação do dia a dia. Da vida que a gente, quando medita, se habitua a meditar. A contemplar com serenidade as dores e os prazeres. Cuidando-se de se colocar a salvo dos excessos da tristeza e da alegria.
Já naquela minha meditação escada abaixo, eu pressentia que 2009 iria chegar ao fim como um período bom de ter sido vivido. Mas ao longo das últimas horas do ano, que escoaram mais rapidamente do que de costume flui o tempo, percebi porque ele foi assim tão bom. A princípio pensava que havia sido pelo fato de eu ter vivido mais coisas agradáveis do que desagradáveis. Mas não. Todos os meus momentos haviam sido feitos de luz e sombra. Do prazer de mergulhar, extasiado, na escrita do meu novo livro, por exemplo, e da dor ou das lacunas que ele às vezes me suscita. Do encanto em ouvir a amada chamar-me Amor Meu, enquanto percebe como nova luz seu próprio encanto — e do medo que isto a ela suscita.
Percebi, então, que era da mistura dessas mutações, desse solve et coagula que se construía a minha contemplação. E foi dessa contemplação que vi desenhar-se o alumbramento com o que meu coração sentiu chegar os primeiros segundos do Ano Novo.
*Marco Antonio Coutinho é escritor, mora no Rio de Janeiro e anima o blog “E por falar nisto…” (http://eporfalarnisto.blogspot.com). Suas crônicas são publicadas aqui com autorização expressa do autor..
Por Marco Antonio Coutinho, em 13/01/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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