Mediocridade, uma praga contagiosa

Por em 13/03/2010


MediocridadeInfelizmente, tenho notado nesses últimos anos, analisando a sociedade, como é meu costume, devido minha formação filosófica e teológica que os estudos me proporcionaram, percebi que cada vez mais nossa sociedade vem sendo imbuída e até obrigada de forma velada a tomar atitudes de pessoas de visão curta e sem nenhum espírito de vôos altos. Podemos dizer, sem medo de errar, que existe uma verdadeira ditadura da mediocridade quando não se incentiva, se proíbe ou no mínimo age como tal.

Num texto de La Fontaine, ele descreve a fábula da águia e da galinha. Da literatura para a vida, logo percebemos que encontramos poucos com vontade de ser “águias” – por isso se acomodam sendo “galinhas” – olhando apenas para as minhocas que á vida nos oferece.

Chegamos a ponto de o ser humano viver da bisbilhotice, da “espiada” da vida alheia com estilos Big Brother e companhia. Então, só nos resta perguntar: como podemos formar uma sociedade mais justa, mais humana e mais religiosa se optamos pela mediocridade e pelo mediano da vida? Uma sociedade cresce quando seus membros têm desejos das alturas, dos cumes; ou seja, de crescer, seja intelectualmente, religiosamente, fraternalmente. Volto a dizer que vivemos da mediocridade que a vidinha nos oferece.

Há medíocres e medianos. Tem-se o direito de ser mediano (nem todos há de ser geniais), tanto quanto o de ter nascido com um estofo pessoal vigoroso, ou apenas suficiente.

A mediocridade é o mal dos que, inteiramente absorvidos nas delícias da preguiça e pela exclusiva deleitação do que está ao alcance das mãos, pelo inteiro confinamento no imediato, fazem da estagnação a condição normal de suas existências.

Não olham para trás: faltam-lhes o senso histórico. Nem olham para frente, ou para cima: não analisam nem prevêem. Têm preguiça de abstrair, de alinhar silogismos, de tirar conclusões, de arquitetar conjecturas. Sua vida mental se cifra na sensação do imediato. A abastança do dia, a poltrona cômoda, os chinelos e a televisão – não vão além seu pequeno paraíso.

Paraíso precário, que procuram proteger com toda espécie de seguros: de vida, de saúde, contra o fogo, contra acidentes, etc., etc.

E tanto mais feliz o medíocre se sente, quanto mais nota que todas as portas que podem se abrir para a aventura, para o risco, para o esplendoroso – e, portanto, também, para os céus da Fé, para os largos horizontes da abstração, os imensos vôos da lógica e da arte, para a grandeza de alma, para o heroísmo – estão solidamente cerradas. Por meio do sufrágio universal, os medíocres fizeram tantas leis, tantos regulamentos, instituíram tantas repartições públicas, que nenhuma fuga das almas superiores, para fora dos cubículos dessa mediocridade organizada, é possível. Sem terem a intenção de o fazer, os medíocres impõem, entretanto, às mentes de largos horizontes, a ditadura da mediocridade.

*Agnaldo Ferreira dos Santos é filósofo, teólogo, professor universitário e secretário municipal de meio ambiente de Porto Velho (RO). Contato através do e-mail: agnaldo80yahoo.com.br




Por Agnaldo Ferreira dos Santos, em 13/03/2010 - 00:05. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

4 respostas to “Mediocridade, uma praga contagiosa”

  1. Marisa Bueloni

    Professor, parabéns pelo maravilhoso texto! Infelizmente, há uma multidão acomodada diante da tevê – a poltrona, os chinelos – numa visão estreita do mundo e da vida. Poucos conseguem desenvolver espírito crítico e fugir do senso comum. E quando a ditatura da mediocridade se instala… é um desastre!

    #493
  2. Afonso Guerra-Baião

    Professor Agnaldo,
    seu texto me fez lembrar um comentário de Sartre. O filósofo disse que preferia viver como um ser angustiado, mas consciente, a ter a vida feliz, porém medíocre, de um ente alienado.
    Meu abraço.

    #497
  3. Sérgio de Brito

    Na verdade, trata-se de um texto egoísta, pois você defende o que acredita como verdade única e absoluta. O que para você é mediocre, para outro é verdade e realização. Uns conseguem atingir certos ditames da civilização, e outros não. Então eu me pergunto… mas como estes ditames são belos, instrutivos e cultuados pela maioria, por quê a outra parte não me acompanha? a parte medíocre. Porque a mediocridade não existe. O que existem são grupos que se separam dos demais e cultuam sua verdade como única e absoluta.
    Mas não se preocupe, eu faço parte de seu grupo.

    #1495
  4. Sérgio de Brito

    Na verdade, trata-se de um texto egoísta, pois você defende o que acredita como verdade única e absoluta. O que para você é mediocre, para outro é verdade e realização. Uns conseguem atingir certos ditames da civilização, e outros não. Então eu me pergunto… mas como estes ditames são belos, instrutivos e cultuados pela maioria, por quê a outra parte não me acompanha? a parte medíocre. Porque a mediocridade não existe. O que existe são grupos que se separam dos demais e cultuam sua verdade como única e absoluta.
    Mas não se preocupe, eu faço parte de seu grupo.

    #1505

Comente!

Busca

Colunistas



BannerFans.com