Mais um pouco das mentiras da mídia sobre a greve dos servidores


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Passando pela banca de jornal, vejo que o ‘Extra’, jornal aqui do Rio, traz hoje uma manchete daquelas imensas, com os seguintes dizeres: “Grevistas só punem quem paga o salário deles: o povo”. E isso acompanhado de uma foto que destaca as filas que se formaram nas barcas, graças à operação da polícia rodoviária federal na Ponte Rio-Niterói.

Pra quem sabe que o jornalismo não passa de mais um tipo de drama e pra quem sabe que tipo de linha segue o Extra, jornal das organizações globo, isso não é novidade. Mas vale desmembrar um pouco a questão.

Dificilmente se faz uma greve à toa. Na grande maioria das vezes, ou o governo demora pra pagar o que deve, ou seja, as atualizações dos rendimentos em relação à inflação e os demais valores que ele deve pagar por lei, ou então não cumpre com as exigências constitucionais, de gerar um serviço público de qualidade para a população, através de melhores condições de trabalho para os servidores, o que inclui uma boa remuneração, mas também, e principalmente, ferramentas adequadas, além de preparação e atualização teórica e técnica constantes para os servidores. Quem acompanha os setores estratégicos da esfera pública, como educação, saúde, saneamento básico e habitação, sabe que a coisa anda de mal a pior. Existe uma visão excessivamente tecnicista por parte do governo do PT, que na verdade apenas repete os modelos anteriores. O PT arrecada mais, mas centra a sua maneira de governar na ideia de que o importante é melhorar os resultados quantitativos. Entretanto, isso é muito pouco, especialmente quando falamos da esfera pública, porque na esfera pública não interessa que se tenha apenas resultado numérico. É preciso tornar o serviço melhor em todos os níveis, porque é ali que se faz a maior das “políticas”.

Nesse sentido, vale dizer que a manchete do ‘Extra’ traz várias distorções marotas, que evidentemente refletem a maneira de enxergar do veículo (e da mídia comercial em geral). Vejamos algumas.

Para início de conversa, a greve só “puniria o povo” se ela não tivesse fundamento. Tendo fundamento, ela faz exatamente o contrário, ou seja, se configura como uma luta para que o serviço melhore, como sequência da melhoria de condições exigida pelo movimento grevista.

Para além disso, a semântica malandra do jornal passa a ideia equivocada de os servidores estariam de um lado e o povo do outro. Igualmente equivocado. Povo e esfera pública são a mesma coisa, na medida em que adotamos um modelo republicano de sociedade. O objetivo parece claro: piorar a visão que a população já tem do serviço público. Por quê? Bom, isso pode criar de fato uma atmosfera favorável à já encaminhada privatização de vários setores.

E por último, em nenhum momento as perdas de rendimentos são citadas na manchete, o que mostra que isso não interessa aos jornalistas do veículo. Não há nem uma greve que esteja pedindo valores acima da inflação, ou algum tipo de absurdo no que diz respeito às melhorias funcionais necessárias. Mas isso não parece sensibilizar a mídia comercial, faminta que é por divinizar a esfera privada e satanizar tudo o que é da ordem do público.

Acho, inclusive, que a palavra “salário” não fica muito bem colocada quando se fala do serviço público. É uma palavra que já está bastante impregnada pela semântica do mercado e quando pensamos na esfera pública me parece que fica melhor algo como “rendimento” ou “benefício”. No fundo, o serviço público tem que ser uma das contrapartidas do imposto. Trata-se, portanto, de um círculo que começa com o pagamento da quantia pelo cidadão, passa pela distribuição justa e legal do governo e pelo retorno do servidor, que deve gerar o serviço para o qual foi designado. Imposto, como sabemos bem, não falta. O bom encaminhamento do governo é que tem deixado a desejar, desde que acabou a ditadura militar, na verdade. Temos sido reféns das iomposições do FMI desde lá, e hoje em dia não é diferente. E uma maior soberania em relação ao dinheiro público interno é uma das reivindicações de parte da greve. Além de uma auditoria da dívida pública, que ainda não foi feita pelo governo que foi eleito prometendo fazê-la. Isso tem que mudar, de uma vez por todas.

Portanto, com esse tipo de manchete, a única coisa que o ‘Extra’ mostra é que não tem a menor vontade de melhorar a vida do povo. O objetivo deles é apenas continuar a queimar o filme do serviço público, para manter a pressão por novas privatizações e pela manutenção de um modelo neoliberal que só interessa a eles e aos poucos que acreditam que isso pode gerar algum tipo de benefício para as pessoas. Vários países já perceberam que devem testar novos modelos, inclusive muitos deles da nossa América Latina. Já está mais do que na hora do Brasil fazer o mesmo. E para chegar lá, um dos passos é romper com essa mídia vendida que temos por aqui. Porque o barato deles continua sendo o mesmo: lucrar, lucrar, lucrar. E isso tá longe de bastar…

*Marcelo Henrique Marques de Souza é do Rio de Janeiro. Ele mesmo declara: “Sou escritor e professor de um monte de coisa ligado às ciências que chamam de “humanas”, como se houvesse alguma ciência de cachorro. Ensino (e aprendo) filosofia, redação, literatura, ética e cidadania e preparação de monografia, no ensino fundamental 2, ensino médio, graduação de pedagogia e pós-graduação em ‘educação e comunicação’ e ‘psicopedagogia’. Meus textos são ensaios e artigos críticos da lógica ocidental, que se baseia na tríade patética que mistura a sacanagem do mercado (a propaganda incluída), a hipocrisia do cristianismo e a falácia dos racionalismos. É contra isso que busco a impostura da crítica”.

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Por Marcelo Henrique Marques de Souza, em 13/08/2012.

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