Mais um erro estatístico
Tanto as estatísticas oficiais — ou seja, as que são divulgadas na imprensa – como as não-oficiais – aquelas que desde sempre são incutidas em nossa mente – são tão falsas quanto o cinema norte-americano. Elas nos fazem pensar de determinada forma, nos induzem a algo, quando nem sempre aquilo é aquilo que é. Ao pensarmos em números, porcentagens, chances, já damos um passo atrás rumo ao que queremos.
Um presidente negro nos EUA, uma primeira-dama também negra, vinda das classes baixas, um mulato, gago, epiléptico e com pouquíssimo estudo se tornar o maior escritor brasileiro de todos os tempos, são apenas alguns exemplos do que digo. Essas pessoas são fracassos estatísticos. Tinham tudo para dar errado, como as estatística apontavam, e serem mais números na montanha de números que eram para ser. Mas alguma coisa houve, em algum momento do caminho, que os transformou em pessoas. Esqueceram sua condição de número, para assumir uma personalidade capaz de mudar a realidade – e conseqüentemente as estatísticas.
Leandro Angonese, 38 anos, metalúrgico, casado e pai de dois filhos é nosso exemplo caxiense de falha estatística. Com o ensino médio mal concluído em escolas públicas, nascido em família humilde e sem possuir sequer um computador ultrapassado, Leandro acaba de ser premiado em um dos concursos de poesia mais importantes do sul do país, o Prêmio Cataratas, de Foz do Iguaçu. A mim, que acompanho sua trajetória há anos, não é novidade. Só estatisticamente é. Porque Leandro é consumidor da alta literatura desde os 14 anos e escreve desde os 18. Porque leu e releu Mário Quintana, Augusto dos Anjos, Paulo Leminski, Flávio Ferrarini e Dinarte Albuquerque diversas vezes. Porque já venceu mais de dez concursos literários e tem dois livros publicados, ambos financiados pelo Fundoprocultura, a saber: “Palavras ao Vento” e “Pá de Cata-Vento”, encaminhando-se para o terceiro, sem dúvida o melhor e que eu tive a honra de ler em primeira mão: “Orações de um Ateu”. Aliás, o poema premiado no Paraná é justamente o que dá título a este livro, que anda à cata de patrocínio para poder sair da probabilidade.
Leandro é um guerreiro, um exemplo de brasileiro, um poeta de mão cheia, que conhece muito bem o tamanho do que ainda deve aprender. Ávido leitor, gosta de comprar o que vai ler, para ter em casa e pesquisar depois e sempre. Um homem aberto a novos conhecimentos e disposto a isso. Simples, tímido até. Muito longe da arrogância intelectualóide que vemos por aí, tomada de um eruditismo seco e sem viço. Leandro vê a poesia mais como sentimento do que como técnica. Porque a técnica, sozinha, é fria, embora importante.
Não dá para saber o que será deste poeta daqui para a frente. Se eu tentasse profetizar, estaria caindo em estatística, e isto, está mais do que provado, não funciona, pelo menos com este tipo de pessoas. Porém, o que Leandro já fez o coloca como exemplo a ser seguido, demonstrando que o meio em que vivemos e os meios que temos para alcançar determinados fins são fatores importantes, mas não decisivos.
Leandro Angonese, precisamos guardar este nome.
*Uili Bergamin nasceu em Bento Gonçalves, RS, no dia 02 de fevereiro de 1979. Destaca-se por sua escrita concisa, e pela busca das palavras certas, que encaixam perfeitamente ao texto. Bergamin é também colunista em jornais e revistas de circulação em Caxias do Sul e região.
Obras publicadas
O Sino do Campanário (2005, contos, Editora Maneco) Coletânea de catorze contos e obra inaugural do autor. Apesar do título, não é propriamente um livro religioso. Talvez seja antes o contrário. O conto que nomeia a obra, por exemplo, narra a história de um padre que, aos 70 anos, revê sua vida e relembra um grande amor do passado. A solidão do celibato, a angústia de estar teminando de viver, o fracasso de uma vida que não realizou seus sonhos nem o de seus pais, faz com que transfira suas dores ao sino de sua igreja, como única forma de redenção. Praticamente todos os contos têm como fio condutor a crença, o amor e a dúvida. Seus contos são independentes e escritos de maneira simples, porém, seu texto é polêmico e questionador, e incita à reflexão sobre crenças, verdades e dogmas.
Cela de Papel (2006, novela, Editora Maneco) Novela fragmentada, com nuance autobiográfica. É uma fantasiosa alegoria sobre a arte da leitura. Repleta de metalinguagens.
Do Útero do Mundo (2007, poesias, Editora Doravante) Impiedosos e intensos, luminosos e sombrios, a maioria dos poemas que compõem a obra já obteve alguma premiação literária. Do Útero do Mundo vem sendo muito elogiado pelos leitores e também pela crítica.
Por Uili Bergamin, em 02/03/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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Muito bom Uili. Como disse um cara da IBM certa vez:”Se vc quer ter sucesso, duplique sua taxa de fracassos”
E a história do Leandro é um estímulo pra todos que praticam a escrita e outras formas de arte..
abraços