Literatura marginal

Por em 30/01/2010


Literatura marginalEntrevista de Uili Bergamin com o Professor Universitário e Poeta Dinarte Albuquerque Filho

1 – O que é literatura marginal? Quem são seus precursores no mundo e no Brasil?

Definir literatura marginal é sempre um complicador, visto que muitos negam sua marginalidade. Mas, como lembra Fernando Paixão, poesia marginal, no caso, é toda aquela produzida/consumida fora dos circuitos de editoras comerciais e leitores convencionais. Quero crer que desde a Grécia Antiga muitos autores percorreram esse caminho. Os poetas franceses do Simbolismo, os russos da Era Stalin, segregados, os fazedores do haicai nas sendas do Oriente de sete, oito anos atrás, os brasileiros Cacaso, Paulo Leminski, Chacal e tantos outros. Na prosa, recentemente houve um movimento organizado de publicação de autores como Ferréz. Em todos os casos, pode-se ver que todos “encontraram” um caminho nas editoras (pequenas ou grandes) e, com isso, sopraram ventos novos no fazer literário.

2 – Qual a contribuição da marginalidade para a literatura brasileira?

Difícil de apreciar, ainda, a não ser da geração dos anos 60 que, como dito, alguns tornaram-se, inclusive, “campeões” de vendas.

3 – Podemos dizer que existe hoje um nome que se destaca neste gênero (se assim podemos chamar) de literatura?

Sim Ferréz, com seu trabalho em Capão Redondo , é um bom exemplo.

4 – A sua poesia, pelo que se percebe, sofreu forte influência de Leminski, além de outros escritores marginais ou que flertaram com o movimento. Você se considera um poeta marginal?

Se formos observar os parâmetros acima, somando que os livros, com exceção dos dois últimos, foram publicados às próprias custas, sim. Mas, ao mesmo tempo, não tamanha “pureza”.

5 – Estar “à margem” é um obstáculo para o artista ou uma forma idealizada de encarar a vida e a arte?

Às vezes, uma coisa, outras, a segunda.

6 – Existe algum tipo de movimento marginal em Caxias do Sul hoje? Um Fanzine pode ser considerado um veículo de disseminação de cultura marginal?

Desconheço, mas é o veículo próprio, pelas suas características, de fácil distribuição e baixo custo e com certa independência para expressar idéias às vezes até conflitantes.

*Uili Bergamin nasceu em Bento Gonçalves, RS, no dia 02 de fevereiro de 1979. Destaca-se por sua escrita concisa, e pela busca das palavras certas, que encaixam perfeitamente ao texto. Bergamin é também colunista em jornais e revistas de circulação em Caxias do Sul e região.

Obras publicadas

O Sino do Campanário (2005, contos, Editora Maneco) Coletânea de catorze contos e obra inaugural do autor. Apesar do título, não é propriamente um livro religioso. Talvez seja antes o contrário. O conto que nomeia a obra, por exemplo, narra a história de um padre que, aos 70 anos, revê sua vida e relembra um grande amor do passado. A solidão do celibato, a angústia de estar teminando de viver, o fracasso de uma vida que não realizou seus sonhos nem o de seus pais, faz com que transfira suas dores ao sino de sua igreja, como única forma de redenção. Praticamente todos os contos têm como fio condutor a crença, o amor e a dúvida. Seus contos são independentes e escritos de maneira simples, porém, seu texto é polêmico e questionador, e incita à reflexão sobre crenças, verdades e dogmas.

Cela de Papel (2006, novela, Editora Maneco) Novela fragmentada, com nuance autobiográfica. É uma fantasiosa alegoria sobre a arte da leitura. Repleta de metalinguagens.

Do Útero do Mundo (2007, poesias, Editora Doravante) Impiedosos e intensos, luminosos e sombrios, a maioria dos poemas que compõem a obra já obteve alguma premiação literária. Do Útero do Mundo vem sendo muito elogiado pelos leitores e também pela crítica.




Por Uili Bergamin, em 30/01/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

4 respostas to “Literatura marginal”

  1. Geise Kelly

    O nome da obra de Ferréz é “Capão Pecado”. =D

    #1159
  2. raoni

    ele se refere ao trabalho na favela Capão Redondo e não à obra que você citou.

    #1737
  3. Lucas Galvão

    Entendo o escritor marginal, no que tange a sua “escolha” por sê-lo ou por adotar este rótulo, não só do ponto de vista de ele se querer distanciado do mercado editorial por este ou aquele motivo. Trata-se, antes de tudo, de uma opção estética e ideológica que é, entre outros aspectos, principalmente problemática.

    Em muitos dos exemplos que podem ser dados (cito, por hora, somente Paulo Leminski, porque já o acho representativo o bastante), o que se encontra são figuras que resolvem, de certo modo, se afastar da tradição literária de seu país e da crítica especializada (a que surge das universidades). O problema nisto está se, junto a esta recusa, também se observa uma abstenção de demandas intelectuais próprias da academia e do contato com a obra daqueles escritores pertencentes ao “cânone”. Não estou dizendo aqui que o escritor marginal, enquanto o é, escolhe ser ignorante. Digo que, quando Paulo Leminski reclama do escrutino que deitou o pensamento científico sobre a literatura e demais artes, está aí também impressa a opção por uma marginalidade, do ponto de vista estético e intelectual, que acaba implicando num problema crítico. Se o escritor prefere desautorizar a academia de criticar “cientificamente” a obra literária, ousando deitar sobre ela um julgamento valorativo e, digamos, “romper com o que ela tem de misterioso”, acaba que ficamos todos a mercê do achismo, de figuras que mal sabem de literatura se julgando “críticos literários”. Pior do que isso: ficamos a mercê de escritores cuja qualidade é duvidosa.

    Se tudo pode ser literatura, todos podem ser literatos; a “crítica” tratará de lamber-lhes as solas dos sapatos e ficaremos todos passando o resto do século com esses cretinos fundamentais! É este o problema com literatura deste teor – ela vem gerando uma porrada de imposturas intelectuais. Essa gente, no geral, fez um grande desserviço à literatura brasileira. Hoje em dia, o que mais se vê são leitores da “geração mimeógrafo” e outras de semelhante calibre fazendo literatura de latrina, achando que poesia é tão-somente a “expressão insólita do sentimento” e coisa de mesma ordem. O poeta de hoje em dia mal sabe quem foi Camões e toma o Gonçalves Dias como o cara que fez o “minha terra tem palmeiras…” e só.

    Não culpo somente esta fornada de escritores aqui abordados. Penso que o modernismo como um todo, ora por sua própria natureza, ora por péssimas interpretações de suas conquistas formais, é o causador dessa chacina – me desculpe o tom. Acho que já disse o que queria.

    #1908
  4. Kátia

    Lucas Galvão, aposto que vc deve adorar Luís de Camões e os parnasianos, que são bons, é claro. Espero que entenda o que estou tentando transmitir…

    #2323

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