Lembrando um mestre
Eugenio Gudin foi dos mais preparados e sábios economistas do Brasil. Derivam de sua escola, na admiração, respeito e amizade, Roberto Campos, Mario Henrique Simonsen e Antônio Delfin Neto, entre outros. Foi homem da Fundação Getulio Vargas. Como jornalista, que exerceu até os cem anos em que viveu, foi de uma rara coragem ao defender a democracia de seus inimigos.
Vivido, lúcido e culto, Gudin admitia a suspensão temporária de algumas garantias individuais, para preservar os reais interesses nacionais. Claro que nada que implicasse em ferir o direito de opinião, o de ir e vir, o de ter e empreender. Mas, sim, para combater terrorismo, atos de violência urbana ou rural.
A Editora Nova Fronteira lançou na sua coleção Século XX um livro reunindo seus artigos entre 1970 e 1978. Mereceria uma nova e comentada edição, para que os mais jovens possam conhecer o pensamento de homem tão influente e tão digno. O prefácio é do inesquecível Carlos Castelo Branco.
Gudin no poder de argumentar e escrever sobre economia para o grande público talvez só tenha sido ultrapassado pelo seu discípulo Roberto Campos. Mas sabia ser mais duro no que toca aos movimentos surgidos naqueles anos, em que negava, e o tempo mostrou que tinha razão, qualquer influência positiva na evolução do mundo pela esquerda e a contestação. Pelo contrário, acusava os movimentos surgidos na Europa- França e Inglaterra, especialmente no final dos anos 70 – como fruto do tédio de jovens sem preocupações, sem pais dedicados à educação e sem fé religiosa. Tudo o tempo mostrou que teria o seu sentido.
Numa de suas observações sobre a importância de se captar investimentos produtivos, fábricas, aporte de tecnologia, agregar valor a matérias primas, ele mostrava pessimismo em relação ao Brasil ao comentar que o capital só costuma se direcionar para lugares onde sejam bem-vindos. O que não parecia ser o Brasil, desde sempre, e agravado hoje pelo pensamento antiempresarial e delirantemente regulatório.
Capital não pode aportar onde a legislação trabalhista é instável, passível de criminosas “antecipações de tutela”, nem as regras do comércio alteradas ao sabor dos ventos. Ou se pratica a economia centralizada ou o liberalismo, dentro que a OMC estipula. Combater as leis naturais da oferta e da procura, a disputa pela produtividade e baixos custos com qualidade, é coisa do passado. Não tem lugar no mundo moderno, globalizado e competitivo. E, sobretudo, democrático, sem tutelas sindicais.
E mais: temos de ter, como já defendia Gudin, uma estrutura de políticos que acreditam e assumem a defesa do mercado, do empreendedor, e não acompanhe a onda populista, que ele já denominava de “democracia dos ignorantes”. Para sobreviver à burocracia, ao sindicalismo selvagem, tem de ter as qualidades culturais e históricas de uma França. Nem a milenar Espanha, desde Castilha, escapou a presença do atraso socialismo no Poder..
*Aristóteles Drummond, jornalista, é vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Por Aristóteles Drummond, em 07/11/2011 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.



























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