Laboratório de ignorância

O Brasil compõe um cenário deslumbrante de fenômenos políticos e sociais. Algumas causas externas contribuem fortemente para sua formação, como o que fazer diante do advento de novas tecnologias (Facebook, WhatsApp, Uber, robótica). Há também desafios internos, que nos estimulam a calcular o itinerário para formar e integrar uma nação. Temos, por enquanto, um laboratório de ignorância. Porque mudanças ocorrem gradualmente, não esperamos que, de um dia para outro, o Brasil civilize-se.

As inovações técnicas vindas de fora têm dois efeitos: um é o de realçar o caráter de brasileiros, como expresso nos motejos que circulam constantemente em redes sociais e na tendência a tratar assuntos sérios com graça; outro é o de perturbar os negócios tradicionalmente estabelecidos, como demonstra o litígio entre taxistas com alvará de governos municipais e motoristas do Uber. Assim, há ambivalência no uso de novas tecnologias: o encanto dos aplicativos de bate-papo, de um lado, e a quebra de esquemas econômicos causada por novos recursos tecnológicos, de outro.

Por sua vez, os desafios internos são ainda mais complicados, porquanto brasileiros ainda estão indispostos a constituir uma civilização. Nestas glebas, a cultura do trabalho não é suficientemente próspera para salvar-nos do assistencialismo, pois mais se tira do sistema que nele se põe (a exemplo da Previdência Social). Nenhum país progride se a festa prevalecer sobre a dedicação laboral, se o benefício predominar sobre a contribuição, e se a vantagem própria vencer o bem comum. As opiniões são bastante divididas quanto ao caminho que o país deve seguir: de um lado, há os sectários de estado-dirigismo e estado-provedor; de outro, há os que são a favor de liberdades maiores no desenvolvimento cultural e econômico, como defendo, tendo-se em conta que burocratas e estadistas provêm de uma sociedade corrompida.

O topo da lista de desafios internos, ainda, elenca o descaso com a educação de crianças e adolescentes. O debate sobre conteúdos escolares tem sido menos relevante que greves de professores e cotas para quem tem pele escura. São situações claras de enxugar água do gelo. É difícil –até quimérico – refletir sobre como progrediria um país onde suas crianças convivem com tamanho descaso educacional. O maior culpado não é o governo senão os seres ronceiros que mamam em suas tetas e garantem sua sobrevivência em detrimento do esclarecimento geral. A mudança será ainda mais vagarosa enquanto crianças não tiverem exemplos dignos dentro de casa, a rua for lugar de violência fortuita, e a sala de aula for um lugar desagradável e precário.

Aprender é enobrecedor e prazeroso! O conhecimento torna-nos mais preparados para compor uma nação e mais treinados para a probidade como conduta ética. O Brasil não é testemunha somente de descaminhos. Há indícios de que as pessoas têm-se preocupado mais com cidadania e democracia: reuniões de bairro, reivindicações sociais, protestos nas ruas, punição a criminosos, prisão de políticos corruptos. Dentro de seus limites, brasileiros têm expressado suas angústias e seus ideais. É nesse torvelinho de ideias que os rumos políticos e sociais se corrigem. A condição de civilização deixa de ser utopia e transforma-se em ideal de um país fulgurante.

Para esse fim, o Brasil precisa espantar de seu grande laboratório a ameaça da ignorância. A instrução básica abrangente e forte ajudará a dissipar a névoa que ofusca a ascensão deste país. Tornemo-nos merecedores de um Brasil civilizado e ordenado.

*Bruno Peron Loureiro é doutor em Políticas Culturais por University of London – Birkbeck, e mestre em Estudos Latino-americanos pela Universidad Nacional Autónoma de México; autor de oito livros em versão eletrônica, incluindo Aresta da razão (2013), Aresta da prudência (2014) e Aresta da desilusão (2015). http://www.brunoperon.com.br

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