Kizomba com kukeca
Nosso time está completo. Concordando – ou não – com Dunga, o que o brasileiro espera é a festa do final da Copa do Mundo, trazendo a Taça para o Brasil.
Este mês, nosso coração vai estar na África. E durante muito tempo, foi a África que ajudou a construir nosso país. Do século XVI ao século XIX, vieram cativos para o Brasil os negros, falantes da língua africana. Foram esses irmãos que deixaram suas mãos marcadas nas mais lindas construções do Brasil. Eram esses escravos que carregavam pesadas pedras, que ao sol ou à chuva trabalhavam nas cidades ou também na zona rural, nas construções, na terra, até preparando os mais saborosos quitutes nas cozinhas.
Sua passagem por aqui deixou termos na nossa língua: esmolambado, dengoso, sambista, xingar, mangar, molequeira, caçulinha, banguela, agogô, berimbau, capanga, cachaça, cachimbo, forró, fubá, cuíca, mocotó, jiló, samba, muamba, tanga, sunga, maracutaia. Afinal, não foram os índios que fizeram o trabalho escravo, mas uma população estimada entre quatro e cinco milhões de africanos trazidos para o Brasil. E esse grande número de afrodescendentes trocava informações diariamente na senzala, na terra, nos momentos de lazer, enfim, na convivência do dia a dia. E não se pode esquecer a religião dos negros, que também contribuiu para essa herança vocabular: pela chamada “língua de santo” da Bahia.
Yeda Pessoa de Castro tem um estudo que vale a pena ler: chama-se A influência das línguas africanas no português brasileiro e pode ser encontrado na Internet, em www.smec.salvador.ba.gov, onde a autora também cita a importância da mulher negra na cultura do Brasil e, consequentemente, nos termos que surgiram a partir daí.: “A mulher negra, na função de “mãe-preta”, teve oportunidade de interagir e exercer sua influência naquele ambiente doméstico e conservador, incorporando-se à vida cotidiana do colonizador, fazendo parte de situações realmente vividas e interferindo no comportamento da criança através de seu processo de socialização linguística e de determinados mecanismos de natureza psicossocial e dinâmica.”.
Há também as comidas temperadas com azeite-de-dendê, os contos populares e cantigas-de-ninar com seres fantásticos (tutus, mandus, boi-da-cara-preta), expressões de afeto (dengo, xodó), crenças e superstições (o homem-do-saco é um exemplo). É também nesse estudo que se encontra outra informação interessantíssima. A autora explica a origem do termo “ladino”, que até hoje se usa com o sentido de ardiloso, astuto, manhoso. Ladinos eram os negros que aprendiam um pouquinho de português e assim se transformavam em bilingues, podendo por isso frequentar a casa grande, além da senzala, e se transformavam em leva e traz, com assuntos que interessavam a senhores e escravos.
E vamos nós! Gritando, em brados agudos que se prolongam, chamados “kukeca”, mas sambando, ao toque de berimbau, agogô, cuíca – ou ainda comendo um suculento mocotó, exagerando no xodó e cafuné – mas não na cachaça – em nossa kizomba, a linda festa em que – se Deus quiser – iremos comemorar a vitória que nos fará donos da Copa de 2010.
Por Albertina Ramos, em 08/06/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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