Jogador de futebol também é gente!

Por em 22/03/2010


FlamengoMais uma vez um jogador do Flamengo se meteu em confusão nesta semana. Willians, que é titular do time, estava com amigos no restaurante Rei do Bacalhau, na rodovia Washington Luiz, em Duque de Caxias, quando começou um tumulto envolvendo sua noiva.

O jogador foi arrastado para fora do estabelecimento por volta das 4h da madrugada por um segurança, que lhe deu uma gravata. Seus amigos reagiram e começou uma confusão. O volante tentou apartar a briga e pedia calma, em vão. Ninguém ficou ferido e não foi registrada ocorrência policial.

Antes, Adriano (atacante), Bruno (goleiro), Léo Moura (meia) e Vágner Love (atacante) já haviam entrado em polêmicas envolvendo mulheres e amigos suspeitos de fazer parte do tráfico de drogas (o que não era novidade). As investigações devem ser feitas, até porque os jogadores do Flamengo não estão acima (nem abaixo) da lei.

É preciso pensar além dos preconceitos. Contextualizar esta questão.

Fatores culturais

Os jogadores de futebol possuem, quase sempre, duas características socioeconômicas idênticas. Eram pobres e agora são ricos. Estamos falando, portanto, das condições sociais e econômicas. Em termos sociais: moravam em áreas pobres, com pouco acesso a cultura, educação e saúde, por exemplo. Em termos econômicos: eram pobres. Sem grana.

Com isso, sem que a maioria das pessoas perceba, naturaliza-se uma terceira característica: todos ficaram ricos muito rapidamente. Se em suas infâncias viveram em um contexto de violência social, com vinte e poucos anos vivem em uma situação de tranquilidade econômica. Essa passagem é, em si, uma forma de violência cultural.

Como lidar com essa questão? As famílias destes jogadores, se desestruturadas, não puderam dar condições para que o futuro profissional coloque os valores humanistas acima de valores condenáveis pela sociedade.

É o caso do goleiro Bruno, que declarou ser normal, na visão dele, bater em mulher. Bruno é uma referência hoje, daí a reação da imprensa. Mas iguais a Bruno existem milhares de homens, Brasil afora, que nunca tiveram melhor referência e, por isso, fazem tal juízo.

A violência contra as mulheres não é um problema do goleiro do Flamengo: trata-se de um problema nacional. A imprensa popular prefere julgar Bruno, o ser humano, em vez de utilizar sua frase infeliz para ampliar o debate sobre o papel das mulheres na nossa sociedade. É uma opção clara, moralista, que não ajuda em nada. Em nada mesmo.

Patrícia AmorimAcima, Patricia Amorim, presidenta do Flamengo. Foto: AE

Nem sequer Patricia Amorim, que é uma mulher forte e segura de si, aceitou o clima dos últimos dias. A presidente do Flamengo afirmou que foi exagerada a reação da imprensa. “Todas as coisas que aconteceram devem ser divulgadas, porque são jogadores, são referência. Mas existe um exagero sem dúvida nenhuma”.

“Não temos como proibir que eles voltem ao lugar de onde vieram”, completa Michel Assef Filho, advogado do clube. “Já perdi muitos amigos na criminalidade, mas nunca usei drogas. Não vou deixar minhas origens e minhas raízes”, reafirmou Vágner Love.

Questão de classe

Aqui encontramos também o preconceito de classe, claro. Esse existe, está vivo e qualquer jornalista sério sabe disso. Ainda persiste a apresentação da favela como um lugar do crime é estampada nos jornais, em descrições racistas como “Morro da Chatuba: refúgio de bandidos expulsos das favelas da Zona Sul” (Veja Rio, mar/2010).

A ligação de jogadores de futebol com o tráfico deve ser investigada, reafirmo. Muitas vezes, pode até ser legal (frequentavam o mesmo espaço, por exemplo), mas os jogadores precisam entender que não fortalece suas comunidades. Não é por meio da liderança do tráfico de drogas que o Rio de Janeiro se tornará menos violento, isso está claro.

A grande hipocrisia, no entanto, está em sugerir que são os jogadores de futebol (e, principalmente, do Flamengo) os maiores incentivadores do tráfico no Rio, como está parecendo pela leitura das revistas semanais. Conforme apontou Renato Prata Biar, em artigo recente, os atores Marcelo Anthony e Fábio Assunção também se envolveram com drogas e com traficantes de drogas. “No entanto, o tratamento que receberam foi do tipo que é dispensado às pessoas doentes, com problemas psicológicos, que precisavam de ajuda, carinho e compreensão”, anota o articulista. Vagner Love, Adriano e os demais jogadores do Flamengo nunca foram pegos usando drogas, é bom destacar. E também são humanos.

Além disso, todos sabem muito bem que a Zona Sul está repleta de “drogados”, pessoas que fazem uso de drogas ilícitas, abastecendo amplamente as redes de narcotráfico na cidade. Recomendo fortemente a leitura do artigo de Renato Prata Biar, na edição online do Fazendo Media (clique aqui).

O que falta, na verdade – para os atores da Globo, por exemplo, mas principalmente para os jovens jogadores – é orientação. De fato, na falta da família, é urgente que o clube, que na maior parte das vezes pega o garoto com 12, 13 anos, se responsabilize pelo crescimento intelectual do jogador, de seu aperfeiçoamento cultural e de aconselhamento financeiro. Registrando que, evidentemente, este é um problema que começa com a ausência deste diálogo no próprio ensino fundamental.

Exatamente por não serem heróis, os profissionais do mais importante esporte nacional precisam desse apoio, sem o qual continuarão a serem explorados de modo irresponsável pela imprensa.

*Gustavo Barreto, jornalista, radialista e produtor cultural, coordena a Revista Consciência.Net.




Por Gustavo Barreto, em 22/03/2010 - 00:02. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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