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Ilha do Governador 450 anos: uma visão da história recente

No próximo dia 05 de Setembro de 2017 a Ilha do Governador completará 450 anos. É o bairro mais antigo da Cidade do Rio de Janeiro, e foi descoberto em 1502 por navegadores portugueses que no bairro encontraram os índios Temiminós que já habitavam o local e que a chamaram de Ilha de Paranapuã (colina do mar) e posteriormente denominada em homenagem aos felinos que lá habitavam, como a Ilha dos Maracajás.

Sem considerar o lado histórico do bairro que foi denominado Ilha do Governador somente a partir de 1567, o que certamente será abordado pela mídia durante a belíssima comemoração que se espera e seria até uma infâmia da minha parte em querer exacerbar nesse papel que hoje é feito com muita competência pela Professora e Historiadora Cybelle de Ipanema e também pelo Jaime Moraes que possui uma coluna no jornal O Golfinho com o título “Ilha do Governador – O Passado e o Presente”, resolvi retomar um enfoque cotidiano dos mais de 45 anos que tenho vivido nesse bairro, subdividido a partir de 1981 em 14 bairros (Bancários, Cacuia, Cocotá, Freguesia, Galeão, Jardim Guanabara, Jardim Carioca, Moneró, Pitangueiras, Portuguesa, Praia da Bandeira, Ribeira, Tauá e Zumbi), ou seja, uma fotografia, sob a minha ótica testemunhal, em somente 10% da riquíssima história do nosso bairro que é uma cidade bairro.

Aliás, antes de entrar em meu texto meio romântico e saudosista do cotidiano que vivi, quero destacar que nesta lista citada anteriormente dos 14 bairros da Ilha muitos se perguntam a razão que regiões bastante definidas como Guarabu, Bananal e Tubiacanga não serem ainda definidas como bairro. No caso de Tubiacanga, para ser reconhecido como Bairro inclusive foi objeto de uma campanha que encabecei por ocasião do combate ao natimorto Projeto de Lei para modificação do PEU da Ilha que foi conduzido a partir de 2015 pela Prefeitura do Rio e que surgiu a partir de interesses “não confessáveis” e que conseguimos enterrar pelo menos até então e que inclusive acabaria com parte da história do bairro, pois viabilizaria a demolição de casas antigas que marcam a arquitetura do bairro.

Este cenário de observar o cotidiano, objeto deste contexto, foi fruto de um final de semana recente que passei na minha Ilha do Governador, quando pude caminhar com minha bermuda desbotada e Sandálias Havaianas, sem estarem viradas como era moda nos anos de 1970, pelas ruas e reencontrar pessoas que não via há muito anos e que são atores da história recente desse bairro encantador.

O interessante que a cada encontro nesta pequena caminhada pelos paralelepípedos do bairro que foi iniciada no meu bairro Moneró querido (conhecido no passado como Jardim Ipitangas), desde a antiga padaria do “Seu Reis”, na Estrada do Dendê (esquina da Aristarco Ramos), em frente a banca de jornal do eterno jornaleiro italiano “Totó”, até uma pequena loja de peixes ao lado do antigo Bar das Canoas passando pelo antigo “botequim do Manel”, oficina de bicicletas do Zidan dos irmãos Salim e Jorge, o Açougue do seu Francisco, Loja de conserto de eletrodomésticos do Edinho e a Tinturaria do seu Moacir, cada passo ou paralelepípedo abria uma pequena caixa escondida em minha mente e que me navegava por coisas e fatos do passado e daqueles que já passaram dos 40, como eu e quando os bares e comércios na Ilha ainda ostentavam o nome dos seus donos como referência, e eram adornados por gravuras, pinturas e azulejos nas paredes.

Lembrei das festas, da década de 1970 com os jovens entrando como penetras, ou dos hi-fis (raifáis) regados com Q-suco de uva ou groselha. As músicas eram tocadas no tape deck de fitas cassete e amplificadas no “receiver” e valorizados em um “equalizador”, dançando juntinho, ainda no início de Michael Jackson no grupo Jackson Five ou dos irmãos Carpenters e até do Brasileiro (falso americano) Morris Albert. Às vezes os bailes vinham de maneira mais organizada nas tardes de domingo no escurinho da quadra do Jequiá Iate Club, ao som do saudoso e lendário Disc Jockey Big Boy que comandava a então famosa Rádio Mundial.

Falando ainda dos domingos muitos ainda tem no coração as sessões no Cine Mississipi no Cacuia (onde hoje está o Bradesco, próximo ao lendário relógio do Cacuia feito pela Relojoaria Gazelli), comendo depois um mixto quente com Milk Shake na lanchonete Missouri que ficava ao lado, permitindo de forma moleque dar calote pela confusão que se formava principalmente quando os grandes filmes eram lançados como Ben Hur, Romeu e Julieta e Love Story. Aos não tão românticos sobrava uma sessão dupla de filme Caratê / Pornochanchada no Cine Guarabú que era o mais conhecido “poeirinha” do Bairro ou uma sessão de filme brasileiro no cine, estilo Art Decô, localizada na Freguesia.

Mais tarde, após o fechamento de todas nossas salas de cinema na Ilha, o que nos salvava era a sessão de cinema no Iate Clube Jardim Guanabara, aos domingos, após a missa das sete da noite na igreja São José Operário e do sorvete de “Sambayon ao Porto” deliciado na sorveteria Hébom da Estrada do Galeão que depois virou sorveteria “Sem Nome”. Os que já tinham carro ou de carona se deliciavam na “Sessão Coca-Cola”, com refrigerante de graça e alto falante pendurado no vidro embaçado no Drive-in do Ilha Auto Cine, que resistiu até recentemente como sendo o último dos moicanos em nossa cidade.

Os hálitos da garotada no cinema eram sempre perfumados com balas tipo Halls, Mentex, Juquinha, ou com doces tipo Frumelo, Pirulito Zorro, chiclete Ploc de tuti frutti em caixinha ou até com o legendário Drops Dulcora, em cores diversas que nos dava como adolescentes um “efeito colateral” positivo e fake quando colocávamos no bolso da frente.

Para os moderninhos cariocas e não somente para os insulanos, as boates da moda frequentadas eram na Ilha e foram moda no Rio de Janeiro, recebendo muitos visitantes da Zona Sul, agitados pelo filme do Travolta “Embalos de Sábado a Noite” ao som do Bee Gees eram as boates “Night Fever”, “Abloom”, Scorpios e Studio 303 e depois a Boate do então novo Aeroporto Internacional do Galeão, que podiam, pelos mais abastados, riquinhos da ocasião, ser precedidos de um vinho branco (alemão de garrafa azul e nome complicado) no “Ilha Piano Bar” da Cambaúba ou de um jantar na vista deslumbrante da Praia da Bica que vinha da varanda do restaurante Geranius, que avançava, como um convés de um navio sobre a encosta frontal à Praia da Bica.

As batidas mais avançadas e após este período romântico eram na casa noturna “Olho do Cuco” na Estrada do Dendê, na “Boate Buda” ou no Nautilus na Freguesia, ou até na “caça” às moçoilas da Vila da Penha no Farol da Ilha que vinham pela linha 910 da Paranapuã ou em uma Boite da Ribeira em frente a ACM, e também no berço dos shows do Elimar Santos que era a Tasca e o Tabuão.

No samba, quando a União da Ilha dos sambas históricos (“Domingo”, “Amanhã”, “Festa Profana”) ainda era no enredo “nos Confins de Vila Montes” os ensaios eram mais animados, e aconteciam na quadra do Esporte Clube Cocotá e a União fazia sua evolução com os intérpretes da época desde o inesquecível Haroldo Melodia. O Carnaval de Rua hoje bastante preservado pelo Batuque de Batom da Kátia, acontecia no Cacuia onde ainda reina a Tribo do Cacuia como até os “Blocos da Piranha” e que participei da fundação no Moneró e que depois ganharam outros bairros da Ilha e até mobilidade por um velho caminhão e que aconteciam na virada do ano. Sem falar no Bloco do Boi com personagens que fizeram sambas antológicos como o Jorge Bossa Nova e do Bloco da Rua Carijó.

Nem sempre tais investidas românticas davam resultados. A sociedade e as meninas eram mais conservadoras do que são hoje, mas mesmo assim assistir as “corridas de submarino” na Praia de Moneró (Praia do Dendê), ainda em “ barro batido” onde hoje está o Corredor Esportivo ou no Mirante do Jardim Guanabara era um programa obrigatório daqueles que não conseguiam performar suas conquistas no Ilha Motel na Freguesia, que tinha direito a entrada e saída por duas ruas, ou no Sunshine para os mais abastados. Para os mais duros as opções eram no Hotel Flexeiro, Oxum Ogum Beira Mar ou até no Joalo’s na Praça Jerusalém (veja que contraste) onde um bar ao térreo dava um álibi perfeito para uma escapulida para quartinhos em que o único asseio era uma pia.

Nestas cruzada de iniciação sexual juvenil qualquer passo indevido resultava na “maligna gonô”, rapidamente e de forma eficaz tratada para quem não queria tomar a dolorida ideia de benzetacil com comprimido Binotal 500, em dose única, vendido na Farmácia do Tauá do saudoso Zé Luís e do Highlander Sylvio, muito úteis também nas estrepolias com as moças no eterno e sobrevivente “Peixão” um belo “bar temático de saliência” ainda existente no Bananal.

Tudo se tinha na Ilha! O bairro era perfeito! Das praias onde os transviados da ocasião podiam tranquilamente “fumar um beise com a rapeise” e se tostar direto na areia ou sobre uma esteira de palha sem, aliás, qualquer problema dermatológico causado pelos raios ultravioletas, que eram até potencializados com óleo de avião e Urucum. Para as dondocas o must da ocasião, além do perfume Lancaster (tinha um palitinho dentro) era o Bronzeador Rayto Del Sol, contrabandeado da Argentina. Nas belas Praias da Bica, Engenhoca, Freguesia até na barra pesada na chamada Praia do Chiclete entre o Moneró e o atual Parque Royal, a nossa Ilha fervia nas então límpidas águas da Baía de Guanabara.

Nas praias da Ilha muitos aprenderam a nadar com suas boias feitas com câmaras de pneu, pranchinhas de isopor e pés de pato para depois pescar seus siris com puçá ou suas “marias da toca” ou cocorocas com anzóis, vendidos em armarinhos e potencializada em “linha de fundo” e “caniços” por chumbada e linha de nylon ou até pegar mariscos ou caçar um outro tipo de marisco conhecidos como “unhas de velha” com a maré baixa utilizando enxadas. Muitos também se arriscavam em pescarias de camarão no paredão da Praia no Moneró usando grandes peneiras que eram compradas em lojas de material de construção, como a Castor no Cocotá próxima a eterna fábrica de antenas existente em um beco, próximo a Igreja São Sebastião.

Para os mais dedicados a pesca se fazia com o arrastão, em especial, aquele com o fundo amarrado que era um show e que com ele se pegava muito camarão principalmente quando a maré estava baixa ou quando trovejava. Os que buscavam se arriscar mais iam ao fundo da Baía com barquinhos pescar nos, até hoje inexplicáveis e perigosos currais que eram policiados guardiões e próximos a Magé ou pescar os siris em uma ilha artificial formada pela dragagem do canal de acesso ao Estaleiro EMAQ (atual EISA), que nos enchia de orgulho e de ondas para surfarmos (pegar jacaré) com prancha de isopor quando seus navios que pela concepção da carreira de construção se lançavam ao mar, literalmente em frente ao eterno e assoreado por lama Governador Iate Clube. Aliás, a história da Ilha em relação a construção naval é histórica para o país, e até para o mundo, pois foi em nosso bairro em 1663 foi lançado ao mar, o maior navio do mundo à época com o nome “Galeão Padre Eterno” que obviamente originou o nome do atual bairro do Galeão.

Na área gourmet as opções eram fantásticas não só pela comida da mamãe, pois pouco se comia na rua já que “delivery” era palavra inexistente e para comprar comida somente na Confeitaria Linda no Cocotá, hoje complementada por Confeitarias insulanas como a Bom Apetite na Estrada do Galeão e a Faisão Dourado na Cambaúba ou até o simples sanduíche feito com mortadela e bisnaga acompanhado de guaraná em qualquer padaria. A comida era preparada com carinho e com gás de botijão e adquirida na grande rede de Supermercados Leão existente no bairro com três filiais que disputava passo a passo com a Rede Merci que teve seu ápice com a inauguração da sua loja na Cambaúba, onde hoje existe uma igreja evangélica (Universal), com um show do Rei Roberto Carlos que na hora faltou e foi substituído, sem muitas lamúrias, por Wanderley Cardoso.

A disputa dos supermercados diferenciados, porém foi abalada depois com a chegada do Supermercado Disco e do “Mar e Terra” que nos seduzia com sua “baleia” em forma de escorrega e que posteriormente virou o Bon Marchê e em especial com a chegada anterior das Casas Sendas (já que o saudoso Arthur Sendas também morou na Ilha no Moneró) onde atualmente existe a Casa Show, que revolucionou a Ilha com seu cafezinho gratuito, venda de balas a varejo, que nos permitia “subtrair” algumas, enquanto apreciávamos os indiozinhos que vinham como brindes dentro dos vidros de Toddy ou os soldadinhos que vinham dentro dos Sucrilhos Kellogg’s.

Nas Sendas da Estrada do Galeão, aliás, se criou o hábito de lanchonetes no bairro e onde podia se consumir muito barato não só o Sundae, ou o Banana Split, mas o “must” era o “Sorvete Colegial”, com o então novo sabor de flocos que era, ornamentado por uma calda branca que se chamava mashmallow e com farta cobertura de castanha de caju e suporte de fundo de taça a base de groselha que se equilibrava visualmente com a cereja que brilhantemente adornava o topo da montagem. As variações do Milk Shake eram maravilhosas como a “Vaca Preta”, preparada com Coca Cola e sorvete e a “Vaca Amarela” com Fanta e sorvete ou a bebida Frapê que até hoje não sei do que é feito, mas era muito gostosa principalmente a espuminha que ficava ao final, sugada de forma ruidosa por um canudinho de papel que amolecia ao final.

Como disse, comer fora era muito difícil. Não haviam os grandes trailers existentes atualmente nas praias, podíamos, porém degustar o cachorro quente do Benigno, vendido em sua Romizeta cinza, que precisava ser empurrada para pegar, acompanhado com um mate bebido em copo de papel em forma de cone que era equilibrado por um suporte de alumínio em forma de ampulheta e que foi pioneiro nos trailers da Ilha e também do Trailer do Buzunta (próximo a Tasca). O movimento dos trailers foram posteriormente consolidados na Praia da Bica pelo Moreno e até mais recentemente com o agradável trailer do Shuebe na entrada do Parque Marcelo Ipanema onde se come o melhor crepe do Brasil e o único feito com Catupiry verdadeiro. No tocante ao churrasco tínhamos a opção da pioneira no bairro e também no pioneiro sistema de rodízio do Rio quer era na churrascaria São Borja na Estrada do Dendê próximo à saudosa padaria Ben Hur e à extinta Gruta da Ilha ou saborear um galeto torradinho no Chuá, que é resistente e sobrevivente até hoje. As churrascarias na Ilha ganharam depois mais glamour com a chegada pioneira do Porcão hoje transformada na imbatível Família Mocellin.

Para os que queriam petiscar a boa opção era a Taberna onde emergia um jovem cantor de nome Elymar Santos ou comer os tira-gosto como testículos de galo e a sopa de siri na Toca da Raposa na Estrada do Galeão onde o garçom era o Bigode ou mais tarde na Ribeira no “Feijão Maravilha”, ou uma cerveja gelada com tremoços retirados com um escorredor de um grande vidro no Bar do Armando (pai do Duda) na Estrada do Dendê ou parar em um botequim e pedir um “rabo de galo” onde se misturava toda prateleira alcoólica. Além disso, o bar do Paulo e do João na Rua Comendador Bastos esquina com Magno Martins eram de grande frequência.

Outra opção era matar a fome na Pizzaria Brotinho na Freguesia do “Seu Sobral”, ou até os sucos com sanduíches com nome de carros, na lanchonete “Ping Pong” na Estrada do Galeão que pertencia ao José de Moraes ou comer pizza fina da Pizzaria Japon com o garçom Saulo ou a opção de entrega do Dom Franguito. Já o Garota do Pará na Orla da Freguesia ou o Pai D’Égua no Guarabu eram os restaurantes temáticos regionais. Alguns restaurantes sobreviventes ainda adornam nossa Ilha como o enigmático e recém fechado, mas que nunca morrerá, Chinês Oriento Palace, o Rei do Bolinho de Bacalhau (feito na colher)no Tauá, o Zamack (que faz um belo cozido aos sábados) no Tauá, Siri (Galeão), Bar do Odilon, Capitania dos Copos (ambos em Tubiacanga) e o próprio Rei do Bacalhau e mais recentemente a Petisqueira do Martinho (Ribeira), e Bar do Camarão (Colônia Z10).

A Ilha sempre foi o local das celebridades algumas até passageiras, outras eternas como o próprio Arariboia que nasceu na Ilha e depois fundou Niterói. Não por ser a terra que o Papa João Paulo II beijou ao chegar, ou onde Frank Sinatra deu seus primeiros acordes ao chegar ao Brasil, mas por ter sido moradia de grandes poetas como Lima Barreto, Vinicius de Moraes, Raquel de Queiroz, Chiquinha Gonzaga, e outros artistas como Chico Anysio e o próprio Rei do Baião Gonzagão e seu filho Gonzaguinha moraram. Além disso, outros artistas contemporâneos moraram na Ilha como a Fernandinha Torres, Leandro Hassum, além de Miguel Falabella, com seus irmãos que estudavam no lendário colégio Mendes de Moraes (onde também estudou a atriz Suzana Vieira e Benvindo Siqueira), Renato Russo (que virou até estátua) e até outros considerados bregas, mas que tiveram grandes momentos como Michael Sullivan, Bochecha, Waldick Soriano, Wanderley Cardoso e que agora abriga a nova cantora de funk, Ludmilla, e outra cria recente do bairro que é o Dilsinho que começa a despertar no ritmo pagode romântico.

No esporte a Ilha foi berço e casa de craques como Sabará, Quarentinha, Brito, Roberto Dinamite Gaúcho (Vasco), Adilio (Flamengo) e os bicampeões mundiais 1958/62 Didi, Nilton Santos e o Gênio Garrincha, esses três últimos que moraram no Moneró. Outros jogadores que, aliás, vieram da base do Fluminense aqui surgiram como Roger, Diego Souza e agora o jovem Douglas que inicia no Tricolor.

Ao lado das figuras ilustres emergiram muitos que surgiam e sumiram como a mendiga Xuxa, o mendigo Bá, que morava no matagal onde hoje é o condomínio Village, o Badi do Moneró, o Jacaré que era Gari (na época chamados de lixeiro e que encontrei recentemente e que ainda está garoto), o PM, do sinal do Galeão (acho que o nome era Afonso), que era um simpático negão que ficava no sinal de trânsito próximo ao Lemos Cunha e até o temido Policial Porche, um negão gigante de dois metros de altura que assustava todos quando saía do “camburão” e que reencontrei recentemente.

Outra figura lendária da Ilha do Governador que hoje já está com mais de 70 anos ainda continua garoto e acho que deve beber formol ou tomar muita “Caracu com ovo” é o eterno Comodoro do Iate Club, José de Moraes, que organizava as tradicionais peladas da Modus, e que as faz até hoje, mesmo com o fim desta loja que ficava onde hoje está o Habib’s e onde com seu irmão, Marcos de Moraes, faziam a exposição de possantes veículos, na ocasião conhecidos como baratinhas ligadas a uma escuderia e loja chamada de Speed Motors. Tempos dos bonequinhos de gangster os aditivos para motor da Bardhal, de “elefantinho da Shell”, do Tigre da Esso e dos veículos com “Tala Larga”e adesivos “STP” colados.

Outra testemunha viva da Ilha antiga ainda em grande atividade é o José Richard que foi pioneiro na comunicação na Ilha com seu jornal Ilha Notícias quando ainda não existia internet e outras redes sociais e os informes só rodavam nas escolas e mesmo assim a base do mimeógrafo cheirando o viciante álcool. Hoje já temos outros jornais impressos e também já longevos como Golfinho (Alzir), Ilha Carioca, Ilha Repórter e o RJ Verdade (Genival).

Afinal o esporte sempre teve a cara da Ilha não por seu clube tradicional a Portuguesa, onde existiam os melhores carnavais do Rio, somente comparados aos da “Noites em Bagdá” no Monte Líbano. Este “estádio dos ventos uivantes” de nossa simpática Associação Atlética Portuguesa que hoje, infelizmente para mim que sou tricolor virou, “Ilha do Urubu”, abrigava todo tipo de evento desde apresentação do palhaço Carequinha na década de 1960 as partidas de futebol do campeonato carioca onde muitas vezes vi Rivelino fazer chover pela “Máquina Tricolor” e até o então goleiro do Flamengo, Ubirajara, fazer um gol chutando de sua própria área. Ir ao Maracanã para nós insulanos era trajetória de romaria ou pegando o ônibus 634 ainda com fichas coloridas redondas, que rodava o mundo ou pelo 324, 326, 328, saltando na Leopoldina e fazendo a caminhada via Praça da Bandeira sem os riscos de arrastões de hoje.

No esporte, além da tradição do nosso futebol de praia e society (atual futebol 7), não só pelos grandes times que tivemos no Iate Club Jardim Guanabara como o lendário time da Modus, sempre tivemos como referência nossa simpática Portuguesa, que teve como seu técnico e massagista nas divisões de base polêmico Baiano e que aproveitava os craques que brotavam nas peladas no Esporte Club Jardim Guanabara, nos campos do Aerobitas, dos Fuzileiros Navais, no pequeno campo da Praça Papai Noel em frente a escola Municipal Rodrigo Otávio e outros campos onde tive prazer de jogar como o famoso “Poeirinha” que tinha um buraco no meio e que fica onde hoje está o Condomínio Village, e o extinto campo do Moneró (transformado em Corredor Esportivo), que tinha uma árvore na lateral e dentro do campo e onde me consagrei, modéstia a parte, como o maior artilheiro da história da Ilha do Governador quando fiz aliás 19 gols em uma partida de campeonato que foi interrompida pelo saudoso “Seu Lavouras” quando arrematou toda uma carrocinha de sorvete da Kibon o que interrompeu a partida em um campeonato de adolescentes que tinham times com nomes curiosos como Penharol, Condenados e Porto. Nestas atividades os peladeiros também se refrescavam tomando refrigerantes como Mirinda, Crush e até o sobrevivente Grapette e até mais tarde no Bar do Manel na Estrada do Dendê tomar a saudosa Cerveja Malt 90. Tenho que lembrar que meu time era coordenado pelo técnico rigoroso, Seu Waldir que ainda mora na Adolfo Porto no Moneró, ou pelo saudoso amigo Antônio Maia conhecido na Ilha pelo carinhoso apelido de Batman, que foi Diretor da Portuguesa por muito tempo.

A Ilha também foi berço para o Brasil e para o mundo de esportes como o Frescobol que era praticado em todas as praias e que até participei do seu tombamento como Patrimônio Imaterial da Cidade e que até hoje tem um grupo participante de “coroas” na praia da Bica coordenados pelo imortal Ovelha com seu grupo denominado GFIG.

Aliás, os locais para a prática do futebol, ou seja, das “peladas” com “kichute” e congas, eram muitos não só no grande campo de terra batida do Colégio Lemos Cunha onde havia uma encosta lateral a ser escalada e monitoradas pelos professores de Educação Física, Ney, Agenor, Osmeny (Siri) e o Nahum, mas no Esporte Club Cocotá, ou em campos mais adornados como o do canteiro de obras da Odebrecht para o Aeroporto ou espaço do simulador da Varig ou em Campos de Várzea como o “poeirinha”, onde hoje existe o Village e também o “Merdão” onde existe a Estação de Esgotos da Cedae no Tauá ou no campinho da Rua Cambuí ou o pequeno campinho de tamanho trapezoidal na Rua Frank Garcia) ou no das Praças Papai Noel em frente a Escola Municipal Rodrigo Otávio. Em outro campo esportivo também haviam as lendárias academias de luta como a de judô do Jota Mamede próximo ao Paulino Werneck e o próprio “Berço do jiu jitsu” onde treinaram os Gracies e onde se formaram diversos campeões internacionais que é o Pavilhão Japonês existente até hoje aos fundos do Iate Club Jardim Guanabara.

Também existia o campo na Praia do Dendê (Corredor Esportivo) em frente ao condomínio de blocos apelidado de Pombal, inicialmente construído para funcionários da Reduc da Petrobras, e de onde surgiu o VERZUL, coordenado pelo Seu João (Gari da Comlurb) e que existe até hoje onde meu pai Francisco (Chico) foi um dos fundadores e a quadra do saudoso “Seu Nelson”, pai do Ruço e do Xandinho, na Rua Domingos Segreto no Moneró ou o campo do alto Jardim Guanabara próximo onde está um Reservatório da CEDAE e atualmente a casa de festas Green House. Nos clubes se destacavam as quadras e o campo do Governador Iate Club que leva o nome do Dr. Pimentel que advogou para a Petrobras por década, que qualquer um entrava, ou para públicos mais seletivos o campo da ACM, além das quadras do Jequiá Iate Club onde também se tinham excelentes bailes de carnaval, porém pouco menos badalados que os da Portuguesa, por serem mais elitistas pelo preço elevado cobrado.

Na esfera da educação não somente o tradicional Colégio Capitão Lemos Cunha, com seu eterno e saudoso Diretor João Borges que se portava de forma garbosa no Hino Nacional, compensando sua sisudez pela figura de um psicólogo (apelidado psicolouco) Emanuel, que hoje certamente teria seus atos pelo menos mal interpretados pela forma carinhosa como tratava as meninas por quem ficávamos babando, até a eterna disputa em olimpíadas com os tradicionais Colégios Olavo Bilac, ainda na Cacuia, o Newton Braga, onde junto com a ACM, Colégio Rotary e Colônia Z10, se realizavam as melhores festas juninas da Ilha no Mendes de Moraes, era onde aconteciam os festivais de música do GATIG. Outros colégios conhecíamos pela cor difusa do seu uniforme como o Filgueiras ou pelo vestuário desengonçado como a Escola Modelar Cambaúba, com o seu enigmático símbolo EMC na camisa que se confundia com a Educação Moral e Cívica, uma disciplina existente na época fruto de intervenção da ditadura Militar nas grades escolares.

Dos cursos preparatórios na ocasião para EPCAR, EPCEX, Escola Naval, ETF (atual CEFET), fervilhavam o Curso Amaro e também o ÓPERON (onde hoje existe a escola Tia Lavor), que eram a solução caseira para os que não pegavam 696 da Ideal para saltar na pracinha do coreto do Méier, e até tomar um suco na lanchonete Molinaro e posteriormente estudar no Curso Martins que era a referência como preparatório à época. Hoje o Colégio Paranapuan do professor Edgar virou o sucesso deste passado de escolas com o foco preparatório.

É importante que o suporte para nossa área educacional se resolvia na própria Ilha não só na compra do material escolar nas agências do MEC, mas os livros sempre encontrados, na Eletrolândia do Cacuia, onde existia o famoso “anão da Eletrolândia” que resolvia tudo, ou na papelaria Debret um tipo de armarinho onde além dos livros podíamos comprar os botões de futebol de mesa de galalite ou os decalques para colar junto com as folhas de papel almaço, suportar nossas pesquisas feitas na Barsa, ou na enciclopédia Delta Larrouse ou nos fascículos do Conhecer que podiam ser depois encardenados.

Também no inglês tínhamos a Cultura Inglesa que ficava no Cacuia (próximo ao cemitério), nos preparando pela miss Campos ou com o Professor Darcísio ou Darc, um simpático professor que lembrava o Presidente Obama e que depois foi para o CCAA do Guarabú, tendo passado antes pelo Curso Yes que ficava naquele prédio de tijolinhos vazado atrás do “Submundo da Rua Colina” e na rota da mãe de todos os shoppings da Ilha que é o Shopping Viela.

Da Ilha me lembro de figuras como professores que ficaram lendários não só a Tia Lavor que virou nome de escola pública estadual (até por minha sugestão), mas do professor galã Sérgio da Geografia e História que provocava suspiros nas meninas e também do Professor Davi Sucre, ambos do colégio Capitão Lemos Cunha que mais tarde virou “escândalo” quando os representantes da Ilha conservadora descobriram que o tradicional professor Davi era o lendário transformista “Laura de Vison” e que são então compreendemos o uso do terno justo com colete que ele vestia para dar aulas.

A Ilha realmente era mística por suas histórias e lendas que vinham dos famosos “Paióis de armamento subterrâneos da Aeronáutica” que diziam que poderiam explodir a qualquer instante levando pelos ares toda nossa Ilha, “às placas de caveira” que ostentavam os muros na entrada do Galeão salpicadas por Guaritas com soldados da Aeronáutica sempre atentos e a história como a Casa do Barão de Capanema, além de suas igrejas centenárias e tombadas pelo patrimônio histórico no Jardim Guanabara, na Freguesia e no alto da Ribeira.

As lendas da Ilha eram mágicas, desde a derradeira descoberta da cura do vitiligo por uma farmácia que ficava em frente ao cemitério do Cacuia, aos índios locais que guerreavam com os Tamoios pelo bairro, à lenda da nossa Onça Maracajá que até hoje se ostenta em forma de estátua na Pedra da Onça do Bananal aguardando a volta de uma índia ou do próprio Índio Aribóia que nascido na Ilha se fixou e criou Niterói às Palmeiras Imperiais da Praia da Bica e na Rua Uçá e das fontes de água mineral como a “Fontana gasosa” que foi inaugurada pelo então Presidente Eurico Gaspar Dutra e o Prefeito Mendes de Moraes cuja fonte ficava próxima ao Aterro do Cocotá. Outra lenda que surgiu das caminhadas nas aulas de educação física do Lemos Cunha à um “forte abandonado” onde conta-se a lenda foi flagrada uma “cocota” na ocasião em práticas condenáveis à época e virou o maior bochicho. Sem falar do tiroteio histórico do bandido Bigode estilo Sundance Kid no condomínio Tijolinhos enfrentando sozinho toda a polícia em uma guerra transmitida ao vivo pela TV para o mundo.

Os lugares surgiam, bombavam e depois sumiam, porém sempre coroavam nossas mentes. Onde está o Gaiteiro (soube que virou Pastor evangélico e que vende queijos saborosos) do “Sub Mundo” que era o Shopping recuado na Rua Colina onde se tomava de maneira sorrateira uma cerveja gelada, e se via a venda do “Éter com Clorofórmio” no famoso Loló da Colina? Ou Parque de diversões do Aterro do Cocotá com seu Trem Fantasma e carrinho Bate Bate e tiro com alvo com espingarda de rolha ou o ringue de patinação Roller Pino? Quem não se lembra das grandes plateias nos famosos e condenáveis “pegas” que aconteciam na curva do canhão e mais na curva do aterro do Cocotá onde até hoje existe aquele belo prédio que virou uma joia rara de nossa arquitetura como também são as casas centrais e adornadas por jardins projetados pelo lendário arquiteto Norton Cerveira Maia.

As mulheres, tínhamos as mais belas do mundo. Não só para aqueles abastados que tinham sua moto “Pushi”, Garelli ou Cinquentinha, vestiam a camisa Hang Ten, calça cocóta, Levis ou Lee usando com tênis Flexa ou All Star, mas que tinham, como nós mortais, musas que não sabemos mais aonde estão. Quem não se lembra das irmãs loiras Canadenses, da Taisa, da Cristininha, da Monica Boliviana (mãe do Rorion, Renan e Roger), que acabou casando com o já citado José de Moraes e até meu amor infantil que era Cibelle, até bem pouco tempo professora da Escola Tia Lavor que me ainda lembro de suas meias soquetes brancas e de seu vestido escolar curto e frizado. Dezenas de outras musas povoam eternamente nossas mentes em nomes não muito mais usados atualmente como Anas, Leilas, Vânias, Valérias, Vitórias, Lauras, Cristinas, Martas, Denises e Cecílias e que as revistinhas de desenhos, com historinhas de sacanagem do Carlos Zéfiro nos projetava em nossas mentes adolescentes.

Os hábitos sempre simples, como comprar pipas ou bombinhas e “cabeções de nego” (fogos) que eram vendidas em casas comuns de moradores e não em lojas! Correr atrás de doces de São Cosme e São Damião ou o hábito de criar peixinhos em aquários e lagos normalmente começando por pequenos aquários com os “barrigudinhos de vala” que habitavam os córregos do bairro e depois melhor adornados com os peixinhos tipo molinésia, espadas ou japonês comprados na loja Drovet na Estrada do Galeão.

A Ilha do Governador tem muitas histórias! Ela viverá muitos outros 450 anos, mas nos anos em que vivemos temos muitas lembranças, paixões e momentos que nunca sairão de nossa memória. Parabéns Ilha do Governador!! EU TE AMO!!!

*Wagner Victer é engenheiro de profissão, conselheiro do Clube de Engenharia e membro Efetivo da Academia Nacional de Engenharia, ex-presidente da CEDAE – Companhia Estadual de águas e Esgoto do Rio de Janeiro e da FAETEC/RJ, atualmente é o secretário estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro. Também é conselheiro do Fluminense Football Club.

Comentários

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Comentários

  1. Valeria Plaisant disse:

    Excelente matéria! Desfrutei em várias etapas da minha vida, os encantos e a beleza da Ilha do Governador! Parabéns! A Ilha faz parte do cenário dos projetos ambientais desenvolvidos pelos meus alunos.

  2. Maria das Graças disse:

    Adoreiii, que tour maravilhoso para os novos e para os antigos moradores, não sou da Ilha mas igualmente vivi e conheci lugares incríveis da nossa cidade.adorei relembrar marcas de produtos que usamos na nossa adolescência e que sem duvida deixaram saudades tanto do sabor quanto das histórias de vida na qual estavam presentes (primeiro beijo, etc). Você e uma pessoa surpreendentemente apaixonante, sou admiradora dos seus textos que nos remetem a uma viagem no tempo bom de nossas vidas. Parabéns a Ilha do Governador e aos seus moradores e principalmente aos apaixonados como você Wagner Victer.

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