Iemanjá – Senhora das águas salgadas
Na África, a “Mãe cujos filhos são peixes” era o Orixá dos Egbás, da região do Rio Yemoja, posteriormente obrigados a migrar, por conta das guerras, para um local onde existia o Rio Ogum, que passa a ser a nova morada de Iemanjá (VERGER, 2002, p.190). A maior parte das lendas associa o Orixá às águas, em especial do mar, como pode ser ilustrado no texto abaixo:
Iemanjá seria a filha de Olokum, deus (no Daomé, atual Benin) ou deusa (em Ifé) do mar. Em uma história de Ifé ela aparece casada pela primeira vez com Orunmilá, senhor das adivinhações, depois com Olofin, rei do Ifé, com o qual teve supostamente dez (10) filhos. Iemanjá, cansada de sua permanência em Ifé, foge mais tarde em direção ao oeste. Outrora, Olokum lhe havia dado, por medida de precaução, uma garrafa contendo um preparado (…) com a recomendação de quebrá-la no chão em caso de extremo perigo. E assim Iemanjá foi instalar-se no Entardecer da Terra, o Oeste. A lenda diz que Olofin, rei de Ifé, lançou o exercito à sua procura, o que fez Iemanjá, no esconderijo, quebrar a garrafa. Teria, então, na mesma hora, se formado um rio que a tragou, levando-a para Okum, o oceano – morada de seu pai Olokum. (http://br.geocities.com/umbandaracional/iemanja.html, Acessado em 23/07/2009).
Símbolo da maternidade, Iemanjá é considerada a mãe de todos os Orixás. Na Umbanda, o Orixá se torna a Senhora das Águas Salgadas que, “purificadoras, lavam o corpo, – o “aparelho” – e o espírito, do influxo das “vibrações negativas”, isto é, da atuação materializada das “forças do mal” (COSTA, 1983, p.190), só devendo ser exploradas para o sustento da humanidade. O domínio das águas doces, por sua vez, foi concedido a outro Orixá, Oxum.
Como a figura de mãe, Iemanjá sempre foi muito forte entre os africanos, que a representam como uma “mulher de sua raça, de seios volumosos e um ventre desmesurado” (TRINDADE, LINARES e COSTA, 2008, p.203). Ela foi sincretizada na Umbanda com Nossa Senhora, a Mãe de Deus, como acreditam os católicos, sendo associada, em especial, a Nossa Senhora dos Navegantes (Bahia) e Nossa Senhora da Glória (Rio de Janeiro). No entanto, diferentemente do sincretismo Oxalá/Jesus Cristo, a aproximação entre Iemanjá e Nossa Senhora na Umbanda não personificou a figura do Orixá em Maria. O que ocorreu foi uma transformação da imagem de Iemanjá sem, no entanto, anular sua identidade como a Senhora dos Mares.
Acima, imagem de Nossa Senhora dos Navegantes.
Acima, imagem de Nossa Senhora da Glória.
Através de Barros (2006), que discute as imagens socialmente construídas do feminino na Umbanda pelos seus próprios praticantes, falaremos mais um pouco do orixá Iemanjá. Pode-se observar que a sua representação mais expressiva está associada à imagem de uma mulher branca, vestida com um longo e belo vestido azul e jovem, que flutua sobre as ondas do mar. Essa Iemanjá sincrética, com seu rosto angelical e seus longos cabelos, simboliza a apropriação das tradições africanas pelo cristianismo em uma alusão à imagem da Nossa Senhora dos Navegantes. No entanto, segundo a autora em destaque, apesar de a representação criar um estereótipo típico do feminino na racionalidade ocidental, Iemanjá não perde o seu lado místico ligado às forças primordiais da criação. Corroborando sua discussão, Augras afirma que:
(…) ainda que apresente traços sedutores (…), Iemanjá é antes de tudo a boa mãe, desafricanizada, espiritualizada, “vibração do mar”. Perdeu qualquer característica concreta que possa aludir a uma mulher real. E, do ponto de vista que nos interessa aqui, é pura sublimação da sexualidade. (2004, p.30)
*Marcelo Alonso Morais é professor de Geografia do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, e tem mestrado em Geografia das Religiões.
Por Marcelo Alonso Morais, em 09/02/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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Prezado Professor Marcelo,
Depois de que me falou sobre o texto que fez sobre Iemanjá, tive a curiosidade de vir lê-lo.
Mais uma vez me impressiona a forma e linguagem simples com que retrata um tema tão complexo e importante, cheio de pormenores.
Mais uma vez, também, me questiono sobre o que pensariam as pessoas que rezam para Nossa Senhora das Glórias, por exemplo, mas discriminam aqueles que jogam oferendas para Iemanjá, se tivessem acesso a um texto como o seu.
Parabéns.