Ideologia versus história
Quando discutimos história, discordar é muito bom. No entanto, é preciso que se leve em conta que toda discordância, nesse caso, implica numa demonstração que por sua vez precisa manter a coerência nos seus desdobramentos e na sua fundamentação teórica. Por exemplo, não me basta dizer que a ideologia marxista se equivocou na interpretação da história do cristianismo em benefício próprio. Eu preciso demonstrar com exemplos práticos e inequívocos o porquê desta minha conclusão. Para tanto, me servirei do livro de A Origem do Cristianismo, de Jacó Lentsman, tido como um renomado historiador soviético, cuja obra foi publicada pela primeira vez sob os auspícios da Academia de Ciência da antiga U.R.R.S., em 1958.
O acadêmico Viper publicou após a guerra dois livros; O Nascimento da literatura Cristã, em 1946, e Roma e o cristianismo primitivo, em 1956. [...] No segundo, R. Viper, desenvolvendo idéias de Bruno Bauer sobre a estreita ligação entre o cristianismo e a ideologia do antigo mundo grego-romano e partindo da data da composição de alguns escritos cristãos que ele mesmo, considera estes últimos condicionados à ideologia e ao estado de espírito dos meios dominantes no Império Romano, que conhecemos através das obras dos escritores latinos e gregos da Antiguidade.
[...] Este historiador não aceita a idéia de que o cristianismo nos seus começos fosse a religião dos oprimidos; considera que ele refletia, desde o nascimento, os interesses das classes possuidoras, sem poder explicar de que maneira a ideologia cristã pode aparecer de repente, quase que inteiramente elaborada. (LENTSMAN, 1963, p. 28 e 29)
Desconheço o referido historiador, R. Viper, mas ele estava certo ao concluir que o cristianismo traduzia as perspectivas das classes altas. Infelizmente não posso aprofundar o meu comentário como eu gostaria, porque não li estas obras outrora restritivas para nós. Tomei conhecimento de R. Viper no livro de Lentsman e de Bruno Bauer por intermédio de um texto de Engels. Aliás, a coerência dos argumentos de Bauer, junto ao material resultante da pesquisa marxista, chamou-me atenção por causa das restrições que Engels lhe fez. http://www.marxists.org/portugues/marx/1895/mes/cristianismo.htm. No entanto, se na ocasião não foi possível a Viper explicar o repentino aparecimento da ideologia cristã, agora já se pode: as estratégias de ataque e defesa são elaboradas antes. Só isso.
Essa separação religiosa e racial combinou-se com as rivalidades econômicas e despertou, por volta do fim desse período, um movimento antijudaico em Alexandria. Os gregos e os egípcios, afeitos à união da Igreja e do Estado, não viam com bons olhos a independência cultural dos judeus; além do mais, sentiam a concorrência do artífice ou do negociante judeu, e ressentiam-se ante a tenacidade e habilidade daquela gente. Quando Roma começou a importar o trigo egípcio, eram mercadores judeus de Alexandria que em seus barcos transportavam o produto. *Percebendo os gregos que haviam fracassado na helenização dos judeus, começaram a temer pelo próprio futuro, num Estado em que a maioria continuava persistentemente oriental e se reproduzia com intensidade. Esquecidos da legislação de Péricles, queixavam-se de que as leis hebraicas proibiam o cruzamento racial, e que os judeus raramente se casavam fora de famílias judias. A literatura anti-semita cresceu. Maneto, o historiador egípcio, espalhou a história de que os judeus haviam sido expulsos do Egito, havia muitos séculos, por sofrerem de escrófula ou lepra. O preconceito anti-semita intensificava-se de ambos os lados, e no século I da era cristã estalou com destruidora violência. (DURANT, 1971, p. 468)
Na segunda metade do primeiro século o mundo grego ainda reagia desordenadamente contra o avanço do judaísmo. Um ambiente antijudaico havia se formado em resposta a instigação da intelectualidade grega. Não se tratava apenas uma oposição ao gerenciamento do templo, como alguns tentam passar. Diversos focos contrários à religião judaica e mesmo ofensivos a ela tinham em comum a negação daquilo que havia de mais sagrado para os judeus – o deus de Israel. Posteriormente, os teólogos sistemáticos criaram uma bruma densa diante do fato, chamando tais focos de judaísmo heterodoxo ou de judeu-cristianismo. Esse movimento antijudaico ia da sodomia (Nicolau) e do desfrute comum das mulheres (Carpócrates) até o encratismo, isto é, a negação da prática sexual e da procriação, afrontando o mandamento “Frutificai e multiplicai-vos” (Gen 1:28), causa da intensa reprodução dos judeus. Portanto, o cristianismo nunca foi de origem judaica como se propala, mas de origem antijudaica, como ainda tentam ocultar.
Foi essa sopa de letrinhas adversárias que os gregos mais qualificados assumiram e fizeram dela uma religião consistente e organizada. A mudança de orientação representada pelo fictício Paulo, que pedia obediência às autoridades, pois toda autoridade provinha de deus – do deus de Israel que foi reabilitado e passou a ser o pai celestial do Jesus de Nazaré – já indicava que a proa daquele barco, já sob o comando de uma guarnição experiente, se voltava na direção do centro do poder. Preparavam o povo para a obediência cega a eles mesmos ou à Igreja, tanto faz. Vale à pena conhecer um comentário do psicanalista, filósofo e sociólogo alemão, Eric Fromm, a respeito.
A Igreja Católica percebeu como acelerar e fortalecer, de forma magistral, esse processo de transformação da acusação a Deus e aos governantes numa acusação do próprio eu. Intensificou o sentimento de culpa das massas a ponto de torná-lo insuportável. Com isso, atingiu um duplo objetivo: primeiro, ajudou a afastar as acusações e a agressão das autoridades, desviando-as para as massas sofredoras; segundo, ofereceu-se a essas massas sofredoras como um pai bom e amante, já que os sacerdotes concediam perdão e expiação ao sentimento de culpa que eles mesmos haviam provocado. Cultivou, engenhosamente, a condição psíquica da qual ela e a classe dominante obtinham uma dupla vantagem: o desvio da agressão das massas e a segurança de sua dependência da agressão das massas e a segurança de sua dependência, gratidão e amor. (FROMM, 1978, p. 60)
Com os 10 ou 15 % da população cristã diluída pelo império, fica difícil aceitar que a “religião de oprimidos e escravos” tenha levado o esperto Constantino, como preferia Engels, a concluir pela conveniência de se governar com o apoio das massas sofredoras. Hoje é fácil se concluir pela possível esperteza devida à propaganda maximizadora dos feitos e efeitos cristãos porque o cristianismo venceu. Porém, na época, certamente isto se explicaria de outra forma. As patacoadas criadas por Lactâncio e Eusébio para melhorar a imagem daquele monarca, filho de uma cristã pia etc. e outras tolices, felizmente, encontraram dificuldades na consciência de historiadores cristãos, como na do mais fervoroso deles – Henri-Iréné Marrou que, vivendo o dilema entre a história e a ideologia cristã, se esforça dramaticamente para sair da saia justa.
Que Constantino, sendo pagão mas de um paganismo esclarecido e tolerante como o pai, se tenha convertido ao cristianismo não pode ser posto em dúvida. Que tenha esperado até as vésperas de sua morte, para pedir e receber o batismo, corresponde ao uso freqüente de então e se explica pelas duras necessidades do ofício de imperador: para não falarmos dos crimes mais notórios, Constantino teve que assumir sucessivamente a responsabilidade pela morte do seu sogro, de três cunhados, de seu filho mais velho e de sua mulher. Isso, no entanto, deixa aberto o problema: a partir de que data se registra sua adesão à fé cristã? Evolução progressiva? Conversão repentina? Quando, ou a partir de quando?
Teríamos que aceitar que a partir da batalha decisiva da ponte Mílvia, batalha em que iria perecer Maxêncio (12 de outubro de 312), o exército de Constantino tenha arvorado em seus escudos um símbolo cristão? A anedota, que iria progressivamente enriquecer-se par um desenvolvimento literário, propalava-se nos meios cristãos achegados à corte desde 318-320, ou seja, seis a oito anos após o acontecimento. Continua sendo muito difícil para nós deslindarmos dentre estes testemunhos da história o núcleo real dos acontecimentos que eles podem encerrar, envolto na ganga em que se superpõem tanto a retórica como a idealização da figura imperial, como ainda o esforço de atrair para a órbita do cristianismo, e ainda o gosto do maravilhoso. (MARROU, 1966, p.274)
Se houve conversão, foi no leito de morte. Constantino I podia ser tudo, menos um idiota que trouxe o cristianismo para o poder para agradar a mamãe. Por outro lado, era arrojado e não aventureiro. Não faz sentido que um cara desses, que além do perfil de psicopata; que desprezava Roma; criado nas cortes da Ásia Menor; filho de pais de fala grega; que se cercava por cristãos muito antes de se tornar imperador, desconhecesse os detalhes desse projeto grego e dele, previamente, não fizesse parte. Aliás, ao que parece, a religião cristã pouco o importava. Do contrário, Constantino teria feito logo se batizar em público, cercado de pompa e circunstância, para promover a si mesmo e a religião que abraçou. Propaganda melhor para apressar conversões não poderia haver. Entretanto, quando ele precisava se informar ou traduzir-se no respectivo assunto contava com o seu assessor especializado, Ósio de Córdoba. No mais, os excluídos sempre foram usados como ainda o são. As classes altas nunca deixaram de dominar o cristianismo e foram elas as maiores beneficiadas nessa história.
Não creio que ideologia alguma traga maiores benefícios ao estudo e ao progresso da ciência histórica, senão os acidentais. No caso, os excelentes pesquisadores marxistas fizeram um trabalho maravilhoso quanto a inúmeros detalhes da história do cristianismo ocultos pela ideologia cristã. No entanto, as conclusões desses trabalhos não foram suficientes para o desvelamento desta parte tão interessante da história. A Igreja deve ter suspirado aliviada.
Lentsman fez uma referencia conclusiva a outro historiador soviético conceituado, Diacov Covalev, como um sintetizador do pensamento dos historiadores marxistas da época.
[...] Apresentando o balanço das pesquisas procedidas nesse domínio pelos sábios soviéticos, e propondo a título preliminar novas soluções, Covalev sustenta que a questão da realidade histórica de Jesus não deve de modo algum figurar no primeiro plano da historiografia do cristianismo, e apela que todos os esforços sejam orientados em função do esclarecimento das causas materiais, sociais e econômicas da aparição da religião cristã. [...] (LENTSMAN, p. 29)
Eis a motivação ideológica que impediu os historiadores marxistas de fecharem com chave de ouro a questão que o iluminismo havia deixado em aberto. As prioridades causais propostas por Covalev eram como o Jesus histórico, nunca foram encontradas porque nunca existiram. O confronto que existia era de natureza cultural e não social e econômica, como preferiam eles. Que pena.
Referências
DANIÉLOU, Jean; MARROU, Henri. Nova história da Igreja: dos primórdios a São Gregório Magno. Petrópolis: Vozes, 1966.
DURANT, Will. Nossa herança clássica. Rio de Janeiro: Record, 1971.
FROMM, Erich. O dogma de Cristo. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
LENTSMAN, Jacó Abramovitch. A origem do cristianismo. São Paulo: Fulgor, 1963.
*Grifo do autor
*Ivani de Araújo Medina é carioca, nascido na Ilha do Governador em 1947. Formado em Artes Plásticas pela antiga Escola Nacional de Belas Artes na década de 1960, e autodidata e pesquisador em História do Cristianismo.
Por Ivani de Araújo Medina, em 26/07/2011 - 00:02. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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Bem lógicas e interessantes as suas colocações, Ivani.
Estou de acordo com o Viper de que realmente o surgimento do cristianismo não representou nenhum tipo de “lutas de classes”, mas foi mesmo uma estratégia da elite grega, ainda que isto possa parecer meio contraditório quando nos deparamos com a existência de passagens bíblicas do Novo Testamento encorajando a divisão de riquezas, como na igreja apostólica em Jerusalém de Atos 2 e 4, bem como as ajudas coletadas por Paulo nas igrejas gentílicas em benefício dos judeus que teriam passado fome durante o reinado de Cláudio. Porém, em nenhum momento do NT se vê incentivo a revoltas sociais, o que é condenado como prática pecaminosa pelo catolicismo, conforme ficou bem situado na citação que dez do Fromm. Pois ao cristão não é permitido ter ódio político e nem ir contra as autoridades constituídas, exceto se for para obedecer primeiramente a Deus. E isto vai divergir da liberdade que judeus, romanos e gregos antigos tinham para intervir politicamente, contrariando os interesses dos governantes e das classes dominantes. Ao cristão escravo é dito por Paulo que não se preocupe com a sua condição, mas, se tiver a oportunidade de se tornar homem livre, que aproveitasse a chance.
O anti-semitismo grego e geral como causa do surgimento do cristianismo é uma tese bem plausível. Pois além de circunstâncias econômicas, em que o empresário judeu é visto como um concorrente habilidoso e pessoa capaz de apoderar-se das posições-chave no meio em que vive (ter riquezas não é pecado no judaísmo, mas é sinal da bênção divina), existe o ódio cultural alimentado nas classes mais baixas e intermediárias de toda sociedade, em que o sentimento anti-semita torna-se bem subjetivo, algo que poderíamos chamar de instintivo, talvez sem razão e nem justificação. Algo que brota de um preconceito, de uma opinião formada sem reflexão, incapaz de calcular os fatos e avaliar as consequências, mas se firma numa emoção patológica onde basta que o nome judeu seja mencionado para que o indivíduo sinta uma obsessão, repulsa e forte aversão que chega a se transfigurar num ódio mordaz, num sádico desejo para destruir e queimar tudo o que se encontra relacionado à cultura judaica. E aí não é de se admirar que, no meio desta gente anti-semita, encotnremos também intelectuais e sábios, geralmente ofuscados por uma cultura chauvinista que eles acreditam ser a mais elevada e perfeita dentre todos os povos. E isto deve ter acontecido com os gregos entre os séculos II a.E.C. e I E.C.
Na Maguilá, lida pelos judeus nos rituais religiosos do Purim, contém uma interessante afirmação de Haman, primeiro-ministro do rei persa Assuerus, constatando a dificuldade de assimilação cultural dos judeus pelos dominadores: “Há um povo espalhado e disperso por entre os povos e em todas as províncias do teu reino, e as suas leis divergem das de todos os povos (…)” (Ester 3.8)
Assim, pode-se observar que, pela fidelidade dos judeus às leis e aos costumes da Torá,este povo jamais submete-se por inteiro a qualquer dominação política, preservando o ego nacional em todas as circunstâncias. Jamais que a cultura judaica vai ser assimilada. Suas tradições, sentimentos, modos de vida, maneira de pensar, leis dietéticas, casamentos só entre as famílias judias, a língua e a religião sobreviveram aos impérios, processos universalismo, socialismos e de globalização, tal como a água e o azeite que não se misturam. E isto os torna hermeticamente fechados para qualquer meio em que vierem a habitar, o que leva-os a um certo isolamento, despertando a intolerância dos demais povos quanto à peculiaridade do jeito sui generis de ser do povo judeu. Então, diante de um sistema unificador ou universalista, como foi o helenismo de Alexandre Magno, os judeus passam a ser vistos como uma suposta ameaça, “separatistas”, “intolerantes” e gente de “dupla lealdade”.
Realmente o cristianismo foi uma jogada bem inteligente dos sábios gregos e aí não se pode incluir o movimento de Jesus e dos apóstolos. Pois, independentemente de eu crer ter existido e você persistir com a desconfiança de que seriam invencionices gregas, eis que os relatos do Novo Testamento serviram apenas de pano de fundo para uma perversa estratégia de poder engendrada contra os judeus (ou para trazer de volta os gregos que tinham sido proselitados pelo judaísmo espalhado por todo o império). Logo, concordo com o comentário extraído de Lentsman citado por você, o qual também, o qual também é válido para quem crê ter sido Jesus um judeu e apenas um reformador de sua religião, sem jamais ter aspirado a criação de uma nova (eu mesmo situo Yeshua como um seguidor da Torá e que dá continuidade a Moisés, sem jamais ter tentado suplantar o proto-profeta de Israel).
Caro Ivani.
Seus textos sempre são claros e repletos de conteúdo didático e que levam à novas reflexões.
A visão sobre a formação das religiões institucinais deve sempre estar na pauta. Entender como o cristianismo, ou outras religiosidades, se estabeleceram historicamente, como você vem construindo, é uma forma de entender toda a nossa historicidade. Também, de entender muitos do problemas com os quais as sociedades atuais ainda se deparam.
O racionalismo grego, e as muitas culturas do oriente, moldaram o cristianismo que conhecemos. Logo, é importante conhecer as verdadeiras origens do pensamento ocidental, como seus textos assim o demonstram.
Exemplo de sincretismos como o de São Cristóvão, como em um texto português (de Tomar) sobre este personagem, “São Cristóvão da Charola”, em
http://adiliojorge.blogspot.com/2011/01/sao-cristovao-da-charola-uma-historia.html
Parabéns, Ivani!!!