Homenagem póstuma
Meu cachorro Barney viveu dez anos. Foram anos perfeitos para nós dois. Nós nos amávamos. Ele foi o meu professor de ternura, dedicação e fidelidade. Nunca tive um mestre tão silenciosamente amoroso.
Fotografei muito o meu bichinho vira-lata. Alimentei-o com carne moída misturada com arroz, amor e legumes; seus dentes quebrados por tantas travessuras não cumpriam sua função primordial.
Vivia na rua, parte se seu dia, e adorava crianças. Pela manhã eu conversava com ele que em seguida, saia para a batalha diária. No meio do dia, voltava para comer, passando em revista seu território e tirando uma soneca, no quintal. À tardinha lá estava ele de volta, sujinho e cheio de novas experiências. Eu o saudava e ele respondia, balançando o rabinho cheio de lama, sorrindo como o cachorro do Roberto Carlos. Era linda nossa cumplicidade!
Não percebi o tempo passando que… passou.
Sou grata a Deus por ter convivido com o Barney.
Amei o meu pretinho, mas eu nunca disse isso a ele. Nunca verbalizei o meu amor. Por que não o fiz? Será que expressar sentimento é perigoso?Será que declarar amor fragiliza? O “eu te amo” da moda é amor? O amor pode ser ameaçador? Porque, muitas vezes, temos dificuldade de viver essa experiência?
A beleza do amor, certamente, está nas páginas dos livros de poesia e nos corações das mães; raramente, nos gestos das pessoas receosas.
Defesa, é essa a palavra quando o assunto é amor.
Racionalizamos, cuidadosamente, as emoções geradas na alma, disfarçamos os sentimentos que podem representar perigo. Somatizamos a dor que não se expressou e ela cai como um raio nos nossos órgãos de choque, estômago, intestino, coração. Do médico não conseguimos esconder o grande e doloroso segredo. Ele descobre.
Negamos, o quanto podemos, para esconder de nós mesmos a verdade: não somos frágeis, não somos medrosos, não somos omissos, não falamos mal de ninguém. Somos perfeitos e equilibrados.
Idealizamos a vida e não conseguimos viver sua realidade; idealizamos o amor, a beleza, o amigo, a felicidade. Recalcamos nossos mais belos sentimentos por conta de nossa insegurança e covardia.
Projetamos no outro deficiências que são nossas e ele que se dane. Convertemos no contrário nossas reais motivações. Uma atitude de gentileza pode significar um desejo de agressão. Desperdiçamos nossas mais delicadas sensações.
Penso que tanto malabarismo no jogo das relações pode ser traduzido como medo de perder o controle da situação, de cair nas “garras” do outro, de nossa própria desintegração…
Não sabemos o que fazer diante da complexa simplicidade da vida, esse paradoxo. A iminência de uma decepção transfere a experiência do prazer e da beleza dos nobres sentimentos, que transformam o SER em HUMANO.
Barney eu te amo!
Dayse Rizzo é psicóloga e mora no Rio de Janeiro.
Por Dayse Rizzo, em 06/05/2009 - 23:54. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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