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França: alguma esperança, numa eleição difícil

Jean-Luc Mélenchon (à esquerda), candidado da França Insubmissa e François Hamon, que sacudiu o Partido Socialista de um sono profundo.

A França, um dos dois principais motores da Europa, está às vésperas de nova eleição presidencial, marcadas para 23 de abril e, em caso de segundo turno, 7 de maio. Será a primeira eleição geral europeia de grande porte depois da posse de Donald Trump nos Estados Unidos – e a depender do resultado, verdadeiras placas tectônicas podem se mover. Ela possivelmente ditará o ritmo para duas outras eleições chave para o futuro da União Europeia: na Alemanha, em setembro, e na Itália, em março de 2018.

Graças à sua legislação peculiar e à demora do Partido Socialista para escolher seu candidato, a França só conheceu há poucos dias todos os seus principais postulantes: com a vitória nas primárias socialistas do progressista Benoît Hamon, entrou no páreo o último candidato com chances reais de vencer – ao lado do conservador republicano François Fillon, de Marine Le Pen pela extrema-direita, do neoliberal Emmanuel Macron e do esquerdista Jean-Luc Mélenchon.

Hamon, defensor da legalização da maconha e internacionalista venceu as prévias em uma silenciosa rebelião das bases do partido, semelhante ao que Jeremy Corbyn liderou entre os trabalhistas britânicos e Bernie Sanders tentou entrou os democratas norte-americanos.

As bases socialistas estavam furiosas com os efeitos da linha pragmática e neoliberal adotada nas últimas décadas pelo partido e, em particular, nos últimos anos sob a presidência de François Hollande, que inclusive desistiu de tentar sua reeleição dada sua alta impopularidade e o fracasso de suas políticas. Eleito em 2012 sob a promessa mudar o equilíbrio de forças europeu, terminou por seguir à risca a sua herança maldita: uma linha ultraliberalização interna e apoio incondicional aos Estados Unidos. Patrocinou a lei que flexibilizou os direitos trabalhistas levando a um multitudinário ciclo de manifestações sindicais e da juventude — inclusive o movimento Nuit Debout, no primeiro semestre de 2016.

Hamon, que estava apenas em terceiro lugar nas pesquisas internas no início de janeiro, derrotou em uma virada espetacular tanto Manuel Valls, ex-primeiro ministro de Hollande e candidato oficialista, quanto o moderado Arnaud Montebourg, ambos representantes das alas que vinham se revezando no poder no Partido Socialista nos últimos anos.

Mas nem tudo são flores: Marine Le Pen, candidata da extrema-direita, lidera as pesquisas de primeiro turno desde o começo do ano. Mesmo que as mesmas pesquisas apontem para uma derrota no segundo turno, isso não deixa de ser preocupante.

O Front National, partido de Le Pen, é uma das poucas agremiações que faz política de base e vende um discurso fácil e simplório para os afetados pela crise europeia: a culpa é dos imigrantes e das minorias, assim como da decadente política liberal, a qual deve ser substituída por um capitalismo de Estado autoritário e racista, unindo as maiorias sociais em detrimento das minorias.

Ao contrário de seu pai, o também ultra-direitista mas folclórico Jean Marie, age como inteligência maquiavélica, apoiando-se em trabalhadores brancos falidos e rebaixados socialmente, unindo-se com setores da extrema-direita europeia. Diante de uma população atingida em cheio pela crise econômica e cada vez mais desesperada, o discurso do ultranacionalismo, mesmo que a um custo ético alto, pode prevalecer, como ensinam as vitórias do Brexit e de Trump. As massas estão prontas a renegar o liberalismo, seja por bem ou por mal e Le Pen é esse perigo.

Os conservadores franceses tradicionais, unidos sob a insígnia ecumênica chamada de Les Républicains, escolheram o ex-primeiro ministro François Fillon em detrimento do ex-presidente Nicolas Sarkozy e do ex-ministro Alain Juppé em prévias movimentadas: ganhou Fillon, mesmo que tivesse menos simpatia do eleitorado em geral que Juppé, pois seu discurso, baseado no conservadorismo moral, aparentemente seria o ideal para “neutralizar” Le Pen.

A defesa do thatcherismo por parte de Fillon soa absolutamente anacrônica num momento em que isso o Estado mínimo não agrada a ninguém, nem mesmo aos próprios conservadores britânicos – vide a linha da atual primeira-ministra britânica, Theresa May, que não ousa falar contra o direito dos trabalhadores e busca se afastar do legado de Thatcher. Se de um lado soa falso ao simular o discurso linha-dura de Le Pen, do outro, Fillon parece antipático a um eleitorado realmente tenso com o desfazimento do bem-estar.

O pior, contudo, estaria por vir. Com Fillon ultrapassado por Le Pen no começo do ano e a indicação de Hamon como candidato socialista, começaram a surgir pressões entre acadêmicos, ativistas e artistas para que as esquerdas se unam diante de um programa comum. O apelo é dirigido tanto ao candidato socialista quando a Jean-Luc Mélenchon, que se situa à sua esquerda, e hoje detém 10% das intenções de votos. Uma poderia significar que uma candidatura comum de esquerda no segundo turno, algo impensável há dois meses.

Como se nada pudesse ser pior para Fillon, Emmanuel Macron, ex-ministro das finanças de Hollande, saltou fora do Partido Socialista e agora empreende uma campanha por um bloco político solo, afirmando-se como um “progressista” que não é de esquerda nem de direita, e encarna os valores liberais predominantes na atual União Europeia. Macron, um banqueiro, ex-integrante da ala direita dos socialista e ministro da economia de Hollande, conseguiu rapidamente se desvincular da figura do atual presidente em fim de mandato.

Hoje, Macron é o queridinho da grande imprensa europeia, basta ver a cobertura amplamente favorável que lhe é dada. Em um cenário onde ele e Fillon dividem votos – e juntos somam pouco mais de 40%, como representantes da União Europeia na forma atual – é fácil encontrar quem espere que o eleitorado decida-se entre um ou outro – o que nesse caso desfavorece cada vez mais Fillon.

Coincidência ou não, com a solidificação da campanha de Macron, que ultrapassou passou para o segundo lugar nos últimos dias, e os riscos reais de aliança entre as esquerdas, uma devastadora denúncia contra Fillon e sua mulher estourou, levando inclusive a polícia francesa à Assembleia Nacional. As últimas pesquisas indicam que Fillon, depois do acontecido, registrou nova tendência de queda e os resultados disso ainda são inesperados.

Macron talvez seja a última chance para a União Europeia como a conhecemos. Mas se sua eventual eleição dá sobrevida ao bloco, por outro lado, nada garantiria que sua presidência fosse capaz de superar os dilemas e encruzilhadas que se avizinham.

Os velhos liberais europeus como Fillon e Macron, ao contrário, são a continuidade de um discurso e de uma prática que, apesar de simpatia e politicamente correta, vê a Rússia como uma mera fornecedora de hidrocarbonetos com armas em demasia, que precisa ser dobrada a qualquer custo.

Já Trump está entusiasmado com as forças de direita radical europeia, bem-disposto a fazer acordos com a primeira-ministra britânica Theresa May. O mesmo poderia se repetir com Le Pen, que visitou recentemente sua Trump Tower.

O resultado das eleições ainda é, portanto, absolutamente incerto mas a disputa será uma das mais acirradas da história recente da França. As variáveis da união das esquerdas e do quão a candidatura Fillon irá derreter são, neste início de fevereiro, essenciais para compreender o desdobramento do jogo.

Fonte: OUTRAS PALAVRAS

*Hugo Albuquerque é jurista, mestre em Direito Constitucional pela PUC-SP, sócio da Saccomani, Albuquerque & Biral Sociedade de Advogados e editor da Editora Autonomia Literária.

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