Formando “Fazedores de Provas”
Quem olha para a escola de forma crítica, com olhar de educador consciente e responsável de seu papel, enxerga uma dura e triste realidade: ela não está formando cidadãos. Quando muito, informando e produzindo meros “fazedores de provas”. Conceitos são “ensinados”, decorados, “aprendidos”, cobrados nas provas e esquecidos. Passadas as avaliações pouco ou nada do que foi “trabalhado” nos bimestres ficou na memória dos alunos. Em uma situação cotidiana são incapazes de recorrer a um ensinamento aprendido na escola para aplicar e solucionar o problema. Na verdade, a grande maioria sequer vê utilidade para os conteúdos escolares, a não ser passar nas provas.
Há algum tempo, questionando um grupo de alunos sobre o motivo pelo qual eles estudavam, obtive como resposta: “para fazer prova”. Essa colocação dos alunos, tão ingênua e franca, deixou-me profundamente alarmada. Na cabeça daquelas crianças a escola é apenas um lugar aonde se vai para se preparar para as famigeradas provas. Essas crianças não viam na escola qualquer aspecto de camaradagem, de ambiente enriquecedor de cultura, de espaço de preparação para a vida social ou para o trabalho.
Impressiona-me como a maioria das crianças, depois de 4, 6 anos na escola têm dificuldade para resolver problemas simples do cotidiano, como calcular mentalmente o valor a ser pago por pequenas compras, qual será o troco, quantos outros produtos podem adquirir com o valor que possuem, de quanto mais precisariam para comprar outros tantos e por aí vai, enquanto que crianças que vivem nos sinais de trânsito, algumas delas sem nunca ter freqüentado os bancos de uma escola, resolvem e respondem essas perguntas de pronto, sem titubear. E, em contrapartida, essas mesmas crianças se atrapalhariam enormemente se tivessem que “armar e efetuar” um cálculo, tamanha a falta de intimidade com essa “coisa acadêmica” da representação numérica, a que as crianças que freqüentam a escola estão habituadas, pois, mesmo sem conseguir usar os cálculos no cotidiano, elas conseguem representá-los no papel.
Se considerarmos que o conhecimento se dá quando tornamos uma coisa antes desconhecida em familiar, não podemos dizer que o ensino ministrado na escola esteja acrescentando conhecimento matemático aos alunos, uma vez que os cálculos continuam na obscuridade, no mundo do estranhamento. Os alunos só reconhecem como familiar os cálculos abstratos e sem propósito do papel e do quadro. Sem propósito para a vida, mas não para as provas bimestrais, as quais eles serão submetidos. É um conhecimento acadêmico que fica no mundo acadêmico, não conseguindo avançar no mundo fora da escola.
Quando aprendemos uma coisa nova, nosso cérebro procura ligar esse novo conhecimento com os anteriores, formando uma rede de conhecimento sobre o assunto, que pode ir aumentando à medida que vamos aprendendo mais e mais coisas sobre ele. Em determinadas situações, quando precisamos daquele conhecimento, nosso cérebro ativa essa rede, buscando as informações armazenadas. Se, fora da escola, em um momento de solução de um problema cotidiano – como as compras mencionadas anteriormente – a criança não é capaz de buscar uma relação com o que é aprendido na escola, isso só confirma que ela está “aprendendo” apenas a fazer prova.
Esse fato, que deveria estar sendo visto com verdadeiro terror, parece não incomodar muitos professores que continuam a “dar suas aulas” sem o cuidado de fazer a contextualização entre o “saber da escola” e as necessidades da vida cotidiana e de verificar o crescimento pessoal de seus alunos. A famosa frase “só há ensino quando há aprendizagem” precisa fazer sentido em nossa vida enquanto educadores! A coerência pedagógica há de ser buscada com urgência, sob pena de vermos engrossar a fileira dos analfabetos funcionais.
*Cristina Silveira é professora do ensino fundamental e médio, pedagoga, especialista em dificuldades de aprendizagem, docente da rede estadual de ensino (RJ) e da rede municipal de Duque de Caxias (RJ), onde atua na Subsecretaria Adjunta de Planejamento Pedagógico e autora do livro Ziraldo na Sala de Aula (Editora Melhoramentos).
Por Cristina Silveira, em 26/10/2009 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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Oi, Cristina!
Infelizmente a escola ainda, mesmo com todos esses anos estabelecida, se esquece que é vida!
Alguns professores tem o péssimo costume de enfatizar que a vida é FORA da escola e assim, não tem como preocupação fazer pontes com o real. Mas também a escola é real!!!!!!!!!!!
Os alunos percebem claramente que o passaporte, a moeda valorizada, é a nota e o “passar de ano”.
Muito lúcida sua análise, parabéns!
Grande abraço, Ana V.
Cristina, o pior é que a neura por “formar” fazedores de prova às vezes começa na educação infantil! Há pais mais preocupados com resultados do ENEM do que com a proposta pedagógica das escolas, quando escolhem uma pros seus bebês…
Parabéns pelo texto!!
Bjs,
Leonor.
Prezada amiga Professora Cristina
Parabéns pelo seu excelente texto sobre o ensino atual em que os professores só se preocupam que seus alunos se saiam bem nas provas. Lembro de meu tempo de aluno e de professor de ensino médio, no querido Colégio Estadual Paes de Carvalho”, em Belém do Pará, em que os professores se preocupavam apenas com o bom aprendizado de seus estudantes. Em vista disso, a passagem no vestibular era uma consequência natural, sem ser preciso fazer Cursinhos.
Um abraço amigo do
Bassalo
Oi, Cris!
Parece que vc ouviu meus pensamentos, hehehehe Ainda outro dia eu estava justamente ponderando sobre o assunto e pensando em formas melhores de dar minhas aulas, fugindo um pouco das exigências curriculares. Resolvi trabalhar com um tipo de introdução à historiografia, com meus alunos. Amei o resultado. Infelizmente nem sempre a gente tem condições de fazer um trabalho mais qualitativo. Tenho mudando minhas avalições, pelo menos em alguns turmas, tornando-as mais analíticas, fazendo que os alunos parem de tentar decorar conteúdo e passem a entender, debater, criticar com mais frequencia. Enfim, tudo isto para dizer que gostei do seu texto, hehehehehe.
Parabéns!
Cristina,
Parabéns pela analise clara, objetiva e provocadora….
Na minha opinião o grande problema da relação do aluno com o conhecimento está na falta de significado. O aluno não vê utilidade “na vida real” para aquilo que ele aprende na escola. Muitas vezes a escola está mais preocupada e “depositar” conhecimentos em seus alunos do que lhes ensinar a aprender, por sua vez, os pais preocupam-se mais com as notas.
Seu artigo me fez lembrar da música do Gabriel, o pensador, “Estudo errado” na qual o filho diz aos pais que não aprendeu nada, mas tirou 10 e os mesmos o parabenizam….
Mas uma vez parabéns…
abçs….
É minha amiga Cristina, você como sempre objetiva e brilhante, o seu artigo é bem bacana, há dias atrás tive a oportunidade de assistir uma palestra do Vasco Moretto, e coincidentemente o tema era Avaliação. “Por que será??!!!” O Palestrante falava e demonstrava exemplos de provas que ele reuniu num total de mais ou menos 8.000, e você precisava ver nas questões tamanha ausência de relação com a vida diária dos alunos nas perguntas. O que provocou grandes risos na platéia, platéia esta formada em sua totalidade de professores. Veja só!!! Penso que se torna cada vez mais urgente e essencial a formação dos Professores, não uma mera formação, mas sim uma formação de qualidade. Se não, infelizmente vou ter que concordar com você, veremos engrossar a fila de analfabetos funcionais.
Um grande abraço…
Viviane Souza
Alô Cris.
Parabéns, por se angustiar com tal situação. Seu texto foi inteligente e muito apropriado para o momento em que vivemos. Penso que os alunos apenas estão dando uma resposta ao que os governantes estão fazendo com a nossa querida e abençoadora EDUCAÇÃO e os educadores. É claro que os profissionais precisam se empenhar cada vez mais em transformar um saber teórico em algo prático. Até hoje não entendi porque eu tive que estudar algumas coisas que ainda não vi sua praticidade. Entretando, sinto que o governo sim, é responsável em capacitar tais profissionais. Parabéns, porque sei que você não fica esperando pelo que fazem por você. “Quem sabe faz a hora”.
Grande abraço.
Olá Cristina,
Muita boa a abordagem e a profundidade da crítica. Ela é válida para os mais variados colégios, inclusive alguns ditos modelos, como o CAP-UERJ, que acompanhei até recentemente pela formação de meus filhos. Sabe, tenho a impressão que toda a máquina de “formação” (que não deixa de ser horrivelmente de deformação) está voltada para preparar indíviduos para os “concursos do Grande Capital” e cada vez com menos tempo, menos espírito crítico, menos ócio criativo e, portanto, ligando ao seu outro texto – Pr’a ser Feliz, com menos prazer e felicidade de aprender; de crescer e se sentir fazendo parte do processo de crescimento social. Mas, e como mudar isto?