Filosofia, arte e ensaio – além de mais um pouco sobre a inocência pós-moderna


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Acima, quadro Os Retirantes, de Cândido Portinari, 1944.

Criticar a pretensão do Iluminismo de explicar tudo pela rubrica da razão levou os primeiros românticos a perceberem que a verdadeira filosofia estava na arte. E por quê isso? Porque a arte era o único momento no qual o sujeito se implicava na sua produção, superando a pretensão empirista da razão objetiva.

Ora, então, se não há verdade objetiva (ou absoluta), é justamente porque a enunciação depende metade de um contexto amplo e a outra metade de uma posição do indivíduo em relação ao que está sendo observado. Em outras palavras, não existe objeto sem sujeito e nem sujeito sem objeto (Uma ressalva importante é a de que estamos falando de uma ambiguidade e não de um contradito que vence. Isso é importante porque tem muita gente inocente que acha que o fato de não haver verdade objetiva significa que então ela só pode ser absolutamente subjetiva – é o tal culto da opinião, uma bobeira que a gente vive hoje e que só denota preguiça de aprofundar – e isso não existe).

Voltando à questão anterior, isso gerou então uma nova percepção nos filósofos, que passaram a considerar que muitas obras literárias eram especialmente filosóficas, justamente porque um romance, por exemplo, não se posiciona como verdade do real, mas como uma construção assumidamente figurada da realidade – apesar de conter vários indícios de valor em seu conjunto. Essa, digamos, “honestidade formal” chamou a atenção da filosofia para a arte. É por isso, inclusive, que o Deleuze, já no século XX, vai dizer que o “conceito”, que é a forma filosófica essencial, tem que passar a ser “expressionista”, numa alusão ao movimento de vanguarda das décadas de 10 e 20, que buscava um maior comprometimento do sujeito e de suas sensações na ação e enunciação de uma obra.

A questão é que, como sabemos bem, essas descobertas mais complexas atingem sempre um número reduzido de pessoas. No geral, as pessoas comuns ficam se protegendo sempre em um ou outro reducionismo de ocasião. E então, no que diz respeito aos campos de pensamento, vale fazer uma pequena digressão sobre as chamadas “ciências humanas”.

No pólo oposto dessa articulação entre arte e filosofia, as ciências humanas avançavam, como um reduto da razão objetiva do Iluminismo. Sociologia, economia e pedagogia, dentre outros campos menos complexos, continuavam – e, em grande medida continuam até hoje – buscando um referente objetivo e empírico que lhes desse a segurança de uma ilusão de objetividade. E é por isso que esses saberes se utilizam tanto de ferramentas como as estatísticas. Porque ali deliram melhor os seus devaneios de cercas. São saberes fóbicos pra caramba.

No outro extremo, temos um pequeno problema, que gerou reações críticas. Uma parte dos filósofos interessados na arte confundiu a coisa e exagerou na dose, abrindo mão da metade objetiva da ambiguidade. Isso começou a gerar pensamentos muito soltos, que acabam, muitos deles, sendo meros exercícios de estilo, sem maior incidência crítica, justamente por não conterem um mínimo de referência ao objetivo. O Affonso Romano reflete isso muito bem em seu “Enigma Vazio”, de 2008.

E então, a saída da filosofia para esse drama do esvaziamento foi a criação do ensaio. O ensaio é um texto intermediário, metade filosófico, metade literário. Ele comporta as duas faces da ambiguidade, o que o torna o texto moderno por excelência. E é aí que a filosofia se faz arte, no melhor sentido. O Adorno esclarece diversos desses pontos em seu brilhante texto “O Ensaio como Forma”, da década de 40 (inclusive achei o texto na internet, pra quem quiser: http://maelstromlife.wordpress.com/2010/09/26/o-ensaio-como-forma-theodor-adorno/).

Uma conclusão possível aqui é a de que tudo que almeja ser contemporâneo tem que ser filosófico-artístico-ensaístico na mesma tacada. Enquanto isso, tudo o que se coloca como conceito meramente objetivo é extremamente ultrapassado, e muito – mais ou menos 250 anos, se quisermos ser mais aproximados. E esse é um toque para todos aqueles que vão para a universidade achando que o diploma realmente te eleva a um patamar “superior”. Se você entra na universidade e sai de lá sem considerar todos esses detalhes fundamentais, isso quer dizer que ainda falta muito pra você. Mas muito mesmo. E nesse sentido, como o ser humano é preguiçoso por natureza, vale dizer que, em muitos casos, o diploma é o verdadeiro epitáfio do pensamento.

A vida pode ser uma obra de arte. Mas só o será se abandonar os delírios de objetividade plena e os reducionismos de um mundo que se resumisse à mera opinião subjetiva. As duas posturas são extremamente imaturas e ultrapassadas. Ignoram tudo o que de bom aconteceu na história do pensamento de ponta nos últimos 200 anos, pelo menos…

*Marcelo Henrique Marques de Souza é do Rio de Janeiro. Ele mesmo declara: “Sou escritor e professor de um monte de coisa ligado às ciências que chamam de “humanas”, como se houvesse alguma ciência de cachorro. Ensino (e aprendo) filosofia, redação, literatura, ética e cidadania e preparação de monografia, no ensino fundamental 2, ensino médio, graduação de pedagogia e pós-graduação em ‘educação e comunicação’ e ‘psicopedagogia’. Meus textos são ensaios e artigos críticos da lógica ocidental, que se baseia na tríade patética que mistura a sacanagem do mercado (a propaganda incluída), a hipocrisia do cristianismo e a falácia dos racionalismos. É contra isso que busco a impostura da crítica”.






Por Marcelo Henrique Marques de Souza, em 20/01/2012.

11 respostas to “Filosofia, arte e ensaio – além de mais um pouco sobre a inocência pós-moderna”

  1. Edmar Franco

    O falido conceito kantiano de verdade subjetiva flerta com a desonestidade intelectual uma vez que alude criar um novo processo de entendimento diverso do do dogmatismo racionalista(René Descartes 1596-1650) ou do ceticismo empirista (David Humme 1711-1776); para ater-se, exatamente, à escola do senso comum ,pragmatizada por Karl Popper(1930-1994).
    O episódio do iluminismo consiste no afastamento do conceito de verdade objetiva (Deus, Revelação,Evangelho) a fim de centrar no homem (razão),por exemplo, a percepção de arte(dividindo-a em:transmissão (artista) e recepção (público), conforme nos apresenta o autor do texto.
    A confusa justificação apresentada tenta desviar-se da metafísica, sucumbindo ao reducionismo de ocasião característico às pessoas comuns buscandopor DEDUÇÃO (outra incoerência) um tertium genus entre verdade objetiva e verdade subjetiva (releiam ressalva do segundo parágrafo).
    O livro de Affonso Romano considera este afastamento da verdade objetiva como um sofisma(palavrastodaspalavras.wordpress.com).
    E ainda como referência traz à colação um texto de Adorno(Theodor W. Adorno 1903-1969) que busca sustentar a flutuabilidade do ensaio em razão do fracasso do iluminismo após a era leibniziana (antes a razão era sustentada no também sobrenadante mecanicismo newtoniano).
    Por derradeiro ,busca atrair a contemporaneidade para uma pretensa tríade filosófica-artística-ensaísta,como se não existisse verdade objetiva.
    Um título em torno do niilismo mostrar-se-ia mais adequado à temática confundida no texto conforme se depreende:”…Mas só o será se abandonar os delírios de objetividade plena e os reducionismos de um mundo que se resumisse à mera opinião subjetiva. As duas posturas são extremamente imaturas e ultrapassadas…”
    Ora isso é metafísica!
    Edmar Franco é Cristão e coerente com o que crê.
    edmarfranco@hotmail.com

    #2335
  2. Seu texto ficou muito confuso, Edmar.

    Sua crítica ao texto do Adorno não faz o menor sentido. Explique melhor o que quer dizer.

    Quanto ao seu comentário acerca do livro do Affonso Romano, apenas confirma o que eu disse.

    Discordo de que o niilismo fosse melhor base para discutir a questão, justamente porque não é de abstração absoluta do valor que estou falando, mas sim de um entrecruzamento inevitável entre o objetivo e o subjetivo, a partir de uma espécie de “entre-lugar” que comporte os dois.

    Por fim, estou pensando a questão não tanto pelas cartilhas classificatórias, mas sim pela forma e aparência que apresenta no quadro contemporâneo. Parte da chamada “metafísica” desembocou numa ditadura da hermenêutica que me parece tão ou até mais prejudicial que os objetivismos newtonianos.

    Em se tratando de ser humano, e considerando as descobertas da física da relatividade e da mecânica quântica, tendo, inclusive, a perceber a expressão “meta-física” como algo da ordem da redundância. Chamemos então de outra coisa, porque um debate sério deve se desvincular de redundâncias…

    Por último, você fala em conceito falido no Kant e, ao mesmo tempo, se diz “cristão”. O que seria mais falido, um ou o outro?

    Marcelo

    #2351
  3. Edmar Franco

    huas huas… meu texto … confuso.. tá bom.
    Irei simplifica-lo.
    Agora estou meio ocupado em aplicar a teoria de (e não: do) Shannon às portas lógicas sintáticas.
    Se ficar bom, eu “mato” um confuso curso de raciocínio lógico.
    Em Cristo, um forte abraço ao professor!

    #2359
  4. Outro abraço, mas sem cristo.

    #2367
  5. Edmar Franco

    Vamos lá ,por partes…

    #2486
  6. Edmar Franco

    Se focássemos em filosofia do direito, eu poderia mencionar os efeitos neo-platônicos e kantianos na obra de Miguel Reale (1910-2006) com sua famosa Teoria tridimensional do Direito (copiada de Gustav Hadbruch (1878- 1949) onde ambos (estes e aqueles) afastavam-se da realidade objetiva, em que a lei é dada pela divindade aos homens.
    È Revelada, é incutida, é induzida.
    Kant é o “humpt-dumpt” da filosofia que concorda tanto com uma como com outra,buscando entender que com o afastamento promovido pelo iluminismo o homem -tendo recebido o motor pela divindade- agora passa buscar sua adaptação através de seu próprio entendimento (razão).
    È esquizofrênico,é desonesto para quem o lê.
    È é a teoria gustav-realiana do : fato +valor+ norma; onde o conceito de justo é resultado do censo comum popperriano e repousa na realidade.

    #2487
  7. Edmar Franco

    Seu texto pretende levar o leitor à DEDUÇÃO (do geral para o particular) que existe uma camada lógica situada entre a verdade subjetiva (razão humana) e a verdade objetiva (dada pela divindade ao homem).Aplicando entendimento diverso (e bem particular seu)da função da metafísica (religião).
    Ou seja: você reconhece que existe a realidade metafísica,mas por apregoar uma visão ateia; tenta renomear o instituto com sendo um meio -termo entre realidade objetiva e subjetiva que não é a metafísica
    “…Mas só o será se abandonar os delírios de objetividade plena e os reducionismos de um mundo que se resumisse à mera opinião subjetiva. As duas posturas são extremamente imaturas e ultrapassadas…”

    #2488
  8. Edmar Franco

    Se o meu texto é confuso, o seu, no mínimo é incoerente.
    E ainda vem falar bem de Theodor Adorno (1903 – 1969)putz!
    Ele defende a natureza demiurga do ensaio porque não era o autor das idéias que comentava.

    Caracas Adorno, não era nem filósofo !

    Se você me disser que Adorno desenvolveu as idéias de Workheimer (1895-1973)eu concordo,assim como Steve Jobs (1955-2011)otimizou o conceito de telefone ,embora não o tenha criado.

    Dizer que era genial,só se for da trapaça !
    Já leu a “Personalidade Autoritária”?
    Já leu “Eros e civilização”?

    #2490
  9. Edmar Franco

    O “terceiro olhar” proposto por Afonso Romano é justamente o que eu disse:TRANSCENDÊNCIA- o afastamento da verdade objetiva gera sofisma (…pensamentos muitos soltos… – como você disse).

    #2492
  10. Edmar Franco

    O senhor precisa refletir mais um pouco (talvez o tempo de uma faculdade que não possui)para falar de filosofia e transcendência.
    Eu mesmo, confesso que nada sei(mas, garanto-me mais que o professor)

    edmarfranco@hotmail.com é cristão,e não perde um debate com ateus.

    #2531
  11. Edmar crédulo, todos os seus comentários mostram o que você é de fato: um crente. Quando não um crente na religião e suas besteiras, um crente nas ideias como totens indestrutíveis, que não podem ser des-locados de seu lugar passivo de citação, para um outro efetivamente crítico, de reflexão. Por isso, você associa ingenuamente a palavra “metafísica” à palavra “religião”, repetindo certos autores e não refletindo, o que é o papel de quem pensa para além das credulidades (não é o seu caso, como você mesmo admite).

    E eu tenho faculdade, meu caro crédulo.. só que não uso isso para debater, porque isso significa muito pouco para quem se predispõe a pensar de forma realmente crítica. Tem um monte de diplomado boçal por aí, citador de gaveta que só sabe pensar a partir de cartilhas. Opa, me lembrei de alguém…

    #2538

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