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Extinção de abelhas afeta cadeia alimentar

Uso de agrotóxicos ameaça insetos e põe em risco o que chega à nossa mesa. As abelhas atuam em 35% das colheitas em todo o planeta e respondem por 1/3 do que comemos, ou seja, 85% das plantas dependem dos polinizadores.

A crescente matança de milhares de colônias de abelhas em várias regiões do Brasil e do mundo, atribuída à pulverização de agrotóxicos cada vez mais potentes, acendeu o alerta de especialistas sobre uma possível crise em toda a cadeia alimentar. A bióloga e professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Generosa Sousa Ribeiro estima que pelo menos 15 mil colmeias tenham sido extintas nos últimos cinco anos. A dimensão desse extermínio é catastrófica, podendo ultrapassar 1 trilhão de insetos no país. Os casos, que se multiplicam em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, têm levado agricultores a alugarem enxames ou optarem pela polinização manual, enquanto nos Estados Unidos cientistas da Universidade de Harvard tentam desenvolver uma abelha-robô.

Uma das perdas mais recentes foi a do apicultor Wanderley Fardin, em Porto Ferreira, no interior de São Paulo. No mês passado, ele teve um prejuízo de mais de 10 milhões de abelhas, o equivalente a R$ 200 mil, investidos durante um trabalho de 30 anos. As 136 colmeias ficam ao lado de um canavial, e, em entrevista a uma rede de TV local, ele disse acreditar que as mortes foram causadas depois que agrotóxicos foram despejados de um avião para matar os insetos que afetam a plantação de cana. Notificações como essa têm aparecido toda semana, diz Generosa.

Uma petição de origem canadense tem rodado o mundo reunindo assinaturas à favor do banimento de pesticidas em defesa das abelhas. O principal alvo é o imidacloprido, “um químico terrível que é usado em boa parte das frutas e dos vegetais”, diz o texto. Um dos apoiadores é o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau. O objetivo é reunir 4,5 milhões de assinaturas, e, até o fechamento desta matéria, cerca de 4,4 de pessoas milhões já haviam aderido à petição (acesse-a clicando AQUI).

Como medida preventiva, em 2012, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) proibiu, provisoriamente, a aplicação por aviões de agrotóxicos à base de imidacloprido. E, no mesmo ano, deu início ao processo de reavaliação de quatro agrotóxicos com efeitos nocivos às abelhas: imidacloprido, tiametoxam, clotianidina e fipronil. Em 2010, dados do Ibama mostravam que as empresas comercializaram 1.934 toneladas de imidacloprido, representando cerca de 60% do total referente aos quatro ingredientes.

Silenciosamente, aquele zum-zum-zum característico e tão importante a toda cadeia alimentar vai calando-se e a redução das abelhas pode afetar também a produção de comida. A atuação delas resulta em 1/3 da produção de alimentos e interfere em 35% das colheitas em todo o planeta.

Membro do Fórum Nacional de Combate aos Agrotóxicos e da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, o ativista ambientalista Cleber Folgado conta que, no Brasil, o tema é discutido em uma campanha nacional. “Uma das bandeiras de luta é o fim da pulverização aérea. Cerca de 70% não atinge o alvo, contaminando mananciais de água, terra, animais e, dentre eles, as abelhas”, afirma.

Segundo a assessoria de imprensa do Projeto Colmeia Viva, idealizado pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg), está sendo feito um levantamento de dados sobre a mortalidade de abelhas em São Paulo. Os indícios até agora (em dez casos) apontam para o uso incorreto de defensivos agrícolas. O mapeamento, em parceria com universidades, possui um canal de atendimento exclusivo para agricultores e apicultores, pelo número 0800 771 8000. “A pesquisa dará origem a um plano de ação nacional voltado às boas práticas de aplicação dos defensivos agrícolas para uma relação mais produtiva entre apicultura e agricultura”, diz a nota.

Análise. Hoje, da forma como é feita a produção agrícola no Brasil, existe uma dependência do uso de agrotóxico para produção em larga escala. A lógica de mercado do agronegócio praticamente não permite aos produtores outra forma de cultivo.

O doutorando em saúde coletiva pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Pedro Abreu é categórico ao afirmar que não existe forma segura de utilizar os agrotóxicos. Segundo ele, pesquisas já mostraram que resíduos de químicos foram encontrados no leite materno e que doenças como câncer são mais comuns no meio rural onde esses produtos são usados. Além das abelhas, os agrotóxicos têm levado a malformações em sapos e infertilidade em outros animais aquáticos.

Para o especialista, o maior desafio é abandonar o modelo de produção imposto pelo agronegócio e fomentar outras formas de consumo, como o de pequenos produtores. Um dos maiores exemplos desse modelo é Cuba: “Hoje, mais de 50% dos pequenos produtores (de lá) são totalmente agroecológicos”.

Concentração

Produção. A Anvisa realiza o monitoramento dos níveis de resíduos de diversos defensivos agrícolas. No relatório de 2009, os que apresentaram as maiores irregularidades foram: pimentão, morango, uva, cenoura, alface, tomate, mamão e laranja.

Fonte: O TEMPO

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