Estevão e Sakineh
Dificilmente eu me lembraria de Estêvão, primeiro mártir da fé cristã, por causa de seu dia: vinte e seis de dezembro – data ofuscada pelos brilhos das festas natalinas. Pois sua lembrança me veio junto com a recordação de um dos sonetos brancos de Murilo Mendes: “A lapidação de Santo Estêvão”. Nesse texto o poeta convida sua companheira a olhar para a cena do apedrejamento de Estêvão: “Contempla, amada, a lapidação do homem”. Acontece que esse verso me chegou à memória de uma forma distorcida, como se Sakineh Ashtiani – condenada à morte por apedrejamento no Irã – ouvisse de um amante: “Contempla, mulher, os homens que te apedrejam”. Mas agora, sem nenhuma distorção, um outro verso se apresenta como fragmento de um monólogo dos apedrejadores: “Quantas pedras movemos diariamente!”. Ontem movemos contra Estêvão, jovem apóstolo radical cristão, as pedras da intolerância religiosa; hoje jogaremos contra Sakineh, mulher muçulmana acusada de adultério, as pedras do puritanismo machista? Estêvão foi linchado logo após sumário julgamento; a lei iraniana prevê um sádico ritual para Sakineh: os algozes devem “enrolar firmemente a mulher, da cabeça aos pés, com lençóis brancos, enterrá-la na areia até os ombros e golpeá-la à morte com pedras grandes.” (http://www.liberdadeparasakineh.com.br). A imagem desses alvos lençóis me traz outro verso do soneto branco de Murilo: “Nós tecemos o véu da iniqüidade.”. Esse véu não vai vedar os olhos de Sakineh, de modo que a pergunta feita no soneto poderia lhe ser dirigida: “Sabes dizer de onde vêm as pedras?” – “De mãos masculinas”, seria decerto a resposta. Ah – uma questão se faz insistente: não vieram de mãos masculinas os carinhos que te conduziram ao adultério? Onde estão os comparsas do crime pelo qual és condenada? E um verso de outro poeta, Augusto dos Anjos, daria forma à possível resposta: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”.
Eu que pensava ser o apedrejamento coisa do tempo de Estêvão ou das remotas terras de Sakineh, descubro pelo soneto de Murilo: vivemos em sua zona hostil, sempre que o corporativismo do mesmo dedicar à anulação do corpo do Outro “o fervor que só Deus mereceria.” .
Lapidando Estêvão, apedrejando Sakineh, a nós próprios apedrejamos.
*Afonso Guerra-Baião é professor, vive no município de Curvelo, no estado de Minas Gerais desde 1976 e desenvolve um projeto de tradução de poetas de língua inglesa.
Por Afonso Guerra-Baião, em 25/08/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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Amigo, José Afonso: Belíssimo e comovente texto! Você é um dos nossos melhores escritores e fica quietinho em seu canto, sem alardes, palpitanto certo, quando necessária a explosão do que não se conforma em um poeta a levantar bandeiras contra as injustiças tantas da sociedade podre em que vivemos e à qual entregamos nossos filhos, na expectativa de que viverão melhor do que nós e de que poderão acabar com todas as safadezas do mundo, pois que morreremos exautos nessa luta inglória! Somente, um autêntico poeta, como você, é capaz de cerzir versos de outros poetas e tecer o manso e indignado protesto que, felizmente, acabo de ler: pelo magnífico “Estevão e Sakineh”, meus parabéns! Você é ótimo: tanto no verso quanto na prosa! Meu abraço fraterno: GABRIEL BICALHO./////////////
Afonso, na viagem a Inglaterra vi com explicável assombro na praia de Brighton, as mulheres com burcas negras de alto a baixo, apenas com uma nesga de claridade na altura dos olhos, suficiente para ver o caminho, de modo bem estreito. Os homens, seus companheiros, de chinelas e bernudas ao clarão do sol do meio-dia ou das 3 da tarde, tanto faz. O drama de Sakineh se repete. As pedras se arremetem como pagas: da abstinência forçada ou do amor assumido ou surpreendido, o que dói mais? Nessa escrita perversa o amor, de todo modo, é condenação. Condenação a não fazer ou condenação por fazer. Obrigado pelo belíssimo texto. Um abraço, Geraldo Leite
Caro Afonso: em primeiro lugar, parabéns pelo texto, por essa visão maravilhosa do que é justiça, amor, caridade, respeito à vida humana. Em pleno século 21, este horror, o obscurantismo do apedrejamento público de uma mulher… Quando o coração do homem evoluirá? Receba meu abraço e minha admiração. Marisa Bueloni
Murilo Mendes te deu o leimotiv para a criação deste seu texto oportuno e sensível, Afonso – como você é bom naquilo que faz!!! Parabéns mais uma vez.
E seu texto lembrou-me cena do filme Zorba, o Grego.Desejo então aqui contar a história da viúva, representada pela Irene Papas, logo depois de ter namorado o escritor inglês. Linda. Altiva. Sempre de preto, sempre distante dos que a cercam. Sabe exatamente o que deseja e sabe também que seu desejo será visto como crime. Ela não deve pertencer a um estrangeiro. Conhece que em Creta há regras e conhece todas as regras de Creta. Com o decorrer do filme, dá mostras de que ainda assim se comportará de maneira mais complacente diante do inglês, caso ele queira se aproximar. Pois ele se aproxima; e juntos têm uma comovente noite de amor. Mas os homens do povoado não aceitam a quebra das regras do jogo. A jovem viúva deveria oferecer-se a um deles, ou, quem sabe, a todos eles, nunca a homem de fora. Programam sua morte, sobretudo porque um dos jovens do vilarejo, enamorado dela e sabendo-a de Basil, joga-se ao mar e morre. A morte do moço representa o fracasso de todos os homens que não conseguem o que desejam. A morte da viúva, por sua vez, vai representar a ideia de que a derrota e a frustração deles devem ser para sempre abolidos do lugarejo. Durante a missa de encomendação do corpo do suicida, Basil vai percebendo que, aos poucos, uns e outros homens vão saindo furtivamente da igreja. Perspicaz como é, conhecedor já dos vezos e caprichos da sociedade machista em que vive, sai também ele da igreja para certificar-se de que alguma coisa de muito ruim está por acontecer. E, de fato, vê encurralada a viúva, sendo alvo de grosserias dos homens que se colocaram em roda à sua volta, deixando-a lá dentro como prisioneira humilhada. Minha visão desse momento é que a única personagem feminina que livremente escolhe fazer o que deseja não pode ter outro final senão seu aprisionamento e sua morte. Assim, escoa-se como água de cachoeira meu pensamento de menina: não existe liberdade total em nossa vida. A viúva vai sendo perseguida e cercada no pátio da igreja. As mulheres sabem o que sucede lá fora, mas acham que as regras servem mesmo para ser seguidas e não se mexem de dentro da igreja para ir ajudar a que está sofrendo. Pelo contrário, acham justo tudo isto. O padre não dá mostras de se afetar pelo burburinho. Basil é homem de livro, mas toda a filosofia que conhece mostra-se incapaz de fazê-lo interromper o que está por vir: é coisa mais brutal que a ficção a que está acostumado. Sua esperança está em Zorba, que deve melhor conhecer sua gente. Então, manda um rapaz atrás dele. Zorba chega-se de cabeça erguida, entra na roda sem ser molestado, cobre a moça que está meio desnuda, já que lhe rasgaram as roupas, e vem com ela para fora do círculo dos homens. Confiante em si mesmo, porque a qualidade de ser pessoa de comportamento elegante ele a tem: é um homem cândido, sem dúvidas, alguém que não se esconde, que não é desleal e, por isso, não consegue acreditar na deslealdade do próximo. Zorba olha um a um bem nos olhos e atira longe a faca que trouxe para defender-se e à moça. Caminha sem titubeações e pede à viúva que o siga. Ela, que tinha até então um olhar apavorado e quase animalesco, tamanho o medo que sentia, e o desamparo, vai tentando corrigir a postura das costas, vai tentando endireitar-se e levantar a cabeça, vai tentando seguir o amigo do seu amante. Nas costas de Zorba, aparece com um facão o pai do rapaz que havia se matado no mar; e, diante de todos, corta o pescoço da jovem, que estremece e morre. Zorba, incrédulo, olha para trás, quando percebe o enorme barulho do silêncio. E eu me pergunto: será mesmo o Basil o estrangeiro de Creta? É ele quem desconhece as regras do jogo? Ou será Zorba, mesmo tendo nascido na Grécia e convivido toda a vida com o povo preconceituoso? Pois não foi ele a duvidar do próximo passo de seus conterrâneos? Por outro lado, vejo também como é arredia a uma série de regras daquela sociedade a viúva que teimou em ter desejo e opiniões próprias. Era tão estranha a mulheres subjugadas e a homens dominadores, que precisou ser apagada da mente de todos para que tradições e costumes pudessem seguir seu curso conhecido.
Continue nos enriquecendo com seus textos, Afonso. É uma bênção a gente poder ler escritos instigantes. Felicidades. Rina Bogliolo Sirihal.
Prezado Afonso! Que prazer estar entre os seus destinatários. Continua cada vez mais o nosso “clássico” dos tempos da Faculdade. Parabéns! Com louvor, este texto é sensível e ao mesmo tempo forte, é tradicional e ao mesmo tempo inovador. Remete-nos a uma viagem de imagens, como num filme. E ainda nos ensina cultura, poesia, prosa, arte, literatura, Brasil, do Irã… Quem bom este banho de boa leitura. Obrigada!
Querido Amigo, companheiro de lutas, debates, discussões … amigo que a gente guarda com carinho no coração, aqueles que são para nós, inesquecíveis.
O que dizer do seu texto- confesso, fiquei engasgada. Sua sensibilidade me lembrou Jesus de Nazaré ao acolher a mulher adúltera que estava para ser apedrejada. Sensibilizada fiquei por ser mulher e tantas vezes lutar com elas ( meninas na escola, mães que convivo no dia-a-dia )e que de alguma forma também são apedrejadas pela hipocrisia da sociedade, de grupos privilegiados, do poder do “dinheiro”, lembrei-me da Maria da Penha, Elisa, Mércia e tantas outras vítimas ocultas do machismo podre que ainda impera em pleno século XXI.
O seu texto, querido amigo, é como acalanto aos meus olhos.
Parabéns! abraço amigo! obrigada por me fazer um poquinho mais culta!