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Espelhos do tempo

O tempo sempre foi, é e continuará sendo, enquanto eu viver, o foco central das minhas reflexões e o tema predileto do que escrevo. Não quanto à sua passagem, óbvio, pois sobre esta não tenho como interferir, mas quanto à sua natureza e como agir para aproveitá-lo da melhor maneira.

Já escrevi centenas de textos a respeito (e pretendo escrever muitos, ainda), mas sempre encontro ângulos novos a abordar. Como este, sugerido por Antônio Vieira, no magnífico “Sermão da Quarta-Feira de Cinzas”, proferido há mais de trezentos anos e que é mais atual do que nunca.

O eminente sacerdote e um dos maiores estilistas de língua portuguesa, afirmou: “Ponde estes dois espelhos um defronte do outro, e assim como os raios do ocaso ferem o oriente e os do oriente o ocaso, assim, por reverberação natural e recíproca, achareis que no espelho do passado se vê o que há de ser, e no do futuro o que foi. Se quereis ver o futuro, lede as histórias e olhai para o passado; se quereis ver o passado, lede as profecias e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente, para onde há de olhar?”. Bela pergunta!

Somos, na verdade, uma espécie de arqueólogos, sempre a escavarmos, continuamente, as ruínas do nosso próprio passado, sepultado sob toneladas de poeira do tempo. Alguns buscam lembranças benignas e deliciosas, que os consolem das agruras do presente. Outros, insensatos e tolos, revivem fracassos e frustrações, que teimam em remoer anos a fio, quando a atitude prudente seria deixá-los intocados, enterrados para sempre. Outros, ainda, fantasiam e se convencem que foram reais episódios que só existem e existiram em suas férteis (ou delirantes?) imaginações.

O passado (como principalmente o presente e, ademais, o próprio tempo) é ambíguo. Mesmo não podendo ser revivido da forma exata que aconteceu, teima em retornar ao presente, de uma forma ou de outra. Quando traz de volta lembranças positivas, não deixa de ser bem-vindo. Quando, ao contrário, nos faz reviver angústias, dores e frustrações, é um veneno que tem que ser evitado, pois não tem antídotos.

E qual é o segmento do tempo que mais nos afeta? Em qual deles tomamos consciência maior, onipresente e aguda, da sua existência e passagem? O presente? Não pode ser. É tão rápido, que pode ser considerado, apenas, mero conceito, simples abstração. O futuro? É desconhecido, pois é impossível conhecer o que ainda não aconteceu. Tudo o que pensarmos sobre ele, portanto, poderá não passar de mera fantasia.

O segmento do tempo que mais nos afeta, e que está permanentemente em nossa memória, é o passado. É certo que, aquilo que passou não pode mais ser modificado. Mas é com os erros que cometemos, e com os acertos que tivemos nele que construímos o roteiro das nossas vidas.

Às vezes, produzimos comédias. Outras tantas (creio que na maioria) tragédias. Os roteiros que determinam nossa história variam. E a variação é tamanha que, quando menos esperamos, conseguimos, até mesmo, compor um “happy end”. O poeta suíço Henri Frédéric Amiel constatou, com perspicácia, certa feita: “O tempo nada mais é do que a distância entre as nossas lembranças”. Vocês conhecem definição melhor?!

O presente, reitero, é sumamente ambíguo. Sua duração é tão ínfima, que chega a se constituir em mera metáfora, em simples símbolo, em verdadeira abstração. Para se ter ideia da sua fugacidade, basta dizer que é mais veloz, até, do que a luz, cuja velocidade é de trezentos mil quilômetros por segundo.

Mal pronunciamos a primeira sílaba da palavra que o caracteriza, “pre”, e ele já é, há alguns centésimos de segundo, passado. Trata-se, por isso, de fração do tempo absolutamente indimensionável. Ninguém nunca a mediu e jamais conseguirá medir.

Antônio Vieira, no já citado “Sermão da Quarta-Feira de Cinzas”, deixa clara sua ambigüidade, embora quase nunca venhamos a nos dar conta dela: “Olhai para o passado e para o futuro e vereis o presente. A razão ou conseqüência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro”. Ambíguo, não é verdade? Ambíguo e fascinante.

*Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor, autor dos livros “Por uma nova utopia”, “Cronos e Narciso” e “O país da luz”.

E-mail: pedrojbk@bestway.com.br

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