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Eric Hoffer, “filósofo-estivador”

“Meus textos são feitos nos pátios das ferrovias, enquanto espero um comboio, nos campos, enquanto espero por um caminhão, e à noite, depois da janta. Cidades são muito distrativas.” Eric Hoffer, filósofo

As chances de ascensão econômica e social através do trabalho são mais acentuas em economias em crescimento. Nestas sociedades é comum que indivíduos ultrapassem as condições em que nasceram e através do esforço individual se transformem em grandes empresários, políticos e intelectuais. Esta era a situação da sociedade norte-americana entre o final do século XIX e grande parte do século XX. As estruturas sociais ainda não estavam estabelecidas, e o fato de não haver uma elite econômica e intelectual preponderante, permitia uma mobilidade social como poucas sociedades tiveram ao longo da história.

Foi neste período da história dos Estados Unidos que nasceu Eric Hoffer, na cidade de Nova York, bairro do Bronx, em 1902. Filho de um casal de emigrantes alemães da Alsácia, Elsa e Knut Hoffer, Eric aprendeu a falar e ler inglês e alemão ainda pequeno. Aos cinco anos, caiu do colo da mãe em uma escada e ficou com a cicatriz da lesão na cabeça para o resto da vida. Aos sete anos, falece sua mãe, o que fez com que o menino entrasse em choque, perdendo a memória e a visão, para somente recuperá-la aos quinze anos.Durante esse período tinha pouco contato com o pai, que exercia a profissão de carpinteiro. Foi cuidado por uma amiga dos pais, Martha Bauer, também alemã, de quem Eric guardou boas recordações. Ainda cego, quando ficava entediado, Eric passava o tempo arrumando na estande os poucos livros do pai.

Assim que recuperou a visão, Hoffer passou a ler com voracidade, com medo de voltar a perder a visão. Nunca chegou a frequentar uma escola ou a aprender uma profissão, vivendo apenas de biscates e lendo tudo que era possível comprar nos sebos ou emprestar nas bibliotecas públicas de seu bairro. Quando tinha 19 anos, morre seu pai. O sindicato dos carpinteiros pagou pelo enterro e deu-lhe a título de seguro um cheque de 300 dólares, com o qual comprou uma passagem de ônibus para Los Angeles. Lá se estabeleceu no bairro central de Skid Row, frequentado por vagabundos, marginais e trabalhadores pobres. Viveu em Los Angeles por dez anos, mantendo-se através de empregos baratos, sem abandonar seu entusiasmo pela leitura.

Em 1931 Hoffer pensou em suicídio, mas mudou de ideia e começou um longo período de viagens através de várias regiões, trabalhando principalmente nas colheitas da Califórnia. Algumas vezes também tentou a vida como garimpeiro de ouro. Durante estes anos fixava-se em pequenas cidades, morando em locais perto das bibliotecas municipais, para poder emprestar livros. Em um inverno no início dos anos 1940, Eric adquiriu em um sebo de São Francisco um exemplar dos Ensaios do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592). A obra o impressionou de tal maneira, que permaneceu uma influência por toda a sua vida.

Nesse período Eric começa a escrever algumas novelas e tenta alistar-se como soldado, para lutar na Segunda Guerra. Impedido por uma hérnia, Hoffer começou a trabalhar como estivador nas docas do porto de São Francisco. Permaneceu nesse trabalho por longos anos, vindo a aposentar-se em 1964. Durante o período que trabalhou nas docas, Hoffer começou a escrever as obras que o tornariam famoso. Passou a interessar-se pelos problemas dos imigrantes, dos trabalhadores migrantes, dos deficientes e de todos aqueles que não tinham achado “um lugar ao sol” na sociedade americana.

Seu livro mais famoso, lançado em 1951 chama-se The True Believer: Thoughts on the Nature of Mass Movements (Do Fanatismo: O Verdadeiro Crente e a Natureza dos Movimentos de Massa, edição portuguesa esgotada – sem edição no Brasil). Neste livro Hoffer discute a origem dos governos totalitários de sua época. A publicação é considerada uma das 100 mais influentes obras do século XX. Depois deste livros Hoffer escreve uma série de ensaios acadêmicos discutindo a intervenção americana na Ásia durante a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a Guerra do Vietnã. Em sua opinião, o governo americano deveria diminuir sua ingerência nos países de todo o mundo. Ao longo de sua carreira, depois de The True Believer, Hoffer publicou as seguintes obras (todas inéditas no Brasil):

1955 The Passionate State of Mind, and Other Aphorisms

1963 The Ordeal of Change

1967 The Temper of Our Time

1968 Nature and The City

1969 Working and Thinking on the Waterfront: A Journal, June 1958 to May 1959

1971 First Things, Last Things

1973 Reflections on the Human Condition

1976 In Our Time

1979 Before the Sabbath

1982 Between the Devil and the Dragon: The Best Essays and Aphorisms of Eric Hoffer

1983 Truth Imagined

Hoffer passou longos anos entre a carreira acadêmica, como pesquisador tratando de temas políticos e sociais da sociedade americana, e como estivador. Hoffer efetivamente passava certos dias da semana na Universidade da Califórnia e outros trabalhando nos escritórios das docas do porto de São Francisco. Em 1971 o filósofo recebeu o título Doutor Honoris Causa da Faculdade Stonehill e em 1983 a Medalha Presidencial da Liberdade, do presidente Ronald Reagan.

Sempre voltado às suas origens na classe trabalhadora, Hoffer, quando chamado de intelectual, dizia ser apenas um estivador. Por isso, muitos autores o designavam como “o filósofo-estivador”. Tendo exercido grande influência no meio acadêmico e nos nascentes movimentos sociais, Hoffer faleceu em sua casa, em São Francisco, em 1983 aos 84 anos.

Abaixo apresentamos algumas citações do filósofo, extraídas de diversas publicações:

“Pessoas que ferem a mão que os alimenta, usualmente lambem as botas de quem os chuta.” (Reflections on the Human Condition)

“Quando as pessoas estão livres para fazer o que gostam, geralmente imitam as outras.” (Reflections on the Human Condition)

“A melhor educação não imunizará uma pessoa contra a corrupção do poder. A melhor educação não fará, automaticamente, as pessoas mais compassivas. Nós sabemos disso mais claramente do que qualquer geração precedente. Em nosso tempo, existe a sociedade melhor educada, situada no coração da mais civilizada parte do mundo, dando nascimento ao mais assassino e vingativo governo da história.” (Before the Sabbath)

“A natureza não tem compaixão…[Ela] não aceita desculpas e a única punição que conhece é a morte.” (Reflections on the Human Condition)

“Marx nunca trabalhou um dia de sua vida e sabia tanto sobre o proletariado quanto eu sei sobre coristas.” (Before the Sabbath)

“Uma cabeça vazia não é realmente vazia; está entulhada de lixo. Por isso a dificuldade em empurrar algo para dentro de uma cabeça vazia.” (Reflections on the Human Condition)

“O século dezenove semeou as palavras que o século vinte colheu nas atrocidades de Stalin e Hitler. Dificilmente há uma atrocidade cometida no século vinte, que não tenha sido prenunciada ou mesmo defendida nas palavras de alguns homens nobres do século dezenove.” (Reflections on the Human Condition)

“A proporção entre o pessoal de supervisão e o de produção é sempre alta onde intelectuais estão no poder. Em países comunistas, é necessária uma parte da população para supervisionar a outra.” (The Temper of our time)

“Orgulho é um senso de valor derivado de algo que não é organicamente parte de nós, enquanto que a autoestima deriva de nossas potencialidades e de nossos ganhos. Somos orgulhosos quando nos identificamos com um eu imaginário, um líder, uma causa sagrada, um corpo coletivo ou bens materiais. Há um medo e uma intolerância no orgulho; é sensível e intransigente. Quanto menos promessa e potencia na pessoa, mais imperativa é a necessidade de orgulho. O âmago do orgulho é a autorejeição. É verdade que quando o orgulho libera energias e atua como um incentivo para a realização, pode levar a uma reconciliação entre o eu e a conquista de uma autoestima genuína.” (The Passionate State of Mind)

“Para algumas pessoas a solidão não é uma fuga dos outros mas delas mesmas. Isto porque, veem nos olhos dos outros apenas um reflexo delas mesmas.” (The Passionate State of Mind)

“Mentimos mais alto quando mentimos para nós mesmos.” (The Passionate State of Mind)

“Como é mais fácil o autosacrifício do que a autorealização.” (Reflections on The Human Condition)

“Agressividade é a imitação da força, feita pelo homem fraco.” (The Passionate State of Mind)

“Não conformistas andam geralmente em bandos. Você raramente vai achar um não conformista andando sozinho. E ai daquele que dentro de um bando de não conformistas, não se conformar à não conformidade.” (Reflections on the Human Condition)

“Homens livres sabem da imperfeição inerente aos assuntos humanos, e estão preparados para lutar e morrer pelo que não é perfeito. Eles sabem que problemas humanos básicos podem não ter uma solução final, que nossa liberdade, justiça, equidade, etc, estão longe do absoluto e que a boa vida é composta por meias medidas, compromissos, males menores e tentativas em direção ao perfeito. A rejeição de aproximações e a insistência em absolutos, são a manifestação de um niilismo que rejeita a liberdade a tolerância e a equidade.” (The Temper of Our Time)

Fonte das citações:

http://erichoffer.blogspot.com.br/ e https://www.brainyquote.com/quotes/authors/e/eric_hoffer.html
Para aqueles interessados nos escritos de Eric Hoffer é possível fazer o download da obra The True Believer (texto em inglês) através do link abaixo:

http://evelynbrooks.com/wp-content/uploads/2011/10/The_True_Believer_-_Eric_Hoffer.pdf

*Ricardo Ernesto Rose é consultor em inteligência de mercado, desenvolve atividades de marketing, transferência tecnológica e consultoria comercial na área da sustentabilidade. Jornalista, autor, com especialização em gestão ambiental e sociologia. Graduado e pós-graduado em filosofia. Coordenou o lançamento de diversas publicações sobre os setores de meio ambiente e energia e escreve regularmente para sites, jornais e revistas. É editor do blog “Da natureza e da cultura” (www.danaturezaedacultura.blogspot.com.br) e autor dos livros “Como está a questão ambiental – 100 artigos sobre a relação do meio ambiente com a economia e o clima”, “Os recursos e a cidade” e “A religião e o riso e outros textos de filosofia e sociologia”. Contatos através do site www.ricardorose.com.br

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