Entender o Brasil e o mundo
Nos últimos 50 anos, o mundo assistiu a mudanças importantes. Desde as pequenas coisas do cotidiano, aos avanços da medicina e ao retrocesso da ética e da moral, como valores preciosos e de influência na sociedade. Na década de 50 do século passado, todos procuravam pelo “mecânico de confiança”, pois os automóveis eram frágeis e, volta e meia, tinham de parar nas oficinas. Atualmente, a indústria automobilística é de qualidade e responsabilidade, sendo frequentes os reconhecimentos de falhas técnicas, corrigidas por chamamentos públicos, a maioria em âmbito mundial. As operações invasivas estão cada vez mais raras e problemas que prendiam o paciente por semanas em hospitais, hoje, são quase que ambulatoriais.
O mundo político, no entanto, vem sofrendo uma perda de qualidade ética e moral que, em breve, será o maior problema da humanidade. Precisamos de uma gestão sem interferências da corrupção, do autoritarismo e até da violência. Vejamos o quanto caiu a postura dos homens públicos, não mais como produto do terceiro mundo e vivendo em regimes ditatoriais africanos ou latino-americanos. O drama chegou ao Primeiro Mundo.
A Europa, na grande Guerra, contou com líderes de grande envergadura em ambos os lados. Nenhum foi acusado de corrupção ou nepotismo. Alguns exageraram na violência, no barbarismo, mas a autoridade não era exercida para fins de enriquecimento pessoal ou familiar. Os que deixaram descendência não legaram herança material considerável.
Nos últimos 30 anos, muita coisa de lamentável ocorreu. Países como França, Espanha e Itália estão mergulhados em crises morais. No governo Mitterrand, na França, quase dez ministros se refugiaram no suicídio em busca do resgate da honra. O primeiro governo socialista na Espanha correspondeu a uma grande safra de novos ricos no país, quase todos ligados ao esquema de governo. Hoje, na Península Ibérica, a corrupção é apartidária, quase que uma unanimidade nas municipalidades. Apenas, com muita gente já na cadeia.
No Brasil, cresce o movimento pela dignidade, mas resvalando para o erro de afrontar a tradição jurídica e fazer retroagir para punir, o que nunca ocorrera antes. Daí, muita manipulação política, muitos interesses inconfessáveis. A Justiça Eleitoral, que de maneira singular no Brasil sempre teve e respeitou prazos, agora julga mandatos de eleitos e diplomados, por erros anteriores a posse, em outro caso grave de fugir à tradição. Interromper mandatos no Executivo em função de crimes eleitorais é um retrocesso. A Justiça tem prioridade para julgar todos os casos surgidos de impugnação antes da diplomação e posse dos eleitos. A insegurança está instalada e a gestão pública perde credibilidade pela ameaça de descontinuidade intempestiva.
Valores da cordialidade, do respeito a contratos, da ordem, hábitos culturais e disciplina não podem ser abandonados, sob pena de voltarmos a um tipo de convívio que parecia banido da era moderna. Agora mesmo, o mundo confraternizou com o presidente da África do Sul, homem acusado de abusos sexuais, praticante da poligamia, cercado de suspeições de corrupção e dirigente de uma pseudodemocracia que constrange parte da população, a mais culta e produtiva, aliás, além de não lhes garantir segurança e saúde.
A administração pública perde credibilidade. Uma obra, seja, ela oficial ou um empreendimento privado, é aprovado, os recursos são investidos. Alguns meses depois, uma decisão do Ministério Público ou de um juizado, especialmente fora da jurisdição do empreendimento, faz tudo parar, com os prejuízos econômicos e sociais daí decorrentes.
Que empresa séria, ou banco, investirá em projetos vitais como Belo Monte e o trem-bala, se em meio a obra surgir um obstáculo da dimensão da “perereca” que fez parar e onerar o Arco Rodoviário do Rio de Janeiro? E ninguém fala nada. Autoridades indagadas se limitam a sorrir com a barbaridade.
Temos de exultar com as mudanças positivas do mundo, da tecnologia, dos avanços culturais, como a igualdade entre homens e mulheres, pobres e ricos. Mas temos de reagir contra o retrocesso disfarçado de defesa da ética e da moral, do meio ambiente e da salvação da terra desta autodestruição que vem provocando inequívocas respostas da natureza.
*Aristóteles Drummond, jornalista, é vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro.
Por Aristóteles Drummond, em 30/07/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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