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E agora, os tucanos deixam Temer?

A dúvida é se o peemedebista conseguirá ter governabilidade necessária para tocar as reformas no caso de o PSDB abandonar o barco do governo.

Presidente Michel Temer saiu-se bem no julgamento do TSE, mas e agora?

O resultado do julgamento da chapa vencedora em 2014 no Tribunal Su­perior Eleitoral (TSE) deu o que se esperava. Pre­fe­rên­cias, simpatias por tal ou qual desfecho, não mudam a questão: o time de Michel Temer estava altamente articulado na corte, com Gil­mar Mendes jogando em todas: na defesa, no meio-de-campo e no ataque.

Viremos página.

Grande parte das atenções agora se voltam aos tucanos. Eles vão sair ou continuam no governo de Michel Temer?

Muitos analistas dizem que sem o PSDB, o governo do peemedebista acaba, perde todas as condições de sustentabilidade. A tese é atraente, visto que o partido é grande, forte, e se tem assim como uma espécie de grife política. A grandeza e a força, sim, até se sustentam, mas quanto a ser uma grife política, é preciso que se diga que já foi mais, hoje bem menos.

A decisão do PSDB sobre se desembarca ou não do governo foi marcada para esta segunda-feira, 12, em reunião da executiva do partido, comandada pelo seu presidente nacional interino, senador Tasso Jereissatti (CE). O encontro da executiva será ampliado, com a participação de todos os governadores, deputados, senadores, ministros e presidentes de diretórios estaduais.

Os tucanos estão divididos. Uma ala majoritariamente formada por parlamentares quer a saída; outra que continuar. O governador de Goiás, Marconi Perillo, por exemplo, defende sua posição de forma franca. Em palestra na quinta-feira, 8, num encontro de deputados estaduais de todo o País na cidade de Foz do Iguaçu (PR), ele defendeu que seu partido mantenha sua aliança com o governo do presidente Michel Temer.

O governador goiano disse defender que o partido mantenha a aliança com o governo federal e, assim, de forma direta, estará apoiando as reformas e a agenda positiva: “Que fez com que o Brasil, em um ano, começasse a diminuir a inflação de mais de 10% para menos de 4%. Fez com que os juros caíssem de quase 15% para 10% e, pela primeira vez, desse sinal de que começa a sair da crise, com um PIB positivo”.

Reportagem do Globo na quarta-feira, 7, descreve o drama do PSDB.

Segundo dirigentes tucanos, a pressão da bancada de deputados pelo desembarque segue muito intensa e deve forçar a Executiva a ter uma posição clara. Alguns parlamentares estariam inclusive ameaçando deixar a legenda se o partido não decidir prontamente. Mas o clima tenso não está apenas na Câmara. Alguns senadores passaram também a demonstrar crescente descontentamento com a situação:

A nossa questão é política. Temos um projeto e começamos a ver que o governo está sem rumo. As reformas estão andando mais por nossa força que pela do governo. A bancada dos senadores ainda não tem uma posição, mas o foco da bancada da Câmara no desembarque é muito forte e não podemos tomar uma decisão e ignorar isso — pontua o líder do partido do Senado, Paulo Bauer (SC).

Tasso Jereissati irá passar o fim de semana conversando com seus correligionários, inclusive governadores e prefeitos de capital. Nesta quarta-feira, ele revezou-¬se entre encontros com aliados e encontrou brecha para receber o líder do movimento Vem Pra Rua, Rogério Chequer. O maior obstáculo hoje ao desembarque do governo é a posição explícita dos ministros Aloysio Nunes Ferreira (Relações Exteriores) e Antonio Imbassahy (Governo) em defesa do presidente Michel Temer.

O sentimento é que os tucanos estão cansados de ficar em cima do muro. Então tem que ter uma decisão, seja ela qual for — explica o ex-governador de Alagoas, Teo Vilela.

É imprescindível?

Mas, afinal, o PSDB é mes­mo imprescindível para a continuidade do governo Michel Temer, agora que ele foi absolvido pelo TSE?

O cientista político doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) Humberto Dantas acha que não. Na semana passada, no calor do julgamento no TSE, em entrevista ao “Jornal da USP”, ele relativizou a importância dos tucanos.

Dantas lembrou que em termos numéricos, o PSDB não é tão grande assim no Congresso. São 46 deputados federais e 11 senadores. Se no Senado o peso é maior, na Câmara dos Deputados a bancada equivale a apenas 9%. Esse dado é importante, disse, porque em que pese a importância política do partido, não tanto em termos numéricos, o governo até conseguiria costurar esse espaço que deu ao PSDB com outros partidos ditos e considerados fisiológicos para se manter no poder.

O grande problema é que não é mais a relação Legislativo-Executivo que mantém alguém no poder no Brasil, atualmente. Há que levar em conta o peso da Justiça – e aí é preciso considerar as investigações da Lava Jato e outras anteriores, como o mensalão – e das pressões sociais, desde 2013, quando as pessoas foram em massa às ruas para reclamar melhores padrões éticos. “Não é apenas a lógica da governabilidade que ditará a ordem política neste país.”

Então, os tucanos são “substituíveis” no espaço que têm no governo, mas sair por sair não resolve o problema deles, que querem ganhar eleição. “O PSDB teria de sair do governo e viabilizar-se para 2018. E isso não tem acontecido”, lembrou o cientista social. De fato, nomes tradicionais do partido estão se queimando na percepção do eleitor, como José Serra e até Geraldo Alckmin, ou já queimados, como o senador Aécio Neves.

Nesse cenário, é mais provável que o PSDB não abandone o barco de Michel Temer. Mesmo por que ministros tucanos já disseram que se o partido romper com o governo, eles não entregarão os cargos. Típico de tucano, que tem no DNA a disposição para ficar em cima de muro.

Reformas

Mas, e as reformas, será que o governo de Michel Temer conseguirá tocá-las — com ou sem o PSDB?

O professor Umberto Dantas lembrou que os parlamentares deixaram as pautas de reformas defendidas pelo governo tendo em vista as eleições de 2018, uma vez que não haverá mais tempo para os efeitos econômicos das medidas até o próximo pleito. Nesse cenário de país paralisado, ele comparou o presente momento ao último ano do governo de José Sarney, em 1989, em que o governo ficou na mesma situação de paralisia.

Não resta dúvida de que é difícil aprofundar na aprovação das reformas, que praticamente foram congeladas no Congresso a partir das delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista e da tensão do julgamento do TSE. Dantas lembrou que, considerando apenas as votações nominais no Congresso, até a divulgação do áudio, o governo teve 79% de taxa de adesão (governismo). É uma taxa muito alta.

E até aquele momento, o governo poderia aprovar o que quisesse com certa folga, embora não sem ter de ceder aqui e ali pontualmente, o que é do jogo político. Mas as coisas mudaram. E há agora uma paralisia num momento em que antecede as primeiras movimentações com vista à eleição de 2018. A paralisia no Congresso tende a se acentuar. Isso joga contra a governabilidade de Michel Temer, que pode entrar numa fase de estagnação política, limitando-se a “empurrar com a barriga”.

Daí o questionamento final do cientista político Humberto Dantas: “Qual Congresso, olhando para as eleições, teria coragem de aprovar reformas profundas? Lembrando que no ano passado, a intenção era aprová-las da forma mais rápida possível, após as eleições municipais, para que se desse o espaço necessário para economia reagir. Já não existe mais espaço para isso, por mais que alguns ainda considerem haver tempo. E as eleições de 2018 vão se transformando num imenso ponto de interrogação”.

Fonte: Jornal OPÇÃO

Comentários

  1. Teresinha Winter disse:

    Todos eles são ilegítimos pra fazer qualquer lei, eis que não representam mais o povo, representam apenas a si mesmos. Legalmente é uma coisa, moralmente é outra. E moral é artigo em falta nos 3 poderes. Muito menos eles têm direito a modificar a Constituição com essas PECs, que a todo momento querem enfiar goela abaixo dos cidadãos. Os cidadãos, na sua GRANDE maioria, não querem essas reformas. Como então eles continuam e fazem de conta que todo mundo tá aplaudindo? É sujeira da grossa. Reformas que mexem SOMENTE com o lado do cidadão? Que reforma é essa? Só pode ser mais uma MARACUTAIA, neste país de negociatas.

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