E agora, José?
Na Modernidade, o homem aprendeu a dominar a natureza, e não a integrá-la como na Antiguidade. Esse processo de dominação, aliado às questões políticas e econômicas, levou o homem à busca da produtividade e da quantidade em lugar da qualidade. Levou-o à ganância da aquisição de bens materiais, de tecnologias de ponta e retirou-o da condição de humano, levando-o à condição de (des)-humano, na medida em que não há lugar para solidariedade na competição e no capitalismo atual.
É claro que a evolução e a revolução científicas trouxeram pontos positivos à humanidade. A descoberta de vacinas e remédios para novas e velhas enfermidades não pode ser ignorada. Contudo, não podemos ignorar também os malefícios do “Mito da Ciência” para o homem contemporâneo, que vê, muitas vezes, na ciência um pré-texto para se igualar a Deus, ao criador.
Com isso, fica, na verdade, a angústia de estar em um mundo dual. Isso porque há um mundo utópico que corresponde à “Era do Conhecimento”, dos avanços tecnológicos e científicos, e o mundo distópico, que corresponde à falta de respeito à pluralidade, à falta de cuidado com o outro, ao deboche à inteligência em prol da decadência dos títulos comprados em doze parcelas e a espaços conquistados por influência. Precisamos avançar também no campo da “psiquê”, senão continuaremos construindo e evoluindo destruição e injustiças.
Se voltarmos o olhar ao tempo do saber das Ciências Exatas, perceberemos que o “Homem-sujeito” analisa o “Mundo-objeto” a partir da visão racional, enquanto as Ciências Humanas surgem para analisar o mundo sob a ótica humanista, sob a ótica do não-visível. Nesse sentido, a palavra “representação” surge com as Ciências Exatas para designar a forma como o sujeito vê o mundo: como um objeto de estudo. Isso é ratificado na própria etimologia da palavra, uma vez que “re-” significa “coisa” e “-presentação” significa “presente”, “observável, “palpável”.
O saber das Ciências Humanas rompe com essa questão da representação do mundo e do homem e proporciona a este outro tipo de visão, a partir da “interpretação”, cuja semântica pode ser entendida também pela sua origem etimológica, principalmente, pelo prefixo “inter” que quer dizer “entre”. Dessa forma, a partir do método interpretativo, o saber das Ciências Humanas trabalha com os sentidos e não com a objetividade (com o que é visível), mas com a inter-relação entre as partes.
Por outro lado, antes das Ciências Humanas, o homem era dividido em “corpo e mente” e o mundo era previsível como uma máquina. O mundo, assim, possuía regras mecânicas que deveriam ser compreendidas. Era preciso ler as regras para entender, racionalmente, o mundo. Deveríamos, assim, “representar” as coisas por meio da razão.
Sendo assim, as expressões “interpretação” e “representação” são distintas, sendo a interpretação usada por Freud por meio da “compreensão” do inconsciente humano; por Marx, por meio do ponto de vista das estruturas (supra) e (infra) da economia e por Nietzsche, pelos questionamentos a respeito do excesso de racionalidade e de religiosidade. Já a “representação” é expressão típica das Ciências Exatas, que têm por objetivo representar as coisas por meio do método científico, ou seja, da razão.
Por fim, na atualidade, todos esses conceitos voltam a nos ocupar. Num momento em que o homem sente-se divido, mais uma vez, entre a ciência e religião, entre a razão e a fé, é preciso estar atento ao próprio homem que, por não se sentir “sujeito-agente” pode terminar aniquilado não pela natureza, mas pela sua própria geografia.
*Cintia Barreto é poeta e professora de Língua Portuguesa da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro e da universidade privada, atuando nos cursos de Pedagogia e Letras. Mestra em Literatura Brasileira pela UFRJ. Pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM-UFRJ). www.cintiabarreto.com.br
Por Cintia Barreto, em 19/03/2011 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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