Deus existe? E, se existe, quem é ele?
Este foi um dos temas abordados no programa Debates Culturais, de 28 de agosto de 2011, apresentado pelo historiador Alessandro Lyra Braga. Que bom! Quanto mais se discutir o assunto, melhor ao entendimento comum. Por quê? Porque resultamos de uma cultura religiosa que se impôs pela força. Não crer em Deus já foi um “erro” gravíssimo e podia custar a vida do incauto. Cria-se, também, por uma questão de sobrevivência. Felizmente, muita água passou por baixo dessa ponte e hoje já é possível exteriorizar pensamentos contrários. Fala-se muito no benefício da dúvida, mas pratica-se pouco. Este benefício se evidencia, marcadamente, pela repercussão dos movimentos ateístas em todo o mundo, justamente, a questionar a existência de “Deus”.
Que beleza de radiografia social este programa nos mostrou. Crentes apaixonados e ateus declarados se manifestaram sem maiores conseqüências. Ao contrário das coisas prontas, propostas pela ideologia religiosa ou por outra ideologia qualquer, está-se redescobrindo o gosto pelo exercício do pensamento. Somente o colégio dos pastores tem o direito de dirigir e governar. A massa não tem direitos, a não ser o de deixar-se governar qual um rebanho obediente que segue o seu pastor. Papa Pio X (1835-1914). Muita gente entende isso como uma visão simplesmente reacionária de um determinado papa, e não como uma meta de implantação cultural. A função dos dirigentes religiosos é preservar a meta dos assédios da razão. Em sua origem e propagação o cristianismo nunca foi democrático. Portanto, a crença em “Deus” seria inevitavelmente questionada um dia, inclusive por causa do seu componente grego, tradicionalmente questionador.
O mais curioso componente do entendimento de “Deus” é o judaico, porque ninguém sabe o que ele é. Daí tantas contradições percebidas num contexto cultural no qual o judaísmo é um corpo estranho. Os judeus não utilizam a versão grega dos seus livros sagrados, Septuaginta, que conhecemos como o Velho Testamento. Na interpretação da bíblia hebraica, segundo o esoterismo judeu, existem quatro níveis a se percorrer. São os chamados conceitos PARDES. Trata-se da abreviação dos nomes de cada um deles: Pshat, Remez, Drash e Sod. O primeiro se refere à simples leitura do texto como ele se apresenta. É neste nível primário que os não judeus pensam entender a “Deus”. O segundo se refere à mensagem contida nas entrelinhas do texto bíblico. O terceiro se refere a sua forma alegórica e o quarto nível ao segredo que se encerra na Torá.
Existe uma historinha que, se não me engano, é mais ou menos assim: três rabinos resolveram estudar a fundo a Torá, percorrendo nível a nível. O primeiro perdeu o juízo; o segundo tornou-se ateu e o terceiro permaneceu o mesmo. Desviando do óbvio da mensagem, o mais interessante fica para aquele que se tornou ateu. Claro, para que uma religião precisa de segredo, senão para preservar a si mesma? Preservar a si mesma, no caso, significa a preservação do povo judeu. Foi exatamente com esta finalidade que o judaísmo foi instituído e não para salvar a alma de ninguém e trazer um salvador miraculoso ao mundo. Einstein disse que o judaísmo não é uma fé e ainda distinguia o deus cultural de Israel da inteligência cósmica. Tinha que ser uma mente brilhante com a de Einstein para fazer tão clara distinção.
A funcionalidade pedagógica do Velho Testamento, que chegou a despertar a cobiça nos gregos, acabou por ocultar a concepção de um deus cultural com função específica no meio que lhe era próprio, para se transformar no maior equívoco religioso da história da humanidade. Deus existe? Sim, existe o deus cultural de Israel que justificou a posse do Velho Testamento pelos gregos. Este “Deus” existe culturalmente. Aliás, é o que atesta a teologia da substituição inventada pelo cristianismo ou pelos gregos, pois o cristianismo é de origem antijudaica e eram os gregos que coordenavam tais movimentos. Justino disse aos judeus: “As escrituras não pertencem a vocês [judeus], mas a nós [cristãos]”; Irineu declarou: “Os judeus foram deserdados da graça de Deus”; Tertuliano anunciou: “Deus havia rejeitado os judeus em favor dos cristãos”; Eusébio afirmou que as promessas das escrituras hebraicas eram para os cristãos e não para os judeus. A Igreja era a continuação do Velho Testamento e desta forma substituía o judaísmo. Hoje prevalece a interpretação cristã e, por inteligência, a interpretação judaica acompanha. Quem é “Deus”? A ignorância nominada.
Séculos seguidos de lavagem cerebral só podia dar nessa confusão de sentimentos profundos que vivemos hoje. Tem muita gente se enrolando com a questão “Deus”, porque é natural ao ser pensante pressentir algo maior no universo. É impossível se escapar disso. No entanto, a falta do conhecimento de como se formou o tal “Deus” na história os deixa sem saber o que pensar. O medo antigo criado pela versão do deus cultural de Israel continua latente porque não foi de todo eliminado do sentimento pela razão. O pressentimento de uma inteligência cósmica continua vivo sendo explorado e creditado ao falso deus da bíblia sem que o indivíduo tenha como se defender de maneira satisfatória intimamente. Ele ainda não consegue entender que não existe um deus verdadeiro, como aquele sentimento herdado e por séculos inculcado insiste interpretar. Se existe uma cadeira é porque alguém a fez. Mas as árvores nascem nas florestas sem que ninguém as tenha plantado. Neste mundo, a cadeira somos nós.
*Ivani de Araújo Medina é carioca, nascido na Ilha do Governador em 1947. Formado em Artes Plásticas pela antiga Escola Nacional de Belas Artes na década de 1960, e autodidata e pesquisador em História do Cristianismo.
Por Ivani de Araújo Medina, em 04/09/2011 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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Caro Ivani, bom dia!
Parabéns por mais um belo e reflexivo artigo. Gostaria apenas de apimentar um pouco mais, se vc me permitir, é claro. A idéia de Deus no ocidente está atrelada aos antropomorfismos, ou seja, Deus é pessoal e qualquer atributo sistemático que lhe derem, nunca escaparão de adjetivos e qualidades humanas dentro de uma dimensão objetiva. No oriente, Deus não é visto de forma pessoal, trata-se de uma emanação cósmica, um sopro vivente que se encontra em tudo e todas as coisas (conceito de panteísmo). Parece que realmente não há saída para esse entendimento, nem mesmo no Taoísmo, quando pergunta-se “QUE É O TAO?”, e se responde: “O TAO É.” Ou na Bíblia quando YHWH responde para Moisés: “EU SOU”. Todas essas análises inevitávelemente passam pela nossa intelectualidade e humanidade. Apenas conseguimos entender Deus a partir da experiência de transcendência, quando fazemos uma viagem interior nos desprendendo totalmente do nosso “self”, de todas as mitologias, dogmas e religiosidades, e deixando que o silêncio racional dê lugar aos insights mergulhados em nosso inconsciente, nos revelando que somos TODOS UM com o cosmos e que fazemos parte e temos parte dessa poeira cósmica existente desde o início, que os místicos chamam de centelha divina, ou a física quântica que chama de partícula de Deus. Deixo aqui para o caro amigo, uma frase que sintetiza tudo isso, escrita pelo grande físico e místico Albert Einstein: “Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar,mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.” Uma vez perguntaram para Rubem Alves, o que ele faria se pudesse ficar no lugar de Deus por um dia, e ele respondeu: Mandaria uma praga de hemoróidas para todos os teólogos para poderem pararem de ficar tentando explicar Deus.
Um forte abraço no amigo,
Kadu Santoro
http://www.jornaldespertar.blogspot.com