Determinismo cultural
Acima, retrato de Max Weber.
Embora o casamento entre o preconceito cultural e a assimetria política possa ser letal, a necessidade de ter cuidado com o salto para conclusões culturais é mais penetrante. Pressupostos culturais não examinados até podem influenciar o modo como os especialistas vêem o desenvolvimento de relações políticas, diplomáticas e comerciais. As teorias são muitas vezes extraídas de provas insuficientes. Meias verdades, ou quartos de verdade, podem enganar grosseiramente – por vezes ainda mais do que a falsidade total, que é mais fácil de denunciar.
Vejamos este argumento do influente livro, Culture Matters, editado conjuntamente por Lawrence Harrison e Samuel Huntington. No ensaio introdutório, “As Culturas Contam”, Huntington escreve:
“No princípio dos anos 90 (de 1990), aconteceu que encontrei dados econômicos sobre o Gana e a Coréia do Sul do princípio dos anos 60 (de 1960) e fiquei espantado por constatar (ver) como as duas economias eram semelhantes naquela época (altura). (…) Trinta anos mais tarde, a Coréia do Sul tinha se tornado num gigante industrial, com a décima quarta maior economia do mundo, empresas multinacionais, importantes exportações de automóveis, equipamento eletrônico e outros produtos sofisticados e um rendimento per capita aproximadamente igual ao da Grécia. Além disso, estava a caminho da consolidação de instituições democráticas. Não tinham ocorrido mudanças dessas em Gana, cujo rendimento per capita era agora de cerca de um quinto do da Coréia do Sul. Como poderia ser explicada esta extraordinária diferença de desenvolvimento? Indubitavelmente, muitos fatores desempenharam um papel, mas parecia-me que a cultura tinha de constituir uma grande parte da explicação. Os sul-coreanos valorizavam a poupança, o investimento, muito trabalho, a educação, a organização e a disciplina. Os ganeses tinham valores diferentes”.
Em suma, as culturas contam. É bem possível que haja algo de interesse nesta sedutora comparação (talvez até um quarto de verdade retirado do contexto) e a comparação pede uma investigação. Mas a história causal é profundamente enganadora. Havia muitas diferenças importantes – para além das predisposições culturais – entre Gana e Coréia do Sul nos anos de 1960, quando os países pareceram a Huntington muito semelhantes, exceto quanto à cultura.
As estruturas de classe dos dois países eram muito diferentes, tendo as classes empresariais da Coréia um papel muito maior. A política também era muito diferente, com o governo da Coréia ansioso por desempenhar um papel dinamizador no lançamento do desenvolvimento econômico baseado nas empresas, de um modo que não se aplicava a Republica de Gana.
A estreita relação entre a economia coreana e as economias do Japão e dos Estados Unidos também fez uma grande diferença, pelo menos nas primeiras fases do desenvolvimento coreano. O mais importante talvez fosse que, nos anos 60, a Coréia tinha uma taxa de alfabetização muito mais alta e um sistema escolar mais extenso do que o de Gana. As mudanças coreanas tinham sido ocasionadas, em grande parte, através de uma política pública resoluta desde a Segunda Guerra Mundial e não era simplesmente um reflexo da muito antiga cultura coreana. Claro que houve tentativas anteriores de utilizar o determinismo cultural para explicar o desenvolvimento econômico.
Há um século, Max Weber apresentou uma importante tese sobre o papel decisivo da ética protestante (em particular do calvinismo) no desenvolvimento com êxito de uma economia industrial capitalista. A análise de Weber sobre o papel da cultura na emergência do capitalismo resultava da forma como ele observava o mundo no fim do século XIX. A sua análise é de particular interesse no mundo contemporâneo, especialmente à luz do recente êxito das economias de mercado em sociedades não protestantes. Pode haver muito a aprender com essas teorias, e as ligações empíricas que patenteiam podem ser muito perspicazes.
Num momento em que a noção de um “choque de culturas” global ressoa fortemente – e preocupantemente – por todo o mundo, encontrar respostas para as velhas questões sobre a melhor maneira de gerir e mitigar os conflitos acerca da língua, religião, cultura e etnicidade assumiu uma importância renovada.
Por Julio Cesar Pitombo, em 23/12/2009 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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Muito boa as reflexões! Citar Max Weber como referencial teórico para as análises que se preocupam com a emergência de uma cultura capitalista é sempre uma boa pedida e um caminhar por caminhos fecundos!
Felicidades!
Dimitri Barros Guandalim