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Desorientação generalizada

O sociólogo italiano Domenico De Masi, o “pai do ócio criativo”, é prolífico escritor. Depois de “O Futuro Chegou”, agora publica “Alfabeto da Sociedade Desorientada”. Parece bem adequado ao momento brasileiro que vivenciamos.

Para ele, tudo mudou ao mesmo tempo: o trabalho, a riqueza, o poder, o saber, as oportunidades, a proteção social e as comunicações. Essa descontinuidade de época deixa as pessoas perplexas. Quebrou-se o paradigma clássico de todas as sociedades anteriores. Estas se alicerçavam num sólido modelo teórico preexistente.

No século de Péricles, os gregos pressupunham o pensamento de Protágoras, Senão e Anaxágoras. O Império Romano abeberou-se na filosofia e na política grega e quando se converteu em Sacro-Império Romano Germânico, amparou-se nos Evangelhos e nas lições dos Pais da Igreja. Estados Islâmicos têm o Alcorão e a democracia americana tem seus fundamentos no Iluminismo de Voltaire, Diderot e no protagonismo dos Pais Fundadores da Pátria, Franklin e Thomas Jefferson.

Assim foi sempre. Os Estados-Nação do século XIX se nutriram do pensamento de Adam Smith, Charles de Secondat, o Barão de Montesquieu, que formatou a doutrina da separação de poderes e no testemunho de Alexis de Tocqueville. As experiências de Robert Owen auxiliaram o design do Estado do Bem-Estar Social. A União Soviética é fruto da proposta de Marx, Engels, Lenin, Trotsky e Joseph Stalin.

E a sociedade contemporânea? Ela não tem modelo condutor. É um patchwork, miscelânea de inspirações, não tem compromisso e enfrenta a imprevisibilidade. Não há esferas em que se encontre certeza e segurança. A desorientação é total. Economia, Política, Família, Sexo, Cultura. Diante da ausência de um parâmetro, ela mergulha na desorientação. Ninguém é capaz de planejar o futuro. A insegurança e o inesperado prevalecem.

De Masi faz uma observação interessante: há vinte anos, quando veio de Roma para o Rio e São Paulo, deixou uma Itália eufórica e encontrou um Brasil deprimido. Dez anos depois, deixou uma Itália deprimida e desembarcou num Brasil eufórico. Hoje, tanto a Itália como o Brasil estão deprimidos. Voltarão à fase de euforia? Quando acontecerá isso?

*José Renato Nalini é desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, secretário da Educação do Estado de São Paulo, imortal da Academia Paulista de Letras e membro da Academia Brasileira da Educação. Blog do Renato Nalini.

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