Início » Eduardo Aquino » Déficit de atenção ou ansiedade infantil?

Déficit de atenção ou ansiedade infantil?

Quem não conhece uma criança, parente, filho de conhecido, ou coisa que o valha, que em algum momento da vida não tenha tido o diagnóstico de Transtorno da atenção com hiperatividade infantil (TDIH), que levante a mão. Ou que não conheça uma medicação, pra lá de controversa, chamada de Ritalina.

Será que virou epidemia mundial? Que tal então, ponderarmos sobre alguns aspectos , antes de estigmatizarmos crianças, pré-adolescentes e… para meu espanto, até adultos ( ?????) com digamos, diagnóstico retroativo, de hiperatividade.

O uso indiscriminado é avassalador de uma medicação que entra nos critérios da OMS, de “substâncias psicoestimulantes- drogas- pois causa, tolerância (exige doses progressivamente maiores, pois perdem o efeito), dependência, e abstinência (sintomas desagradáveis na ausência da medicação)”. Ou na lata: “rebite” de caminhoneiro, a tal da Ritalina.

Vamos lá: diversos trabalhos têm alertado, para a banalização do diagnóstico de hiperatividade, a partir de queixas das escolas, psicopedagogos, pais ansiosos, dificuldades cada vez maior de conter a necessidade de movimentação de crianças, com severa restrição de espaço, quer seja doméstico ou escolar. Some-se a isso, o uso descontrolado da tecnologia cada vez de forma mais precoce e intensa, além de diminuição brutal da quantidade de sono e teremos só aí, um coquetel de elementos explosivos para a ansiedade infantil agitada.

Aliás, esse é o diagnóstico mais comum e desconsiderado pois, agitação e angústia, em tenra idade, não pode ser descrita e sim demonstrada. O tratamento é absurdamente diferente e bons pediatras, neuro-pediatras ou psiquiatras infantis, bem o sabem.

Estímulo a atividades externas, natação, atividades esportivas (incluindo as que exigem movimentação e disciplina como judo, karatê e afins), retirada de cafeína (café, refrigerantes, chocolates, chá mate, energéticos, alimentos artificiais com edulcorantes – chips, batatas, e outras bocagens), dieta com folhas verdes, são muito bem vindas. E busca de atividades naturais, artesanais, diferentes do cotidiano.

Trabalhos de acompanhamento de longa data de crianças e adolescentes submetidos a anos e anos de Ritalina, em doses crescentes, levaram a adultos com severos problemas de vício em drogas, bebidas, problemas de compulsividade em jogos, dificuldades adaptativas no emprego, vida social, familiar. Talvez pelo forte efeito que tal medicação exerça sobre a dopamina – neurotransmissor fortemente ligado ao prazer e recompensa – ativado por exemplo pela cocaína, maconha, LSD e outras drogas.

Alguns países nórdicos têm feito revisão diagnóstica, e às vezes percebe-se que os casos reais de TDIH, ocorre em 20% dos inicialmente diagnosticado.

Lembram que vem aumentando (infelizmente) os transtornos ansiosos e depressivos em crianças e adolescentes, com grande dificuldade diagnóstica, já que os sintomas se mascaram. Há que ressaltar que hiperativo são muito inteligentes e simplesmente tem uma hiperatenção involuntária. Em outras palavras, não se concentram pois querem “devorar” todo o mundo exterior, ouvem todos os sons, veem tudo, tocam em tudo, cheiram e degustam o mundo.

Não está neles. São antenas parabólicas sensoriais. Ao fim da adolescência, com a mielinização dos circuitos neuronais incontáveis que desenvolvem, costumam ir desacelerando, naturalmente. Com, sem ou apesar de médicos, psicólogos ou semelhantes. E melhor, em geral se dão bem na vida empresarial, profissional. Fazem muitas coisas ao mesmo tempo. O que era defeito, vira virtude.

Quanto às crianças com grave ansiedade ou depressão, o tratamento de preferência, segundo pesquisas, com antidepressivos tricíclicos em pequenas doses, em especial, clomipramina.

Afinal, o que está mais doentio, é o meio ambiente de vícios eletrônicos, maus hábitos, vida ociosa, falta de limites, entre outras “cositas mas”, que a vida familiar conturbada e escolas em transformação, ainda não conseguiram resolver. Nem nós mesmos.

Fonte: Jornal O TEMPO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*
*