Debatendo sobre as florestas!

Por em 09/11/2009


Marina SilvaAcima, foto da senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

Com a entrada de Marina Silva na disputa presidencial pelo PV, há muito tem se falado da questão ambiental. Porém, a população pouco ou nada fez e discutiu sobre a nova tentativa ruralista de mudar o Código Florestal, a fim de flexibilizá-lo. O que vem a ser interessante debater é se o Brasil deve priorizar a produção agropecuária ou suas florestas.

A maioria da população, ao se deparar com essa questão, responde logo a segunda opção. Como ambientalista, concordo com a resposta, mas pergunto-me se tal escolha veio da real informação dos brasileiros sobre o valor das florestas e as diversas ações dos ruralistas, ou da simples propaganda que se tem feito sobre o aquecimento global e os riscos ambientais.

Deve-se, portanto, esclarecer aqui alguns pontos gerais antes de opinar sobre o assunto. Sabe-se, quase que por unanimidade científica, que está ocorrendo o aquecimento global. O que gera divergências entre os estudiosos é se esse fenômeno está sendo causado pelo ser humano. Ou seja, todas as estatísticas assustadoras e previsões apocalípticas não passam de suposições de um grupo da comunidade científica.

É, porém, quase um consenso que a Terra esquentará cerca de dois graus centígrados. O aumento inevitável da temperatura supostamente derreterá parte das geleiras dos Pólos, elevando o nível da água e, assim, invadindo ilhas marítimas e cidades litorâneas (tais como o Rio de Janeiro). Discute-se, hoje, no mundo, o que fazer para não aumentar ainda mais esse número. A solução mais bem aceita é reduzir as emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa (o fenômeno no qual o calor que seria refletido da Terra de volta para o espaço é retido na atmosfera por gases). Eles são muitos, tendo como um dos principais o dióxido de carbono (CO2), popularmente conhecido como gás carbônico.

É nesse ponto que as florestas são importantes. Devido à fotossíntese e ao baixo nível metabólico, as plantas são responsáveis pela absorção desse gás e emissão de oxigênio. Por isso, uma floresta em larga escala absorve uma grande quantidade do dióxido de carbono, contribuindo, assim, para a desaceleração do aquecimento global.

Há, então, por esse motivo, a enorme pressão de países desenvolvidos sobre o Brasil para controlar o desmatamento da Amazônia, a maior floresta do mundo, e de outros biomas, igualmente capazes de diminuir o efeito estufa. A crítica feita pelos nossos governantes a esses países é que eles desmataram todas as suas reservas florestais, emitem até hoje enormes quantidades de CO2 e nos pressionam a fazer algo que eles não fizeram.

O erro desse argumento é que apenas há cerca de vinte anos começaram os estudos e a preocupação da sociedade sobre o assunto. Apenas na década passada começou-se a falar do efeito estufa, aquecimento global, etc… Nos anos noventa todas as florestas européias já tinham sido desmatadas, assim como as de diversos países. Além disso, desde quando vieram os estudos ambientais, é o primeiro mundo que mais investe na criação de tecnologias não poluentes.

Outro argumento, o qual eu considero há muito defasado, é que a preocupação ambiental atrasa do desenvolvimento do país. É uma frase utilizada muitas vezes sutilmente, mostrando o verdadeiro pensamento dos governantes. Nesse ponto de vista, entende-se “desenvolvimento” como crescimento econômico, que é medido por indicadores duvidosos, como o PIB e a renda per capita. Ou seja, ignora-se pontos como qualidade de vida, saúde, longevidade, todos influenciados pela questão ambiental.

Focando na questão do Código Florestal novamente, a flexibilização do mesmo dar-se-ia através de medidas perigosas, como a anistia para os desmatamentos realizados antes de julho de 2006, isso sem obrigatoriedade de recuperação, o que poderia passar a impressão de impunidade e falta de controle do Governo. Além disso, as áreas de proteção seriam definidas pelos poderes locais, muito mais susceptíveis a interesses de empresas ou conchavos.

Os ruralistas afirmam que o Código Florestal precisa ser mudado, pois ele permanece o mesmo de quando foi criado, em 1945. Já os ambientalistas contestam, dizendo que os tempos de hoje exigem uma inflexibilidade ainda maior do que antigamente.

Com a mudança aprovada, os grandes agricultores e pecuaristas teriam maior liberdade para a expansão das áreas produtivas. Os ruralistas prometem, porém, o desmatamento zero de três biomas: a Amazônia, a Mata Atlântica e o Pantanal. Já nos Pampas, no Sul, a Caatinga e o Serrado, respectivamente no Nordeste e Centro-Oeste, haveria uma inevitável expansão das áreas produtivas, embora pequena.

O Governo Lula, seguindo a política econômica de FHC, prioriza as exportações e, tendo e vista que o maior produto exportado é a soja, por isso, geralmente coloca-se a favor dos ruralistas. É fato que temos uma economia estável também por causa da agropecuária.

Kátia Abreu (DEM-TO), líder da bancada dos ruralistas no Senado, muitas vezes afirma que o crescimento da produção de alimentos é necessária em um país em franca expansão demográfico-econômica, o que seria verdade, se a maior parte da produção não se destinasse à ração de animais preparados para o abate em lanchonetes de fast-food. De fato, mesmo a proposta dos ruralistas não seria ruim, se fosse seguida. Infelizmente, vê-se um triste quadro, no qual apenas 5% das terras desmatadas na Amazônia tiveram autorização para o ato, sendo em realidade a maioria terras produtivas griladas.

A agropecuária que Kátia Abreu representa é muitas vezes chamada de agro-business, latifúndios de uma monocultura cuja produção é controlada por uma empresa. Tais atividades acarretam a fagocitose rural (venda de pequenos lotes de terra a latifundiários) e inibem justamente aquilo que afirmam gerar: a produção de alimentos, visto que a mesma é dada apenas com a agricultura familiar, em minifúndios. É por isso que hoje a terra é uma das mais concentradas no mundo.

Por isso, a mudança do Código Florestal não pode ocorrer dessa forma. Não podemos deixar de punir desmatadores ilegais, muito menos privilegiar ruralistas ligados à ilegalidade e concentração de terras. A sociedade brasileira precisa se mobilizar desde já para impedir a destruição de nossas florestas.

*Daniel Vasconcellos Archer Duque é estudante secundarista, editor chefe do Jornal do Grêmio do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro. Filiado ao Partido Verde, também colabora com outros sites e jornais.




Por Daniel Archer Duque, em 09/11/2009 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

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