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De costas para o interior

De costas para o interiorAfirmam alguns autores que o Brasil vive de costas para o seu interior. Por um lado esta afirmação começa a ficar ultrapassada, com o rápido avanço para o Oeste nos últimos 50 anos. Permanece, no entanto, o fato de que a maior parte da população brasileira ainda se concentra numa faixa de terra, que não dista mais de 200 quilômetros do mar. Apesar de seu extenso interior e da ocupação européia há mais de meio milênio, o Brasil ainda continua, em grande parte, estabelecido à beira mar.

As populações que se fixaram no Brasil, chegaram a este território em épocas diferentes e basicamente por dois caminhos. Os primeiros povoadores a chegarem, são descendentes dos povos que adentraram ao continente americano há cerca de 15 mil anos, através do Alasca. Entraram no território brasileiro provavelmente através da região amazônica e dali se espalharam para o sul e para a costa. Seu deslocamento e a gradual ocupação do território brasileiro demorou milhares de anos. Neste processo estes povos espalharam a cultura de certos vegetais por regiões onde não existiam, e ocupando o território batizaram os acidentes geográficos com nomes que permanecem até hoje.

Os segundos povoadores, os europeus, vieram através do oceano Atlântico. Navegantes, degredados e depois colonizadores, chegaram com armas, ferramentas e algumas espécies de plantas, movidos pela vontade de enriquecer. Enfrentavam meses de viagem pelo oceano, em condições precárias. Talvez seja por isso que, cansados de tanta água e intimidados com as serras e a floresta, preferissem se estabelecer ali mesmo, a poucos metros do oceano.

Os primeiros grupos de europeus a penetrarem as terras desconhecidas rumo ao interior do continente foram as entradas e as bandeiras. Aventureiros pagos pelo estado português ou por grupos privados, planejavam encontrar o ouro que os indígenas do litoral diziam existir terra adentro. Circulavam histórias de um reino onde haviam montanhas do precioso metal, provavelmente relatos deturpados do império inca, cujas fronteiras se estendiam até a Bolívia e a Argentina. Antes da chegada dos europeus, já existia um caminho utilizado periodicamente pelos índios, o Caminho do Peabiru, que saia da costa atlântica na região de São Vicente e Cananéia e chegava a Cusco, no Peru. Partindo do litoral, depois de passar pelo planalto paulista e interior de São Paulo, por Foz do Iguaçu, pelo Paraguai e a Bolívia, o caminho finalmente alcançava o território do então império inca, no Peru. Chamado mais tarde pelos jesuítas de Caminho de São Tomé, o Peabiru (na língua tupi, “pe” – caminho; “abiru” – gramado, amassado) funcionava como uma rudimentar rota de trocas de produtos do litoral por outros do interior do continente. Depois que os espanhóis passaram a dominar o Peru, a febre do ouro arrefeceu entre os portugueses. A maior parte os novos imigrantes – com exceção dos bandeirantes e dos habitantes de São Paulo – preferiu fixar-se no litoral.

A diferente maneira de ocupação do território pelos índios e portugueses – um embrenhado nos sertões e o outro encastelado no litoral – também teve, entre outros, impactos ambientais. Formou-se ao longo do tempo a idéia de que o sertão deveria ser dominado e explorado, já que só abrigava índios, feras e moléstias, e só eventualmente mostrava suas riquezas. A idéia da preservação só veio muito depois.

*Ricardo Ernesto Rose é consultor em inteligência de mercado, desenvolve atividades de marketing, transferência tecnológica e consultoria comercial na área da sustentabilidade. Jornalista, autor, com especialização em gestão ambiental e sociologia. Graduado e pós-graduado em filosofia. Coordenou o lançamento de diversas publicações sobre os setores de meio ambiente e energia e escreve regularmente para sites, jornais e revistas. É editor do blog “Da natureza e da cultura” (www.danaturezaedacultura.blogspot.com.br) e autor dos livros “Como está a questão ambiental – 100 artigos sobre a relação do meio ambiente com a economia e o clima”, “Os recursos e a cidade” e “A religião e o riso e outros textos de filosofia e sociologia”. Contatos através do site www.ricardorose.com.br

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