Dançando na livraria!

Por em 20/10/2009


LivrariaAdoro vê-la vagar pela livraria, enquanto trabalha. Não sei exatamente o que ela faz lá, mas parece ser algo importante. De vez em quando, circula por todo o ambiente, tomando notas, no que penso ser uma checagem, ou um controle do material disponível. Mas faz isto com uma certa descontraída solenidade. Alta, magra, elegante, um rosto bonito e nada clássico, normalmente adornado por óculos que emprestam um tom intelectual àquele nota & anota, ela realiza sua rotina com uma elegância despojada, caminhando suavemente entre as gôndolas e prateleiras, como se bailasse ao som de um bolero, ou um foxtrott antigo, embalada por uma big band silenciosa e invisível, mas de presença inquestionável. Uma música que não se ouve, mas se pressente, sente-se, quando se acompanha os seus movimentos. Ela caminha devagar, dançando, pelo salão inteiro — o som dos saltos quase marcando o ritmo — parando aqui e ali, anotando, observando, anotando novamente e seguindo adiante, para outra seção. Os movimentos são quase contínuos, mesmo se despreocupados, ou preocupados apenas com o que tem consciência de estar fazendo. E quando a vejo terminar o seu trabalho — ou parte dele — quase ouço a orquestra silenciando, e os músicos levantando-se, para esticar um pouco e prepararem-se para a execução de um novo número.

Nós já havíamos nos cumprimentado, há algum tempo. Um gesto de simpatia da parte dela que, possivelmente, sentiu, ou pressentiu a minha apreciação de sua arte involuntária. Mas foi apenas uma vez. De resto, não nos falamos, e talvez seja melhor assim. Ela apenas me olha, casualmente, concentrada em seu trabalho. Na dança, como nas artes marciais, é o movimento que conta. É ele que, em si mesmo, é a linguagem, a conversa. Trair esse princípio é como trair o fluir da arte. E numa bela coreografia, essa síncope dói mais do que o castigo de um golpe que, nas artes marciais, vem premiar a distração.

Já freqüento aquela livraria há algum tempo. Em geral entrando depois de alguma hesitação. Porque, ao contrário do que me acontece nos super-mercados de livros que invadiram o Rio, nesta aqui eu não apenas entro: raramente saio de lá sem um livro debaixo do braço. Filosofia, romance, reportagem e o escambau, sempre tem alguma coisa boa, que chama a atenção do leitor compulsivo que sou.

Mas, sem o saber, a dançarina do nota & anota exigiu que eu dividisse a minha atenção. Entre os livros e ela mesma, e sua dança. E isto desde o começo. Ou pelo menos desde que a notei, pela primeira vez. Eu, então, circulo pela livraria, ao longo das diversas seções, sinceramente interessado nos títulos que ainda não havia visto em minhas visitas anteriores. Digo sinceramente interessado nos livros, porque poderia estar passando a impressão de que, desde que a vi dançar, entro lá não mais pelos livros, mas pelo espetáculo elegantemente minimalista de minha imprevista bailarina. Até valeria a pena. Aliás, hoje em dia, antes de entrar, eu sempre me pergunto: “será que ela está lá?”. Porque nem sempre está. Mas eu entro mesmo assim, mesmo na dúvida. E ainda que ela não esteja lá, mesmo que não a veja dançar o seu nota & anota, eu circulo e acabo comprando alguma coisa. Então meu vício de leitor está a salvo, claro. Mas a presença bailarina da trabalhadora elegante e infatigável empresta alguma arte e beleza à satisfação dessa minha dependência literária. E me faz falta.

Hoje, ao entrar na livraria, depois de um certo tempo ausente, tive uma surpresa. Como sempre, fiz o meu tour pelo salão, em busca do que ler. E acabei comprando uma obra-prima que já tenho e já li — Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Marquez — mas que planejo dar de presente a um velho amigo. E ela estava lá. Minutos antes, ainda entrando na livraria, eu já a vira de longe, dançando. Entrei, sinceramente (mesmo!) interessado nos livros, mas feliz por poder contar, mais uma vez, com a beleza e a harmonia daqueles passos. Desta vez, no entanto, ela sequer olhou pra mim. Nem mesmo casualmente. Apenas realizou sua dança, enquanto eu caminhava pelo salão, para reencontrar Gabo. Não posso negar que aquilo me frustrou um tiquinho. Ilegitimamente, pensei. Afinal, é aos livros, CDs e CD ROMs que ela deve a sua atenção, (in)consciente de que não há outra forma melhor de a dança fluir com mais beleza.

Entretanto, ao dirigir-me ao balcão, para pagar o livro, percebi que ela dançou na mesma direção. Enquanto eu realizava o pagamento, ficou por trás do balcão, conversando rapidamente com alguém, indiferente ao meu olhar, agora francamente e sem reservas dirigido a ela. Logo depois de eu receber o troco, e preparar-me para ir embora, percebi que ela saíra dali e postou-se a meio do caminho, entre o balcão, as estantes e eu mesmo, voltada para mim, meio que por acaso, distraída, os braços ligeiramente abertos, ao longo do corpo, como se arrematasse, enfim, a sua coreografia. Só então percebi que — não apenas agora, mas desde quando circulei, pela primeira vez, ao longo do salão da livraria, dividindo aquele espaço com a elegante dançarina — eu não apenas me deliciara com a sua dança, mas dançara com ela. O tempo todo — enquanto circulava entre os livros — eu executava meus passos, quase que cronometrados com aqueles com que ela me fascinava. E não havia percebido isto, porque, normalmente, ao sair, eu ainda dançava, enquanto minha partner também executava seus belos movimentos. A diferença é que, hoje, ela mostrou-se por inteiro, ao final da rodada, como quem aceita do cavalheiro o agradecimento pelo prazer e beleza de mais uma dança.

*Marco Antônio Coutinho é escritor, poeta, jornalista e tradutor, além de pesquisador de diversos assuntos, como parapsicologia e misticismo. Mora no Rio de Janeiro e também escreve http://eporfalarnisto.blogspot.com.




Por Marco Antonio Coutinho, em 20/10/2009 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

1 resposta to “Dançando na livraria!”

  1. Fátima Venutti

    Deliciosa e saborosa leitura. Degustei cada parágrafo lentamente, tentando ouvir a música que acompanhava o texto.
    Confesso: fui laçada do início ao fim.
    Parabéns!
    Coisa boa é ler um texto assim em pleno Dia do Poeta!

    Abraços

    Fátima Venutti
    Blumenau/ SC

    #153

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