Da escrita
Meus três primeiros livros – “O Sino do Campanário”, “Cela de Papel” e “Do Útero do Mundo” nasceram sob o império do acaso. Alheio a minha intenção, confesso que se construíram sozinhos. Não que eu não os desejasse. Muito antes pelo contrário, sempre sonhei em escrevê-los. É que, no caso dessas obras, atraído pelo prazer momentâneo de criar personagens e mundos — uma historinha aqui, outra ali — de repente me dou de cara com elas. E. E. Cummings observa acerca de um de seus livros: “Quando este livro se escreveu…” Como se o livro já estivesse escrito em regiões muito distantes da consciência, emergindo repentinamente de seu esconderijo. Talvez seja isso mesmo.
Por isso a gravidez me interessa; porque escrever é como parir um filho. Um descuidinho e nos tornamos pais, ou escritores.
Diz uma antiga lenda que a Virgem Maria foi engravidada pelo ouvido. Que linda metáfora para sugerir as relações eróticas entre a carne e a escrita. Mas não é precisamente nisso que consiste a arte de escrever, em produzir palavras que engravidam? A palavra é masculina: a fala se projeta como falus, eleva-se e penetra, a fim de dar prazer e engravidar. O ouvir é feminino. O ouvido é um vazio, concha, um convite à palavra que lhe trará prazer e vida.
E esta arte é construída a partir de um fragmento sumamente perigoso – o Verbo. Sim, quem não ouviu dizer que no princípio era o Verbo? O Verbo então se fez carne: o corpo é a escrita encarnada.
Dizem também que palavras são como flechas: uma vez disparadas é impossível recuperá-las. E elas machucam. Doem. Palavras tanto podem ser cutelos como bálsamos; só é preciso conhecer sua alquimia, suas combinações. Eis meu grande desafio, descobrir todas as suas nuanças e mistérios. Nestes três livros seguem minhas primeiras experiências como escritor-alquimista.
Mas não pense o leitor que esta é uma tarefa fácil. Nikos Kazantzakis conhecia bem esta dificuldade. Tanto que disse: “… as letras do alfabeto me aterrorizam. Elas são demônios astutos e desavergonhados – e perigosos! Você abre o tinteiro e as solta: elas correm – e você não mais conseguirá trazê-las de novo para seu controle! Elas ficam vivas, juntam-se, separam-se, ignoram suas ordens, arranjam-se a seu bel-prazer no papel – pretas, com rabos e chifres. Você grita e implora: tudo em vão. Elas fazem o que querem…”
Todo escritor é um pouco anarquista. Por isso meus escritos não consolam nem oferecem respostas. Não tenho vocação para escritor de auto-ajuda. Meus escritos, pelo contrário, tem a função única de instigar, questionar, mostrar a realidade como ela é, através da ficção, sem enfeites ou demagogias. Que cada um se resolva, depois, com suas eventuais feridas.
A verdade, porém, é que pouco importa o que digo e escrevo. O que importa são as palavras que se dizem, vindas das funduras de quem lê. É o leitor quem dará ou não vida a estas letras mortas. Depois de ressuscitadas sim é que elas podem mudar mundos.
*Uili Bergamin nasceu em Bento Gonçalves, RS, no dia 02 de fevereiro de 1979. Destaca-se por sua escrita concisa, e pela busca das palavras certas, que encaixam perfeitamente ao texto. Bergamin é também colunista em jornais e revistas de circulação em Caxias do Sul e região.
Obras publicadas
O Sino do Campanário (2005, contos, Editora Maneco) Coletânea de catorze contos e obra inaugural do autor. Apesar do título, não é propriamente um livro religioso. Talvez seja antes o contrário. O conto que nomeia a obra, por exemplo, narra a história de um padre que, aos 70 anos, revê sua vida e relembra um grande amor do passado. A solidão do celibato, a angústia de estar teminando de viver, o fracasso de uma vida que não realizou seus sonhos nem o de seus pais, faz com que transfira suas dores ao sino de sua igreja, como única forma de redenção. Praticamente todos os contos têm como fio condutor a crença, o amor e a dúvida. Seus contos são independentes e escritos de maneira simples, porém, seu texto é polêmico e questionador, e incita à reflexão sobre crenças, verdades e dogmas.
Cela de Papel (2006, novela, Editora Maneco) Novela fragmentada, com nuance autobiográfica. É uma fantasiosa alegoria sobre a arte da leitura. Repleta de metalinguagens.
Do Útero do Mundo (2007, poesias, Editora Doravante) Impiedosos e intensos, luminosos e sombrios, a maioria dos poemas que compõem a obra já obteve alguma premiação literária. Do Útero do Mundo vem sendo muito elogiado pelos leitores e também pela crítica.
Por Uili Bergamin, em 21/03/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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