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Crime geriátrico

No Brasil, o crime é um fenômeno que atinge a juventude. Conseguíssemos educar melhor a infância e os números seriam melhores. É que os infratores ocupam a faixa dos quinze aos vinte e quatro anos em sua imensa maioria.

Já o Japão enfrenta algo diferente. 35% dos furtos em lojas são cometidos por pessoas com mais de sessenta anos. Nessa faixa etária, 40% dos reincidentes cometeram o mesmo crime por mais de seis vezes. Como explicar algo aparentemente insólito?

O japonês idoso não consegue sobreviver com a minguada aposentadoria estatal: cerca de 780 mil ienes ou R$ 25 mil por ano! Por isso é que a onda de crime geriátrico está crescendo. A situação social do Japão faz com que o idoso pratique crimes por necessidade. Preso, terá alimentação, acomodações e serviços de saúde gratuitos.

Quase metade do japonês que envelheceu vive só. Ao saírem da prisão, sem família e sem dinheiro, a alternativa é voltar imediatamente ao crime. E isso tem sido registrado de maneira inconfundível: entre 1991 e 2013, a percentagem de reincidentes presos por prática de seis vezes o mesmo crime subiu 460%.

O número de pessoas que hoje recebem assistência pública no Japão é o maior desde o final da guerra. E o país também se encaminha para aquela espiral de outras nações do planeta: dentro em breve, quase metade de sua população será idosa.

A opção pelo crime deve ser extremamente dolorosa para o velho japonês. Quando estive no Japão por vinte e um dias, em 1995, a minha percepção foi a de que a prática de um delito representava para o japonês comum o suprassumo da indignidade. Sua família o abandona, já que a mera procura pela Justiça já significa fissura de caráter. Homem de bem deve saber re­solver seus problemas com autonomia, sem depender da Justiça. E o crime é o “fim da linha” para a cultura japonesa predominante.

No Japão, é conveniente verificar se não é mais barato aumentar o auxílio estatal ao japonês idoso, do que mantê-lo na prisão. Aqui, é convencer a sociedade de que prisão é um flagelo. Não recupera, alimenta facções, gera sede de vingança e custa muito mais caro do que uma boa escola. Cada um com seus problemas!

*José Renato Nalini é desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, secretário da Educação do Estado de São Paulo, imortal da Academia Paulista de Letras e membro da Academia Brasileira da Educação. Blog do Renato Nalini.

Comentários

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Comentários

  1. Teresinha Winter disse:

    Agora estão querendo importar esse modelo pro Brasil, ao fazer a reforma da previdência. Igualzinho. As pessoas só prestam enquanto estão produzindo. Depois, podem morrer e logo, de preferência, pra não dar gastos. Horrível isso !!! Mesmo a pessoa pagando a vida inteira. Não sei como é no Japão, mas boa coisa não é. Lá também não reivindicam nada, como aqui. Deve ter Rivotril na água também.

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