(Con)vivendo na Europa Contemporânea
Diz o ditado popular que são nos momentos difíceis que nós conhecemos as pessoas porque vemos o que elas são capazes de fazer. Tida como centro de disseminação da alta cultura, que tantas vezes impunha com mãos firmes seu modelo para o resto do mundo, Europa nos dá aulas também de irracionalidade, preconceito e de atos anti-democráticos. O nefasto passado europeu vive como nunca, e é ainda mais intenso em tempos de crise econômica. E não, não é necessário que você se esforçe para encontrar indícios de preconceito, eles dão a cara facilmente, algumas vezes se tornam até lei. Na Itália, o senado aprovou em fevereiro lei que criminaliza os imigrantes ilegais e que legaliza a caça desses imigrantes pelos cidadãos. Agora qualquer italiano pode se unir a outros em rondas organizadas pela prefeitura e sair a rua para buscar os ilegais. E as tentativas não param por aí. Deputados do partido de Berlusconi conseguiram freiar mais uma barbaridade extrema sugerida por seu Cavaliere: Uma norma que obrigaria médicos e professores a denunciar imigrantes ilegais que tivessem a ousadia de educar seus filhos nos colégios italianos ou levá-los a uma consulta médica. É a xenofobia legalizada. Inúmeros exemplos mais se dão em todo o Velho Mundo, com manifestações no Reino Unido contra a contratação de estrangeiros para construção civil, oferta de dinheiro para que imigrantes desempregados voltem para seus países, como é o caso dos Romênios na Espanha ou com o aumento do sentimento anti-polaco na Irlanda. É a necessidade já histórica de sempre se encontrar, ou no caso, de se inventar um culpado e atacá-lo. Mais fácil culpar aos imigrantes que ao próprio sistema econômico, monstro invisível e indomável. Ou ainda, menos vergonhoso do que admitir que os governos não tem feito o dever de casa. Espanha, um dos países com taxas de escolaridade mais baixas da Europa, de apenas 9,4 anos e com baixíssimo número de pessoas com formação profissional, a crise penetra a galope. Ao mesmo tempo que a crise assola, a comunidade educativa de Madrid investe cada vez menos nas escolas públicas (que na Espanha não são gratuitas, mas são cerca de três vezes mais baratas que as particulares), e prefere unir forças para proliferar os colégios privados. Nada mais coerente.
Mas claro, a xenofobia não é uma infecção repentina que se contrai por aí e se adoeçe. Antes fosse. Ela permeia todos os círculos sociais e intelectuais, as vezes é mais dissimulada e em outras não tem o menor pudor em aparecer. Os preconceitos de todos os tipos tem raízes profundas, uma cultura torpe que se propaga de geração em geração. Ainda hoje há festas de jovens nazistas que acontecem por toda Europa. Na Espanha, há noites, poucas mas nem por isso menos assustadoras, em que se recomenda não sair de casa porque os nazis saem de suas festas e vão para a rua distribuirem agressões. Um amigo grego que tenho já viu agressões físicas de nazistas que invadiram sua universidade na Grécia. Em que eles se espelham? Em quem? O passado europeu ainda está muito presente na vida contemporânea. Abro o jornal espanhol El Mundo, vejo uma coluna de Felipe Fernández-Armesto, historiador que conta que perdeu um amigo recentemente porque descobriu que ele, um escritor famoso de nome não revelado, era racista e odiava visceralmente os muçulmanos, os acusando de irracionais sem mais nem menos. A Espanha fica muito satisfeita de ter construído sua riqueza com o sangue e a prata da América Latina mas ficou profundamente marcada pelo período de invasão dos mouros, como são conhecidos os povos islâmicos. Rancor que ainda hoje persite inclusive aonde se esperava que os preconceitos fosse diluídos. Há alguns dias atrás, uma menina marroquina foi proibida de ir a escola em Girona porque usava o veu muçulmano. É isso que se aprende nessas escolas?? Onde estão os educadores humanistas que tanto precisamos?
Eu não tenho outra escolha, sou um romântico condenado pela junta médica, e por ter esperança sigo acreditando que toda sala de aula é um lugar de revolução social. Cada professor é um multiplicador de valores que a sociedade carece. Mas não basta dizer, essas experiências precisam ser vividas, a escola deve ser o espaço privilegiado de encontros de pessoas e idéias. E nada como a convivência para que possamos nos tornar conscientes das diferenças e da riqueza que há nisso tudo. Felizmente.
*Leandro de Souza Thiago é biomédico, Doutor em Ciências Biomédicas pela UFRJ com pós-doutoramento no Centro de Investigación del Cáncer, na Espanha.
Por Leandro de Souza Thiago, em 31/07/2009 - 00:45. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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Amigo Leandro,
Aproveite essa sua passagem pelo velho continente para ensinar aos europeus valores humanos.
Eles tem muito a aprender com você.
Saudade desse meu grande amigo
Beijos
Materia belíssima e impressionante. Acho importante ressaltar que no mesmo mundo de preconceitos, xenofobia e nazis de atitudes tão hediodas existem pessoas como vc que ainda acreditam na educação, nos encontros de pessoas e idéias, e acima de tudo na riqueza das diferenças. São essas as pessoas que vão mudar o mundo…evoluçao pelo amor! LOVELUTION!
e nao para no Velho Mundo…..ainda temos que aprender com eles? Bj. saudade
Realmente é desolador constatar que a Europa tenha se esquecido tão rapidamente das nefastas conseqüências geradas pelo preconceito aliado a uma irracionalidade sem precedentes. Parece-me inconcebível que, um continente onde muitas vozes ainda gritam as dores de tragédias recentes, esteja novamente trilhando o caminho da estupidez.
O seu clamor pelos humanistas me fez lembrar o lema dos agostinianos – Caritas et Scientia – Amor e conhecimento. O conhecimento deveria funcionar em conjunto com o amor a serviço de um mundo melhor. Entretanto essa união ideologicamente perfeita na prática pouco ocorre.
Mas, para meu alento, ainda existem pessoas como você, que não permitem a ruptura dessa união. Um romântico assumido sim, mas um romântico que não se limita às belas palavras. Um romântico que “arregaça as mangas” e coloca em prática seus ideais. E que assim contagia as pessoas a sua volta e , como você mesmo disse, se torna um multiplicador de valores que a sociedade carece.