Como surge a intolerância?
Estava eu em sala de aula dia desses tentando explicar para os meus alunos de Sexto Ano sobre a cultura e religião grega. Primeiro acho uma crueldade, pegar as crianças que terminaram de sair de uma realidade de História Regional, onde lhes são passados conceitos básicos de família, rua, bairros, cidades, conceitos estes muito próximos da realidade do dia a dia do aluno e colocá-lo para voltar milhares de anos atrás para entender, Pré História, Egito (distante até mesmo na realidade dele), tentando mostrar para eles que alguns conceitos que vemos hoje em nossas vidas foram criados na Grécia (Democracia, Filosofia, Mitos, Lendas etc.), explicava como eram feitas as questões religiosas dos gregos, que suas cerimônias eram feitas ao ar livre, em altares fora dos templos, onde eram imolados os animais que seriam sacrificados para os deuses e aquelas partes que não eram usadas para as oferendas eram consumidas pelos sacrificantes.
Tudo bonito, tudo lindo, expliquei como eram os deuses, sua divisão hierárquica, como foi criado o mito da imortalidade de Zeus, através de sua luta com Cronus seu pai devorador. Explicava que estes deuses gregos eram iguais aos homens em suas emoções, só se diferenciavam por conta do poder e imortalidade destes. Falava de como surgiu a deusa Palas Atena, surgida de uma marretada na cabeça de Zeus, por seu filho Vulcano e emergindo dessa cabeça aberta uma deusa plena completa, com roupa, lança, escudo, elmo etc. Lógico tinha explicado a eles um pouco antes sobre os mitos, os reais (aqueles que conhecemos e respeitamos como: Pelé, Ayrton Senna, Roberto Carlos e outros) e os imaginários ou folclóricos (Mula sem Cabeça, Saci Perere, Boitatá, Curupira etc.) exemplos que os alunos mesmo enunciaram.
Como dizia, tava indo tudo bem, tudo normal, uma aula “beleza”, até que a anta mitológica aqui resolve ser “O professor de História antenado com as Leis Educacionais” e baseando-se na lei 10639/2003, onde a História da África e dos povos Africanos devem ser ensinadas paralelamente aos conteúdos normais visto a importância de sua cultura para a formação da nossa, começo a falar sobre a criação do mundo pelas tradições africanas e como surgem os deuses africanos. Humm começa a tensão. Um aluno me joga nos peitos: Professor o senhor é MACUMBEIRO? Tentei mudar o rumo da conversa, mas ficou difícil.
Sai com a tradicional resposta:
- Não sou macumbeiro, num bato Makuba, num bato tambor.
A Resposta foi direta e taxativa:
- Por que esse povo que faz macumba, coloca um monte de despacho lá na porta da minha casa. Suja tudo, coisa absurda.
Ai comecei a raciocinar com o ocorrido, visto que não foi um fato isolado apenas dentro de uma das salas de aula que leciono. Dou aula em quatro turmas de Sexto Ano. Como as pessoas são preconceituosas e esse preconceito é formado pelas diferenças entre os homens de hoje, com relação à religião.
Uma aluna falava que o pastor dela dizia que essa coisa do demônio feito pelos macumbeiros. Dai interrompi e a interpelei com uma dúvida:
- Enquanto eu estava falando de coisas que estão longe, mortas, desaparecidas como a religião grega tava tudo bem, mas, se é com relação a Afro-Brasileira ai a coisa complica..
Foi ai que comecei a fortalecer essa questão de preconceito. Essa mesma aluna começou a dizer que a Bíblia fala que isso é uma coisa errada essas coisas de despachos, e tudo mais. Parei e voltei para a questão dos mitos, tentando colocar uma água na fervura, mas a mesma insistia que tinha aprendido na Bíblia que isso era errado e coisa e tal. Não tive jeito, tive de ser professor:
- Meu anjo você sabe quem escreveu a Bíblia?
- Ahhh!!
- Repito a pergunta, você sabe quem escreveu a Bíblia? Foram os Hebreus, não foram nem os católicos nem os protestantes, claro que a primeira compilação dela foi feita por pessoas ligadas a igreja cristã, como São Jerônimo, por exemplo. Por volta de 1520 mais ou menos, Martinho Lutero, o primeiro Reformador traduziu a Bíblia para o Alemão e começou então as modificações nos livros do Velho Testamento.
Os alunos a essa altura começaram a parar para ouvir o que eu dizia com mais afinco.
- Os Hebreus que foram o primeiro povo monoteísta, foram os que realmente escreveram o Velho Testamento e daí veio o mito de Adão e Eva…
Ai a porca torceu o rabo realmente:
- Mito? Adão e Eva não é mito.
Puxei então a Bíblia que tenho no meu Palm e perguntei para a aluna:
- Meu doce, cita pra mim a família de Adão e Eva
- Adão, Eva, Caim e Abel.
- Mais alguém?
- Não.
- Bom então vamos ler a Bíblia. Gênese Capítulo 4 Versículos 16-17 – 16. Caim retirou-se da presença do Senhor, e foi habitar na região de Nod, ao oriente do Éden. 17. Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Henoc. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome de seu filho Henoc. Se você me diz que só tinha Adão, Eva, Caim e Abel, de onde surgiu a mulher que casou com Caim?
O silêncio se fez presente na sala, a menina engasgava sem nada dizer apenas me olhando. Continuei minha aula explicando que o panteon de deuses gregos assemelhava-se ao Africano, assim como se assemelha a vários outros panteons de deuses. Com funções e atitudes próprias de cada um. Que, o que os gregos faziam com suas oferendas (parte era ofertada na fogueira para os deuses e parte era comida entre os que estavam fazendo a oferenda) era igual ao que é feito em um centro de religião afro.
Sai da sala com um pensamento na cabeça o que me levou a escrever essas linhas. Por que as pessoas acabam vendo sua religião como sendo a perfeita, as demais só possuem defeitos? Por que enquanto você que é professor de História está falando de sacrifícios, ofertas a deuses e etc., por vários povos da antiguidade ninguém reclama, pelo contrário, acham interessante estudar isso. Mas se falamos de Candomblé, Umbanda, as pessoas torcem o nariz?
Chego a conclusão que a intolerância esta além da questão religiosa, vai mais para o fato de serem religiões que vieram dos escravos. As diferenças entre católicos e protestantes iniciam ainda com Lutero, e permanecem como uma intolerância grande por parte de certas denominações protestantes, por conta da não aceitação de Maria, dos santos, de que os católicos adoram imagens (uma besteira já mais que provada que não é isso que acontece, mas fazer o que?). Porém, quando se fala de coisas ligadas às religiões Afro a coisa torna-se inquisitorial, “coisa do Demônio”. Pergunto: O que é coisas do Demônio? Se não a intolerância, pois como sempre digo, sou Católico por opção, fui criado em uma família espírita, mas, vejo que a intolerância é antes de tudo um dos grandes males que temos hoje em dia, por existirem as diferenças dentro das religiões existentes hoje. As coisas que sempre pergunto a todos são:
- Que igreja Cristo criou?
- Quem criou as normas das religiões?
- Quem determinou se devemos ou não aceitar a religião dos outros? Por que criticamos tanto?
- Se o Deus é o mesmo, por que diferenças entre as pessoas que seguem cada uma das religiões?
Já vi que são dúvidas que vou morrer e não vou saber a resposta, por isso que todos os dias em minhas orações ou no Terço que rezo, sempre coloco um pedido a Deus.
- Senhor, acabe com as religiões e que sejamos todos somente seguidores de tuas determinações.
Pode parecer uma bobagem o que escrevi e falei, mas, sempre entendi religião como uma coisa feita pelo homem e como o homem é falho e pecador…
Bom fica aqui para refletir. Deus que nos ajude a entender.
Rio de Janeiro, 15 de Novembro de 2009 – 120º ano da Proclamação da República
*Lugus Chrispino é o pseudônimo de Luiz Gustavo dos Santos Crispino, professor de História da rede pública de Niterói e de outras instituições.
Por Lugus Chrispino, em 18/11/2009 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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