Chico Xavier e a Bhagavad Gita: luz no caminho
A Gita apresenta um método de superação do egoísmo a partir da disciplina do sagrado coração, sede do Espírito Santo (Atman), conforme os quatro seguintes pilares básicos (upáyas): (a) a natureza da meta a ser buscada (upasya vastu); (b) a disciplina que nos faz convergir para esta meta (upasana); (c) os pré-requisitos e as qualidades necessárias ao discípulo (upasaka); e (d) a forma de operar no mundo externo (jagat vyavasaya), de modo a atender as necessidades da disciplina interna que conduz à meta. Cada um destes quatro temas discutidos na Gita aparece, com maior ou menor ênfase, em praticamente todos os grandes sistemas religiosos do mundo. No budismo, por exemplo, tomam a forma das Quatro Verdades Sagradas, enunciadas no primeiro sermão do Buda, logo após a sua iluminação. A primeira verdade refere-se a duhkha, ou sofrimento a que todos estamos submetidos. A segunda verdade identifica no desejo a causa de todo sofrimento. A terceira afirma que a cura para o sofrimento é possível através da remoção de sua causa (o desejo). Uma vez que o desejo é eliminado, o sofrimento acaba e se experimenta o nirvana. A quarta verdade delineia a sagrada disciplina óctupla do Buda para a realização deste fim. Tais proposições estabelecem, portanto, (1) o diagnóstico do mal que nos acomete; (2) a identificação da causa do mal; (3) a descoberta da sua cura; e (4) a prescrição do tratamento.
No texto Nos Domínios da Mediunidade, André Luiz vale-se da irmã Celina para exemplificar alguns sinais do caminho para a transcendência. O texto deixa claro que as dificuldades são vistas com desânimo apenas enquanto se atua sob a influência do ego. Elas não desanimam o fervoroso discípulo que já consegue se mover em consonância com os valores da consciência. Se a alma deixa-se arrastar pelo egoísmo, fica sujeita às experiências do mundo sob as formas materiais mais grosseiras, onde as trevas e o mal parecem superar a luz e o bem. Celina, entretanto, em postura de reverente entrega, percorre um caminho oposto àquele ditado pelo egoísmo, que torna turva e pesada a consciência. Celina é levada a perceber que o real inimigo é aquele que reside em nós mesmos, sob as diversas roupagens do egoísmo (p. 118). Celina é a porta-voz do instrutor e nos lembra que “nossa alma vive onde se lhe situa o coração”. Representa um canal por onde se manifesta a consciência de que até mesmo os nossos piores inimigos são, antes, nossos amigos, pois que representam contra-exemplos, indicando-nos os caminhos a se evitar. Por isto pede o instrutor que se manifesta através de Celina: “vigiemos o pensamento, purificando-o no trabalho incessante do bem” (p. 120).
A mera filiação a qualquer instituição religiosa de nada vale, sem este compromisso interior de renúncia ao egoísmo e entrega ao trabalho em favor do bem-estar do mundo. São os nossos atos, lembra o instrutor, que geram, nos outros, novos pensamentos (p. 122). O texto de André Luiz deixa isto claro, quando afirma “com todo respeito que devemos ao Espiritismo, é imperioso lembrar que a Benção do Senhor pode descer sobre qualquer expressão religiosa” (p. 145). Nesta discreta passagem, que para muitos passou despercebida, o instrutor revela os rudimentos, tanto da milenar teoria indiana do Avatara, como sobre a disciplina prescrita por Krishna na Gita para se ter acesso às Benções sagradas. A interpretação da mensagem do instrutor depende da elevação moral da médium: “o pensamento é tão significativo na mediunidade, quanto o leito é importante para o rio” (p. 122). Bons pensamentos geram bons desejos e estes nos impulsionam à sua realização. As “águas puras”, descidas do instrutor, de nada valeriam se vertidas sobre “um leito de lama pútrida”. Para que desçam as mensagens divinas, portanto, necessita-se de canais adequados, pois nenhum mensageiro do Céu faria “fulgir a mensagem celestial em nosso entendimento, quando o espelho de nossa alma jaz denegrido pelos mais inferiores dos interesses” (p. 123).
Conforme temos argumentado, a Gita trata da formação e do desenvolvimento dos canais de conexão com o sagrado e Krishna representa o Avatara da Grande Síntese Dialética do Sagrado. Representa aquele que desce a este mundo para revelar o puro yoga, capaz de conduzir o aspirante de qualquer religião, filosofia, ou escola de pensamento, à comunhão divina. Segundo a Gita, considera-se como renúncia (samnyasa) ao poder conferido pelo Espírito (Atman) que nos possibilita, tanto perseverar na prática da ação necessária, mesmo que desagradável, como evitar a ação desnecessária, mesmo que agradável. Tal capacidade de renúncia, característica do verdadeiro samnyasin (yogi), decorre do desenvolvimento da habilidade de discernir entre os chamados da consciência, que nos convocam para a batalha interior, e os chamados do ego, que nos convidam a aliviar a tensão e a satisfazer a nossa natureza inferior com prazeres temporais e falsas noções de dever e compromissos sociais. Em suma, na Gita, ‘renúncia’ (samnyasa) significa sublimação do ego’ (ahamkara) através da gradual substituição do funcionamento ‘guna-para’ pelo funcionamento ‘atma-para, conforme discutimos nas seções anteriores. Quando o ego, também chamado na literatura teosófica de ‘eu inferior’, sujeita-se ao Atman, ou ‘Eu Superior’, pode-se dizer que a consciência do discípulo orienta-se unicamente pelo sagrado coração.
Como o Atman não nos é perceptível de início, temos que buscá-lo através da negação do que lhe é oposto, ou seja, o ego. Deste modo, ao renunciarmos aos descaminhos do ego damos forma mental aos caminhos que nos aproximam do Atman, que, aos poucos, se deixa revelar. Logo, o ego (ahamkara) representa um excelente guia, pois nos indica uma direção que, se tomada em sentido contrário, nos aproxima do que é sublime e sagrado. Daí ser o ego (ahamkara) o motivo e a causa de todos os sacrifícios e práticas de austeridade. Ao renunciarmos aos convites que vêm do mundo, acabamos por visualizar o que nos aproxima de Deus. O engajamento no mundo com tal atitude de renúncia ao egoísmo revela a razão de ser do próprio mundo – funcionar como canal e instrumento para que nos percebamos como parte de um todo, absolutamente sagrado. Visto desse modo novo, o mundo torna-se um campo perfeitamente projetado para que expiemos as nossas imperfeições e nos conectemos com a nossa natureza superior. Quando alcança tal compreensão, o renunciante (samnyasin) descobre o caminho da iluminação interior, tal qual o próprio Buda e outros Avataras, que experimentaram da plenitude do estado de tyaga, ou seja, do estado de espírito de entrega total, com alegria, amor, destemor, fervor e devoção, ao sagrado.
Em suma, a Gita chama de yogis aos seres que, tendo abandonado o funcionamento egoísta (guna-para), entregaram-se à vontade de Deus, entendida como samnyasa e tyaga, ou seja, a capacidade de atuar de forma in-egoísta e absolutamente altruísta.
Continua…
Este texto é parte da coletânea “Chico Xavier e a Bhagavad Gita”, que trata da universal disciplina do coração, conforme revelada por Krishna na Bhagavad Gita, e a sua interpretação depende, em parte, do contexto geral da série, que pode ser entendida como os capítulos de um livro.
*Rubens Turci é doutor em Filosofia (UFRJ) e em Estudos Religiosos (McMaster University) e pesquisador do Laboratório de Estudos da Índia e Ásia do Sul (LEIAS) da UFRJ.
Por Rubens Turci, em 27/08/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.

























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