Chico Xavier e a Bhagavad Gita: espiritualidade e heresia
Acima, retrato de Chico Xavier.
“Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão – porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos – pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável.” Martinho Lutero
Hoje é comum ouvir-se falar em ‘espiritualidade nativa’, ‘espiritualidade feminina’, e assim por diante, para designar aquilo que as religiões institucionalizadas nem sempre conseguem abranger. O termo funciona como um esforço para unir, antes que para dividir. Em linhas gerais, define-se ‘espiritualidade’ como a vida interior e o conjunto de práticas que a sustém, sem que isto se dê necessariamente em associação com qualquer religião institucionalizada. É através deste termo que se pode colocar juntos, sob uma mesma categoria, pessoas tão distintas quanto o Bispo Desmond Tutu, Dom Helder Camara, Gandhi, Tolstoy, Joana D’Arc e o Dalai Lama Tenzin Gyatzo, por exemplo. O termo ‘espiritualidade’ empresta fôlego novo para lidar com as antigas divergências e se apresenta com um bom candidato para substituir o papel que se atribui à ‘religião’.
A espiritualidade está sempre presente entre os defensores da paz e da justiça [LE, Introdução, item I] e é neste campo que se destaca a figura de Chico Xavier. Por não se ocupar dos aspectos institucionais da religião, a sua mensagem não agride outras instituições e os seus dogmas. Do seu exemplo de vida, apreendemos que os valores morais são plenamente cultivados quando o ser humano, em decorrência das práticas espirituais, está aberto para as distintas ‘vozes’ do super-humano. Através do olhar de Chico Xavier, somos convidados a refletir sobre todas as utopias e processos destinados a nos trazer a paz e a justiça. Sem ser profético, sem querer anunciar a verdade a qualquer custo, ele se apresenta quase como um ascético. E, mesmo sem se ocupar da política, a sua ação tem consequências transformadoras na sociedade, com a sua vida servindo de modelo para a obtenção da justiça social.
Ao renunciar à violência em palavra, pensamentos e atos contra o reino humano e não-humano, Chico Xavier integra os seus valores morais dentro de um sistema ético, que somente agora, neste desabrochar de século, começa a se delinear. Ao preferir viver de acordo com ‘a lei do amor de Cristo’, e não conforme ‘a lei de violência das antigas instituições religiosas’, incorpora isto que os modernos acadêmicos vem procurando abarcar pelo termo ‘espiritualidade’. Seu altruísmo faz-se transparente em sua obra, e de um modo singular – ele não faz distinção de qualquer espécie, não exclui este, ou prefere aquele. A sua obra é inclusiva e a sua missão, regenerativa. Nela nunca houve lugar para o preconceito e a discriminação. E, mesmo quando duramente atacado e criticado, jamais revidou. E assim, a sua vida, pode-se dizer, circunscreveu-se entre o Sermão da Montanha de Mateus e o Sermão da Planície de Lucas.
De forma alguma caberia julgar a obra social de Chico Xavier como ingênua ou escapista. Cabe então perguntar: teria ele dado início, em nosso país, a esta nova tradição, baseada na paz verdadeira e na autêntica espiritualidade, que transcende os domínios das religiões tradicionais, e nos remete de volta ao espírito original dos sermões de Cristo? [Sugiro a leitura da obra As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior, ed. Planeta.].
A julgar pelos cem anos desde o seu nascimento, e por todas as mudanças que o mundo experimentou desde então, pode-se dizer que não está longe o dia em que saberemos com certeza esta resposta.
Já houve um tempo, entretanto, em que ‘espiritualidade’ era sinônimo de heresia e se considerava como herética a pessoa que sustentasse crenças religiosas em conflito com os dogmas da Igreja Católica. Tomás de Aquino definia a heresia como a espécie de infidelidade do homem que, tendo professado a fé em Cristo, ‘corrompia’ os seus dogmas. Não se tratava, portanto, de se recusar acreditar em Cristo. Considera-se a estes como ‘infiéis’. Era o caso dos pagãos e judeus. Era considerado herege aquele que, como Chico Xavier, seguia o cristianismo segundo a sua consciência, e não conforme a autoridade da Igreja. Eram considerados hereges, em suma, todos aqueles que acreditavam poder defender racionalmente as suas razões para duvidar, bem como aqueles que liam, estudavam, ou sabiam os conteúdos de livros não autorizados pela Igreja.
No passado só era considerado um verdadeiro cristão aquele que demonstrasse fé absoluta na soma total das verdades propostas pela Igreja, as quais comporiam as únicas escrituras sagradas [ESE, Cap. XIX, itens 6-7]. Por outro lado, era considerado herege todo aquele que se reservasse ao direito de submeter as proposições da Igreja ao exame da sua própria consciência. Considerava-se que o herege era ignorante do credo ‘verdadeiro’ e que julgava ‘erroneamente’. As causas da ‘heresia’ estariam na convicção na intuição e na ilusão de que se possuía um fervor religioso tal, que superaria os dogmas de fé propostos pela autoridade eclesiástica. A heresia era sinônimo da arrogância intelectual de se julgar em posição de desafiar a autoridade da Igreja. Era consequência da perniciosa inclinação do intelecto para aderir a doutrinas declaradas como falsas. As razões heréticas para se ousar questionar o ‘Princípio de Autoridade’ da Igreja incluiriam também a sede de poder político ou eclesiástico e os interesses de ordem material ou pessoal. Representava, no dizer de então, a ‘obstinada’ adesão a um ponto de vista particular, que desafiava a autoridade da Igreja.
A heresia era considerada um pecado grave porque ameaçava destruir a fé na Igreja Romana. O que hoje entendemos como ‘espiritualidade’, por poder caracterizar a adesão a um ponto de vista contraditório com um ponto da fé definida pela Igreja, caracterizaria a heresia de primeiro grau. E mesmo uma proposição doutrinária que não entrasse diretamente em contradição com um dogma, ainda assim poderia gerar suspeita de favorecer a heresia (sententia de haeresi suspecta, haeresim sapiens). Não há dúvidas, portanto, de que Chico Xavier, apenas por sustentar a teoria da reencarnação, seria condenado por heresia, como muitos, no passado, na verdade, o foram. A vida exemplar de Chico, no entanto, fez com que fosse reconhecido como uma pessoa de bem, uma pessoa de elevada espiritualidade. Desse modo, o termo espiritualidade ganha sentido e se molda à prática de vida de Chico Xavier.
O termo espiritualidade está, aos poucos, entrando no discurso religioso e arejando as crenças exclusivistas em relação aos meios para se alcançar a salvação [ESE, Cap. XV, itens 8-9]. Se a descrença (infidelitas) antes era vista, no dizer de Tomás de Aquino, como a maior dentre todas as formas de perversão, agora torna-se simplesmente um outro modo de expressar a própria ‘espiritualidade’. Privar-se de um dogma, deixa de ser pecado.
A pessoa que prefere se dizer espiritualista o faz não porque ignore certos dogmas, mas simplesmente porque não lhes dá crédito. Quem aceita a doutrina da reencarnação, por exemplo, não pretende se revoltar contra a autoridade ‘divinamente constituída’, nem pretende abandonar por completo os dogmas cristãos. Muitos modernos espiritualistas têm fé em Cristo, tal como tinham os antigos hereges. A diferença é que estes agora são aceitos enquanto aqueles eram perseguidos. E é nesse processo que a vida de Chico Xavier se inscreve de maneira paradigmática. Ele comete heresia porque divulga a doutrina da reencarnação e é ‘cismático’, ou seja, não se submete à Autoridade da Igreja por intenção e vontade própria (característicos do cisma). Entretanto, permanece amigo da Igreja e os membros da Igreja de hoje o vêem como a um amigo. Logo, já não se pode dizer que seja herético, no sentido antigo do termo, e sim ‘espiritualista’, conforme modernamente definido.
A heresia era vista como uma erva daninha, que dependia, para o seu crescimento, de certas condições. Necessitava de seres de vontade forte e decididos na ação, mas que não fossem dotados de grande inteligência, ou capacidade de aprendizado. Necessitava também de um solo propício onde pudesse germinar. Logo, qualquer homem de vontade, em sintonia com seu tempo, e manipulado por alguma força ou interesse, poderia desvirtuar a religião verdadeira e construir uma seita herética. Daí ter sido função da Igreja no passado o combate à esta conjunção de fatores que poderia por em risco a própria estrutura da Igreja. Daí ter sido necessário o combate aos primeiros Judeo-cristãos, aos Judeo-gnósticos, aos Nazarenos, aos Marcionitas, aos Maniqueus, aos Cártaros, e muitos outros. Em comum, estas seitas cristãs do passado apresentavam certa ‘fascinação’ pelos valores e especulações, conforme desenvolvidas pelos mestres do oriente. E, em nome do depositum fidei (demonstração de fé), foram todas dizimadas em conformidade com a aplicação do método agostiniano de identificação de hereges. Somente a partir de Lutero passaram os heréticos, agora organizados em torno do Protestantismo, a terem melhor sorte.
Segundo a análise eclesiástica, unir-se-iam em Lutero os três elementos essenciais para o desenvolvimento da heresia. Rude e com muitas fraquezas, era homem do seu tempo e contava com a proteção de Frederico da Saxonia. Por isto, movido pela ambição, atacava a hierarquia eclesiástica e fora a causa de mais de cem anos de guerras, até o estabelecimento, por volta de 1648, do princípio Cujus regio illius et religio (o senhor da terra deverá também ser o senhor da religião), que limitava o poder da Igreja Romana para impor seus dogmas. O argumento da Igreja para legitimar a guerra aos hereges pode-se resumir, mais ou menos, como se segue:
(1) A Igreja Romana entendia que a primeira lei da vida era a de auto-preservação e que negligenciar esta lei levava à ruína e destruição.
(2) Considerava que permitir a negação de seu credo levava à destruição da Igreja. Por isto exigia a prova de fé, antes que a demonstração de qualquer outra qualidade, ou virtude.
(3) Por entender que a liberdade de pensamento estava em contradição com a fé que se professava na Igreja, exigia, que se renunciasse a esta liberdade de pensamento. Exigia a substituição do hábito de dar ouvidos à voz da consciência intuitiva, pela aceitação do magisterium, ou daquele ensinamento que levava a dissolver os resquícios remanescentes das teorias espúrias e suas seitas.
(4) Por reconhecer que a heresia era uma erva daninha de veneno mortal, gerada dentro do seu tecido, a Igreja entendia que ela precisava ser combatida e destruída.
(5) Entendia também que a função de ensinar e evangelizar pertencia exclusivamente à hierarquia da Igreja, através de sua ecclesia docens (o episcopado, a hierarquia).
Entendia a Igreja que, uma vez membro da Igreja, através do batismo, não se podia mais professar, fora do campo dos dogmas, a liberdade de pensamento. E esta se regulava segundo os escritos de Santo Agostinho. Quem recebera o batismo encontrava-se sob jurisdição da Igreja e poderia, por ela, ser declarado herege e combatido – pelo menos até 1648, quando o acordo que estabeleceu o princípio Cujus regio illius et religio (o senhor da terra deverá também ser o senhor da religião), passou a proteger aqueles protestantes que se afastavam da influência da Igreja Romana.
Continua…
**Este texto é parte da coletânea “Chico Xavier e a Bhagavad Gita”, que trata da universal disciplina do coração, conforme revelada por Krishna na Bhagavad Gita, e a sua interpretação depende, em parte, do contexto geral da série, que pode ser entendida como os capítulos de um livro.
*Rubens Turci é doutor em Filosofia (UFRJ) e em Estudos Religiosos (McMaster University) e pesquisador do Laboratório de Estudos da Índia e Ásia do Sul (LEIAS) da UFRJ.
Por Rubens Turci, em 02/07/2010 - 00:01. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























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