Capitalismo de Estado, será o Socialismo do século XXI?
Recentemente li um artigo sobre o novo livro do cientista político norte-americano Ian Bremmer sobre o crescimento do capitalismo de Estado no mundo. Em que pese não ser o assunto de minha preferência, em razão de minhas convicções político-ideológicas, não posso me furtar a abordá-lo. Embora o autor entenda que o sistema de livre-mercado vai prevalecer, cremos que talvez a discussão não seja exatamente a prevalência desse sistema, mas a forma dessa prevalência, o que nos leva a refletir sobre a natureza desse novo capitalismo, com grandes bancos e seguradoras à beira da bancarrota, fora outras grandes empresas, o que fez acender o sinal amarelo para a economia de livre-mercado, posto que tais instituições tiveram que ser socorridas pelo Estado, ou seja, foi usado dinheiro do contribuinte (que deveria ser utilizado na consecução do bem comum) para tapar o rombo deixado por administrações insensatas que em nome desse livre-mercado prega o lucro fácil e valorizado gerado pela especulação financeira, deixando de gerir suas instituições com a adequada aplicação de seus ativos financeiros no aumento da sua produtividade.
Tal quadro indicaria o ressurgimento da intervenção estatal na economia? A mudança da mesa internacional de negociações, composta pelos representantes do G-7, todos campeões do capitalismo neoliberal, para a ampliada mesa do G-20,que incorpora países críticos do livre-mercado como China, Rússia e Índia, entre outros, já é uma sinalização de eventuais transformações no paradigma da economia mundial, porque para muitos o livre-mercado fracassou na manutenção e na ampliação da prosperidade do planeta.
Entretanto, o que isso teria haver com o ressurgimento do socialismo neste século, depois da débâcle sofrida com o fim do comunismo no leste europeu nos anos 90? Quando Gorbatchev anunciou o fim da URSS, Deng Xiao Ping lançou sua reforma de livre-mercado na China e até Fidel Castro cedeu à necessidade de experiências capitalistas em Cuba, nada parecia mais certo do que o triunfo do capitalismo de livre-mercado, tal como em 1919, após a I Guerra Mundial, nada parecia mais absoluto que o triunfo do ideal democrático. Contudo, o desenrolar dos acontecimentos mostrou que sair de uma economia planificada socialista para uma
economia de mercado não é tão fácil como parece, e foi a China e não a Rússia, que melhor soube interpretar o real significado da extinção da União Soviética e dos seus satélites.
O Partido Comunista Chinês percebeu que se não gerasse prosperidade e acesso a bens de consumo para sua população cairia do poder. E percebeu, ainda, que o crescimento econômico que garantiria esse bem só ocorreria com a liberdade para inovações tecnológicas e para as latentes energias empreendedoras da enorme população chinesa e, finalmente, viu também que tão logo fosse libertado esse potencial, o monopólio político do partido comunista só permaneceria se o Estado controlasse a maior parte possível da riqueza gerada nesse processo, que os mercados viessem a proporcionar, mantendo, desse modo, o sistema político autoritário do comunismo. A estratégia chinesa fez escola e outros campeões do autoritarismo sentiram que suas economias planificadas iriam soçobrar, então, para evitar que o livre mercado fugisse ao controle, inventaram o capitalismo de estado, bem diferente daquele que se imputava ao regime militar brasileiro pelo “estadismo”que marcou o período. Neste novo sistema os governos se utilizam de empresas sob controle estatal para gerir aquelas consideradas estratégicas, e para gerar e manter uma grande quantidade de empregos. Designam empresas privadas para dominar alguns setores econômicos, e usam os fundos soberanos para investir o dinheiro excedente e potencializar os lucros do Estado que, em última análise, se utiliza dos mercados visando gerar riquezas que possam ser canalizadas para a satisfação dos interesses dos políticos.
O Brasil, bem como outros Estados emergentes, também foi seduzido por este novomodelo. Com uma roupagem de esquerda, o presidente Lula se respalda na responsabilidade social com o aumento do investimento em programas assistencialistas, elegendo como campeões do controle privado os setores de mineração e de telecomunicações, sendo que a Petrobrás e a Eletrobrás têm umpapel estratégico em termos de presença do Estado Brasileiro na economia e, desse modo, angariando os fundos essenciais ao financiamento da sua política assistencial. Agora, só falta a ampliação do fundo soberano para fechar o ciclo.
Apesar de tudo isso, não se pode, ainda, considerar o Brasil um país “capitalista de estado”. A democracia estável faculta o controle do poder do Estado, com a opinião pública apoiando o comércio, o investimento estrangeiro, mas com um fundo soberano pequeno em face de outros países emergentes.
Pelo exposto, a eleição deste ano se reveste de especial importância em função das riquezas provenientes do présal.
Um novo governo que pretenda seguir a linha econômica do atual, tendo a responsabilidade de administrar a maior reserva petrolífera do mundo, certamente caminhará muito mais próximo ao capitalismo de Estado, com seu alto grau de intervencionismo econômico, mas neste caso com a finalidade precípua de proporcionar um dirigismo estatal no sentido de viabilizar verbas para utilização “política”. É o renascimento, versão atualizada, do dirigismo da economia levado a cabo pelos falecidos Estados Socialistas. Será o socialismo do século XXI? Um governo que não siga tal estratagema político-econômico provavelmente se entregará ao livre-mercado, e não se pode sequer imaginar a fórmula que será usada para manter a prosperidade nacional e o crescimento econômico da nação. Convenhamos, será que vale a pena correr o risco?
Blog: www.amaurycardoso.blogspot.com
*Amaury Cardoso é físico do IMETRO / IPEM-RJ, pós-graduado em Administração Pública e Políticas Públicas e Governo. Pós-graduado em Gestão Pública. Membro e delegado do Diretório Municipal / Rio e do Diretório Estadual/RJ do PMDB.
Por Amaury Cardoso, em 17/08/2010 - 00:03. Você pode acompanhar as respostas a este texto acessando o leitor RSS 2.0.


























Siga a Revista Debates Culturais pelo
Curta a Revista Debates Culturais no 


[...] Original post: Capitalismo de Estado, será o Socialismo do século XXI? | Debates … [...]
[...] Excerpt from: Capitalismo de Estado, será o Socialismo do século XXI? | Debates … [...]
Será, e – ao meu ver – reforçará ao máximo a potência do Estado. O que nos levará a possíveis encontros militares entre forças multipolares. Como foi no início do séc XX.
Maior reserva petrolifera do mundo? Fumando crack é? Brasil tem MUITO menos que os grandes reservistas de pretroleo.