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Viriato Moura

Telemedicina, quando a distância é um obstáculo

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), telemedicina é uma oferta de serviços relacionados aos cuidados com a saúde quando a distância é um fator crítico, ampliando a assistência e a cobertura. Esses serviços são prestados por profissionais da saúde, usando tecnologias de comunicação para o intercâmbio de informações com vistas a promoção da saúde, proteção e redução de riscos de doenças e outros agravos, e recuperação dos doentes. A telemedicina propicia ainda facilidades no incremento do educação continuada dos profissionais, cuidadores e demais pessoas envolvidas na assistência aos enfermos, assim como facilita pesquisas, avaliações e gestão do setor nas diversas comunidades, em particular naquelas mais carentes.
Viriato Moura

É preciso humildade até no exercício da Medicina

Sou médico de longa caminhada. Desde os primeiros passos da minha trajetória percebi, felizmente, que a ciência que abracei profissionalmente não permitia arroubos de prepotência. O médico precisa ter noção de suas limitações, eis o que torna indispensável que seja humilde. O mais importante aforismo de Hipócrates, o pai da medicina, postula: “Primeiro, não causar dano”; por isso nele deve se fundamentar a conduta médica. A despeito do muito que a medicina avançou nas últimas décadas, ainda não domina, como seria o ideal, todos os caminhos que levam à cura. Há sempre riscos, ainda que, por vezes, estatisticamente insignificantes, de algo dar errado. Mesmo os médicos mais sábios e experientes estão sujeitos a resultados que não desejam das terapêuticas que prescrevem.
Viriato Moura

Gestos que podem melhorar o mundo

Em recente estada em São Paulo, ao tomar um táxi que me levaria de volta ao hotel, fui surpreendido por dois gestos simples, porém definidores de uma conduta a ser praticada por cada um de nós para melhorar o mundo. Aquela que é a maior capital brasileira, tem o maior problema brasileiro de trânsito, como se sabe. Como se não bastasse o excesso de veículos, nos dias chuvosos há alagações que além de obstruírem as vias urbanas causam prejuízos aos proprietários dos veículos que lá circulam. Um agravante corriqueiro nessa situação já caótica ocorre quando há acidentes de qualquer ordem que dificultam o fluxo do tráfego. É frequente ouvirmos pelo rádio informações sobre engarrafamentos, por vezes quilométricos.
Viriato Moura

A literatura como remédio

Quando da construção da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o jornal "The Porto Velho Marconigram", o segundo publicado em inglês que circulou aqui naquela época, trazia uma frase, a única em espanhol, embaixo do título do periódico: “La vida sin literatura y quinina, és muerte“. No meio da adversidade quase intransponível da floresta amazônica, a literatura foi equiparada ao mais importante medicamento da época, posto que tratava a enfermidade que mais matava os trabalhadores da ferrovia. A possibilidade do efeito terapêutico da literatura fora percebida desde a Antiguidade. O faraó Ramsés II considerava sua biblioteca como uma farmácia.
Viriato Moura

De mal a pior

Muito já se disse e escreveu sobre o atual governo de Dilma Rousseff. As mais recentes manifestações populares vieram confirmar o que já se estava cansado de saber: seu governo anda de mal a pior. Quando o criticado diz apenas que aceita críticas porque numa democracia o direito ao contraditório é pedra basilar, nada assegura sobre o que dele se pode esperar como efeito pragmático dessas críticas. Na maioria das vezes diz até discordar de seu conteúdo ou pelo menos tenta se justificar. A primeira condição para críticas atingirem seus objetivos de mudança é que o criticado aceite que está total ou parcialmente equivocado no que se refere à discordância em questão. Isso, lamentavelmente, é o que não acontece com a maioria dos homens públicos.
Viriato Moura

Pilotos que derrubam aviões

Nas últimas décadas, às falhas mecânicas e humanas por negligência ou imperícia foram acrescidos os atentados terroristas, que têm provocado pânico nos países mais vitimados por eles. Na recente queda, uma surpresa estarreceu o mundo: concluiu-se, em pouco tempo, que foi o próprio copiloto da aeronave que, deliberadamente, jogou-a contra o solo. Como se não bastassem os motivos inerentes a condição de estar desafiando a gravidade, para temer as viagens nesse transporte, eis que surge mais uma possibilidade: a de que seja derrubado por quem o conduz.
Viriato Moura

Agradecer é preciso!

Nas relações interpessoais é preciso que a gratidão seja incluída com mais frequência. A maioria de nós é pródiga em reclamar daqueles com quem nos relacionamos e a não dar o devido valor a quem nos ajuda. Honoré de Balzac ensinou que a gratidão perfuma as grandes almas e azeda as almas pequenas. Alguns, sob o domínio de sua pequenez de caráter chegam a achar que ser grato é algo que os reduz porque engrandece a quem é merecedor desse nobre sentimento. Quem assim pensa e age denuncia sua má índole e não deve ser merecedor de confiança e apreço. É um ser que se faz menor.
Viriato Moura

Resta-nos o Natal…

Este foi um ano denso de acontecimentos. Tivemos a Copa do Mundo, que foi antecipada por dúvidas quanto à estrutura para recebê-la e quanto a possíveis reações daqueles que se posicionaram contra o evento alegando que o governo tem outras prioridades de maior importância social para investir. Mesmo que o Brasil não tenha feito tão bonito como deveria no quesito estrutura, o alegre e hospitaleiro povo brasileiro deixou boa impressão nos estrangeiros que vieram participar do evento.
Viriato Moura

Sobre os entusiastas da cultura e o preço da ignorância

Um ser culto dispõe de armas poderosas para se contrapor às muitas investidasde tocaia nas encruzilhadas da existência. Sabe melhor discernir, tomar decisões; enfim, escolher adequadamente com mais propriedade. Não é ovelha que acompanha o rebanho sob ordens dos que o conduzem ao bel-prazer de seus propósitos nem sempre nobres. É, sim, um ser possuidor de uma carapaça que o protege e o distingue a ponto de inibir ataques inescrupulosos de indivíduos dissimuladores, que manipulam o coletivo apenas para obter vantagens pessoais.
Viriato Moura

Propaganda eleitoral e debates, esclarecem ou confundem?

Há muito que não se vê tanto interesse numa eleição como na que se avizinha. E isso é bom: significa que os eleitores estão mesmo preocupados com o destino de seu estado e de seu país. Muitos, mais do que antes (espera-se), aprenderam que quem vota irresponsavelmente poderá pagar caro pelo seu ato. A propaganda eleitoral e os debates, enfim, o que os candidatos dizem que são, o que fazem, e, principalmente, o que farão, podem contribuir para um melhor esclarecimento dos eleitores. Porém, lamentavelmente, as atitudes dos vencedores do passado, não têm se compatibilizado com seus atos.
Viriato Moura

Reaja torcida brasileira!

A derrota de nossa seleção está longe de ser uma grande catástrofe diante de tantas que vivenciamos no nosso cotidiano. Um país que se dá a respeito não funciona tanto ao sabor do acaso, do “deixa pra lá pra ver como é que fica”, do “a gente resolve isso depois”, e assim por diante. Sem competência, ordem, disciplina, compromisso e determinação em direção ao acerto, as coisas tendem a dar errado. E geralmente dão! Temos de aceitar: o acerto não tem sido o nosso forte. Simplesmente porque não o buscamos na medida que deveríamos.
Viriato Moura

O país do oba-oba

Não adianta negar. Somos deste jeito: na base do oba-oba, do Maria vai com as outras, da imitação contumaz, e assim como a vida dos outros nos levar. Lembram das manifestações de rua que acometeram o país desde os meados do ano passado pelos tais vinte centavos de acréscimos nas passagens de ônibus em São Paulo? Lembram-se das manifestações contra a realização da Copa do Mundo no Brasil? Lembram-se das previsões catastróficas feitas pela maioria em relação a esse maior evento futebolístico do mundo?
Viriato Moura

Procura-se a honra da palavra

As palavras desonradas são petardos sempre engatilhados para nos provocar algum tipo de dano. Mesmo aqueles que são materialmente pequenos, têm uma dimensão diferente em cada enganado no que tange à frustração decorrente da decepção com quem as proferiu. A palavra, que no passado era avalizada por um fio de cabelo de bigode, há muito foi estuprada. E qualquer um acha-se com direito de usar e abusar dela, de todos os jeitos e posições, e depois esquecê-la como se nenhuma relação ou compromisso tivesse com o que disse através dela.
Viriato Moura

Barrados no teatro

Foi alvissareira, ainda que com atraso de quase duas décadas, a notícia de da inauguração, sexta-feira 20, do nosso teatro estadual. Não completamente, como já era mais do que tempo de acontecer, mas uma sala, a menor do Palácio das Artes, para 236 pessoas. O nome escolhido, Teatro Guaporé, que faz referencia ao território que um dia foi esta unidade federativa, pelo menos não gerou a polêmica que geraria se colocassem, a revelia das cabeças pensantes desde estado, alguns nomes concorrentes, entre eles aqueles sem qualquer afinidade com as artes cênicas.
Viriato Moura

Boatos maledicentes

As leis deveriam ser mais severas com boateiros ofensivos. Acusar alguém sem que o acusado tenha cometido o ato que lhe é imputado deveria merecer punições mais rigorosas. Construir uma boa imagem leva muito tempo. Por vezes, uma vida. Mas uma nódoa difamatória pode fazer ruir por terra um castelo de boas ações apenas com um sopro maldoso. Divulgar pelas redes sociais e mídia em geral inverdades negativas sem se ter certeza do que se esta disseminando é um atestado explicito de falta de caráter. Está na hora de mudar o rumo dessa prosa. Quem se sentir ofendido injustamente deve empreender ações judiciais por calúnia, injúria e difamação, quando assim requerer o caso. Os ofensores podem não ter caráter, mas é muito provável que tenham algum bem material a perder.
Viriato Moura

EFMM, um patrimônio da humanidade: quando?

Lembram da promessa feita pelo governo de Rondônia, que nos assegurou encaminhar ao governo federal uma proposta com vistas à transformação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) em Patrimônio da Unesco, também chamado de Patrimônio da Humanidade? Certamente que lembram. Afinal, esse alarde foi feito durante as comemorações do centenário da ferrovia, ocorrido no dia 1º de agosto do ano passado. Na ocasião, criou-se um comitê com essa finalidade. O procurador federal Ricardo Leite, seu diligente coordenador, desde há muito vem se empenhando, até além de sua competência, em viabilizar essa projeto que traria, se concretizado, muitos benefícios para esta região, em particular para Porto Velho.
Viriato Moura

Médicos estrangeiros não são o remédio!

Não é de agora que todo mundo sabe que as áreas afastadas dos grandes centros urbanos brasileiros são carentes de médicos. Houve, portanto, tempo mais que suficiente para que se analisasse a questão, com acuidade, antes de se propor algo para solucioná-la como deveria ser. De repente, sai-se o governo como uma medida fantasiada de salvadora, com adereços populistas, bem ao jeito de certas ilhas caribenhas, afagada pela ideologia ultrapassada que ainda contamina as ações do partido que manda no país.
Viriato Moura

Carta aberta a Anderson Silva

Que diabo deu na sua cabeça para entregar, daquele jeito, o seu cinturão de campeão dos pesos médios do UFC para o americano Chris Weidman? O que você fez foi muito grave, Anderson. Não porque perdeu, mas pelo modo como se deixou vencer. Você desrespeitou sua história de um cara de origem humilde que se tornou um bom exemplo de vencedor. Você desrespeitou seu adversário: fez presepadas além da conta. Se queria instabilizá-lo psicologicamente, já tinha conseguido no primeiro round. Por que insistiu nisso a ponto de fazer tudo que não se deve fazer para vencer uma luta de MMA: encostou-se na grade, baixou a guarda, deu a cara a tapa — correu riscos além do aceitável.
Viriato Moura

Tartaruga em cima de árvore

Quando uma tartaruga está no alto de uma árvore, tenhamos certeza: alguém a colocou lá. Assim diz a sutil e didática sabedoria popular. Por isso, quando alguém sem qualquer aptidão específica para determinado cargo o assume, tenhamos também certeza que houve motivo impróprio para que isso acontecesse: por si só, pelos seus méritos, não seria capaz dessa proeza. Quem coloca gente desse naipe nessa posição privilegiada, atende decisões nepotistas, pedidos de amizade, de favores devidos ou pretendidos, de vínculos políticos e partidários, e conchavos diversos. Só não atende a critérios que deveriam ser atendidos com vistas a propósitos realizadores construtivos.
Viriato Moura

Perdidos ou achados?

O recente discurso da presidente Dilma, quando tratou das manifestações populares que tomaram as ruas do país, e elencou suas propostas emergenciais para atender alguns dos anseios populares mais prementes, pretendia ser compressa morna para atenuar a inflamação do movimento, mas tornou-se, de certo modo, um tiro no pé. Antes de a presidente fazer seu pronunciamento à nação, num momento tão decisivo como o atual, deveria ser melhor assessorada e ainda chamar para o meio da roda de fogo, a oposição – que também tem seu quinhão de culpa por esse lamentável estado em que nos encontramos.
Viriato Moura

Está em reunião…

Quanto tempo útil se perde neste país em reuniões que raras vezes são produtivas? Muito. Além da conta. Tente falar com alguma autoridade no horário comercial. A chance de ouvir que ela está em reunião é grande. Reuniões prolongadas são fortes candidatas à improdutividade. Aquelas com mais de meia hora de duração, dizem os estudos sobre o tema, geralmente são um desperdício. Todos querem falar, aparecer para seus chefes. Isso gera repetição. Ficam como cachorros girando em torno do próprio rabo. Reuniões com mais de meia dúzia de pessoas somente quando extremamente necessárias. Informar aos participantes, com antecedência, sobre os assuntos a serem tratados na reunião possibilita que se preparem de modo a contribuir com mais eficiência para encontrar as melhores soluções. Ao pautar mais de dois assuntos, corre-se o risco de não analisá-los com a acuidade suficiente para otimizar as conclusões.
Viriato Moura

Sogras: ame-as se possível

As sogras têm má fama. Com certeza mais por parte das noras que dos genros. Mulher tem bronca de mulher, na maioria das vezes. Dizem até que elas se embelezam para outras mulheres, não para os homens como seria de se esperar. Colocar a mãe da esposa morando na casa do casal pode até não gerar tanto problema. Mas vai colocar nessa condição a mãe do marido: a briga é certa. Dependendo da capacidade das partes em se suportarem é apenas uma questão de tempo. Mais cedo ou tarde, virá.
Viriato Moura

Uma árvore para o além

Os humanos são os únicos seres que têm consciência de sua finitude. Sabem que um dia, mais cedo ou mais tarde, terão de dar adeus definitivo à própria existência. Na tentativa de viver eternamente, alguns cultivam a crença de que existe vida após a morte, numa dimensão espiritual. Tenho um amigo que, por via das dúvidas, quer tanto permanecer vivo de alguma forma após sua passagem que fez uma recomendação enfática a seus familiares. Nada de túmulos de mármore que, segundo ele, enclausurariam ainda mais suas possibilidades de conviver com o que ficou. Ele pediu – e o fez por escrito – que logo após sua inumação, que deverá ser feita sem que nada, além do caixão, separe seu corpo da terra, o plantio, sobre sua sepultura, de um arbusto que produza frutos saborosos – árvores grandes tomariam muito espaço e estimulariam a sanha devastadora dos matadores ambientais.
Viriato Moura

Por que não?

Há expressões que parecem ter sido consagradas pelo uso como verdadeiras: gosto não se discute; religião não se discute, e assim por diante. Não se discute por quê? Quais os motivos minimamente aceitáveis que avalizam condutas de cerceamento da liberdade para discutirmos qualquer assunto? A razão rejeita todos. A princípio, tudo deve ser submetido ao crivo do descrédito. Para acreditar com razão é preciso, inicialmente, desacreditar. Acreditar por acreditar é subserviência, é negação do maior diferencial que o ser humano dispõe: sua inteligência. O mundo, diferente do que esperava que fosse, está abarrotado de gente que acredita num sem contas de aleivosias, muitas delas que não suportam qualquer questionamento pertinente sem caírem por terra. Eis uma grande verdade: acredita-se demais. Dá-se voto de confiança demais. O falso assenta-se à mesa das mentes e participa de banquetes sem pedir licença – e fica à vontade como se fosse convidado. Enquanto o verdadeiro se sente tão constrangido com a desenvoltura e com o prestígio desse seu arqui-inimigo que, por vezes, prefere se recolher em seu canto e ficar calado.
Viriato Moura

50 tons de cinza do médico

Assim como a medicina e os demais aspectos da existência humana, o médico convive com tonalidades diferentes do exercício da profissão. Está proscrito, nesse contexto, o julgamento dualista que tipifica bons ou maus médicos apenas pelo fato de o profissional escolher um caminho diferente daquele que definimos como certo, como melhor. Por caminhos diferentes é possível conviver harmoniosamente com a profissão a ponto de cada um, a seu modo, encontrar nela a realização pessoal e a felicidade. Ressalve-se, entretanto, que não devem ser aceitas opções que firam os princípios éticos e legais, esses que sempre devem ser rejeitados quando contaminam as ações humanas.
Viriato Moura

50 tons de cinza da Medicina

A medicina, como tudo na vida, tem muitos tons – uns aparentes; outros, não. Tons próprios ou que decorrem da incidência da luz, da sombra, da proximidade com outras cores, do ponto de vista, do olho, e do olhar de quem os vê. Os matizes que contextualizam a medicina mostram variáveis diversas que vão do preto até o branco. O preto, sob essa óptica, significa as trevas. Nesse permeio de variações de tons de cinza, quando mais escuro, maior a afinidade com a incompetência, com a negligência e com a imprudência. Essa é a antimedicina, posicionada diametralmente oposta ao que se espera de uma ciência que tem a nobre missão de extirpar ou amenizar sofrimentos e evitar a morte, quando possível.
Viriato Moura

Ser médico dói

Ser médico como deve ser, exige virtudes inerentes a poucos seres humanos. Posso afirmar isso com todas as letras e com convicção porque não o faço apenas por ter ouvido falar, ter lido em muitas publicações, ter aprendido com muitos mestres. Asseguro essa assertiva embasado na vivência de quase 40 anos de exercício da medicina. Ser médico dói. Sim, dói, e não é pouco. E por doer tanto, exige daqueles que optam por essa profissão que estejam preparados para vivenciar os incômodos atrelados a essa escolha; ou seja, ter limiar de dor que suporte sofrimentos a ponto de não levá-los ao desespero, que induz ao abandono, ou à auto-anestesia comportamental, que leva à insensibilidade.
Viriato Moura

O homem que fala com poste!

No meu caminho diário encontrei um homem falando com um poste. Numa esquina, lá estava ele e o poste, cara a cara. Alguns dias depois, novamente o homem, diante do mesmo poste, falando e gesticulando. Por vezes, abria os braços como quem diz “E daí, responde?”. Num dia de transito congestionado, foi-me possível observar mais detidamente o “diálogo” entre aquele homem e o mesmo poste, sem, entretanto, escutar o que dizia. Em dado momento, o homem apontou o indicador direito em riste para a coluna de concreto como quem a acusava de algo. Pela reação do homem, que se seguiu a esse ato, dava a impressão de que a inerte criatura da engenharia se defendia. Entretanto, seu suposto acusador e juiz parecia não estar convencido do que “escutava”.
Viriato Moura

A cara e o resto…

A agenda de pacientes do Dr. Alberto, conceituado psicanalista que atende num confortável consultório na Visconde de Pirajá, em Ipanema, no Rio, encaminhava-se para o final. Da recepção, sua secretária, pelo interfone, informou-o que seu próximo paciente veio acompanhado e fazia questão de que a mulher que estava com ele presenciasse a consulta. Era paciente de primeira vez. Mostrava-se um tanto ansioso, quando cumprimentou o médico, e logo sentou-se a sua frente junto com a acompanhante. Enquanto o Dr. Alberto lia sua ficha digitada no computador pela recepcionista, onde constava sua identificação, Fabiano Alves Mascarenhas, 42 anos, branco, divorciado, professor universitário parecia não se conter: queria desabafar algo que denotava lhe tirar o fôlego.
Viriato Moura

O menino e o trem

Um trem atravessou a infância do menino. Pouco mais de sete anos de idade era o que ele tinha. Desde que fora avisado que iria fazer aquela viagem, ele embarcou em suas esperadas sensações. Todos os dias pareciam chegar, menos o dia da partida. Até que a véspera chegou encontrando sua ansiedade nos trilhos: sua noite foi quase insone. Às quatro da madrugada não se conteve na cama. Seus avós já se movimentavam pela casa. O dia da sonhada viagem finalmente chegou. Por volta das cinco, foram para a estação. Às seis, o trem partiu. O menino escolheu um assento próximo a uma janela. Ele queria ver a paisagem passar. Ficou do lado direito, porque seu rio estava do lado direito. Floresta, cachoeiras, corredeiras, barracos, pequenas cidades – esse era o cenário a ser visto. A maria-fumaça, com seu som de café-com-pão-bolacha-não, e seus silvos que acordavam o amanhecer e se anunciavam para a mata que vinha pela frente, avançava e avançava enquanto a fumaça que expelia se fazia nuvem passageira para quem vinha nos vagões
Viriato Moura

Café com pão, bolacha não!

Um sentimento de perda acometeu os pioneiros de Rondônia, quando nossas maria-fumaças se calaram. Esse nome popular lhes foi dado desde o século passado. Sendo locomotivas a vapor, quando em movimento soltam fumaça. E Maria, um nome bem brasileiro, se juntou à fumaça que expelia: maria-fumaça. Nós, que estamos plantados nestas terras de Rondon há muitas décadas, num tempo em que nossa Estrada de Ferro-Madeira Mamoré ainda cumpria suas funções, recordamos com sensação de grande perda o silenciar das velhas locomotivas, que quando em deslocamento emitiam um som que nossa criatividade lúdica traduziu com a onomatopeia “café-com-pão-bolacha-não...”. E emitia silvos, verdadeiros brados, que acordavam as florestas por onde passavam e anunciavam suas presenças nas cidades.
Viriato Moura

O clamor do além

O fotografo nativista acordou motivado. Era agosto de 2012, mês do centenário de inauguração da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A manhã ensolarada de domingo o inspirou a fotografar os escombros da ferrovia, mãe do estado de Rondônia. Nostálgico, resolvera começar seus registros pelo quase nada que sobrou do Cemitério da Candelária, que inumou os que morreram durante aquela que foi a maior epopeia do século 20. No campo santo tomado pela rebeldia da selva, que não deixou em paz o que restou daqueles trabalhadores nem depois da morte, o artista visual caminhou por entre galhos e folhas mortas e outros pedaços de vida. Parava aqui e acolá em meio ao som do vento que soprava do rio Madeira e sacudia árvores, e do canto de passarinhos.
Viriato Moura

Solucionar ou complicar?

Diante de um problema, antes de tomar qualquer decisão, precisamos definir se queremos solucioná-lo ou complicá-lo ainda mais. Um primeiro passo errado pode colocar por terra todas as possibilidades de solução. Não se resolvem problemas enquanto acometidos por forte emoção. A emoção é inimiga das melhores soluções, como se sabe. É de bom-senso não agir, quando não há extrema urgência de reação, diante do impacto inicial provocado por qualquer impasse. O famoso “contar até dez“ antes de reagir pode salvar as partes envolvidas de grandes dissabores. Todas as vezes que alguém enfrenta uma questão, pressupõe-se que queira resolvê-la. Todavia, muitas são as ocasiões que, explicitamente, caminhamos em direção ao abismo da complicação. Nesse contexto, além de não solucionarmos o problema, adicionamos a ele outros condimentos que podem piorá-lo.
Viriato Moura

Amigo seu ou da onça?

Admitir ser nossa amiga qualquer pessoa que tenhamos um relacionamento duradouro, alguém que simpatizamos ou simpatiza conosco, é ingenuidade. Os conhecidos e circunstanciais simpatizantes devem ser considerados como tais para que não tenhamos mais decepções do que já tivemos. Nem vínculo de parentesco garante que a pessoa seja nossa amiga. Por vezes é justamente essa proximidade o motivo da falta de amizade. O celebrado poeta e dramaturgo francês, que viveu no século 19, Victor Hugo, adverte: “A metade de um amigo é a metade de um traidor”.
Viriato Moura

Quem é você?

Quando alguém nos faz a pergunta “Quem é você?” entendemos que quer saber qual nossa ocupação, em que trabalhamos: médicos, carpinteiros, advogados, faxineiros, etc. De pronto, nesse contexto, temos nossa identidade, enquanto pessoas que somos, colada à atividade laboral que exercemos. O grande complexo existencial que verdadeiramente somos é reduzido a um fragmento de nossa personalidade nem sempre compatibilizado com ela. Há médicos que não são médicos, advogados que não são advogados, e assim por diante – apenas exercem a profissão sem se identificar com ela.
Viriato Moura

Não fique triste…

Ao que parece, o ser humano tem um certo tropismo pela tristeza. Dizem até que somos tristes por sabermos que iremos morrer. Ninguém está livre da tristeza. Cedo ou tarde ela nos invade sem pedir licença. Quem não sente tristeza por certo também é pouco sensível à alegria. A cautela que devemos cultivar é de não nos deixarmos viciar por esse estado doloroso de espírito. Se ele nos acomete sem motivos e com muita frequência, podemos estar sofrendo de depressão. Procurar o médico nesses casos é imperioso.
Viriato Moura

Não desce redondo

A vida, como se sabe, não é como uma bola de sinuca: perfeitamente redonda sem irregularidades, sem asperezas, lisinha e brilhante que e se descola livremente quando propulsionada ou, simplesmente, pela ação da gravidade. As pessoas que concebem a existência desse jeito, muito se decepcionam. Porque vezes até transcorre quadrada a ponto de ninguém merecê-la. Buscar o inatingível: uma vida que flua sem percalços, descendo redondo existência abaixo, leva à frustração.
Viriato Moura

Kafkiana

Judeu nascido em Praga, Kafka teve a maior parte de sua inquietante obra publicada após sua morte. Afeito à temática com viés surreal, levanta questões que trafegam pelo grotesco, por vezes de difícil compreensão. O genial escritor tcheco, para alguns, expõe um mundo que não se compatibiliza com o real. Entretanto, ao tempo em que vamos nos familiarizando com suas reflexões, deparamo-nos com a gritante realidade cotidiana. Dentre muitas de suas citações, há uma que enuncia que “a história dos homens é um instante entre dois passos de um caminhante”. A despeito da exiguidade do tempo que o instante significa, é nele que tudo pode acontecer, é por eles que caminha a humanidade em sua inexorável metamorfose. Por vezes, por não darmos o devido valor a esses átimos existenciais, nos perdemos, nos tornamos infelizes.
Viriato Moura

Mais sanitários para elas

É inaceitável que as mulheres ainda não tenham suas peculiaridades femininas atendidas nos ambientes públicos. Inclusive para as necessidades mais íntimas, como é o caso de uso de sanitários, principalmente nos locais de grande circulação de pessoas como aeroportos, rodoviárias, etc. Os aeroportos, assunto da moda no Brasil frente aos grandes eventos esportivos que acontecerão no país em 2014, a Copa do Mundo, e 2016, as Olimpíadas, continuam deficientes nesse quesito. Destaque para o de Brasília, ponto de convergência de muitos voos.
Viriato Moura

Sentado à margem da felicidade

No amanhecer úmido deste primeiro domingo de janeiro, vejo da janela de meu apartamento, duas quadras distantes, um homem sentado em posição quase fetal na beira da calçada de uma rua quase vazia. Não bastasse a postura sugestiva de quem faz uma regressão para dentro de si mesmo, as suas mãos juntas lhe apoiando a cabeça e em gesto de contrita súplica diziam que algo pesado se apoiava sobre ela e que precisava de ajuda. Não me foi possível, dada a distância, deduzir qual a idade do triste homem que me fez contemplativo com sua imagem melancólica. Apenas deduzi que sua mente estava acometida de grande sofrimento. Alguns minutos se passaram, e ele continuava lá, como que congelado.
Viriato Moura

Poderosos execráveis

Não há dúvidas que poucos estão preparados para o exercício do poder. São tantas as virtudes necessárias que apenas uma minoria é aquinhoada com elas. Na maioria das vezes, despreparados são entronizados. Disso decorre, como estamos cansados de saber, um caldeirão de atitudes incompetentes e de atos indecorosos. O mundo do poder, em qualquer nível, está contaminado por germes cuja função é parasitar o meio onde vivem. Poucos dos que ocupam o poder são imunes a esses estímulos à perdição. Poucos. O sinal primeiro e típico daquele que não está preparado para o poder é sua empáfia ao assumi-lo. De repente, acha-se dono da verdade e maior que tudo e todos os que pensa poder submeter. Por vezes, é apenas um nanico que não se enxerga em sua diminuta dimensão. Quando chega a ponto de fazer referências a si mesmo na terceira pessoa atinge o ápice de sua ignomínia. É um parvo fantasiado de reizinho.
Viriato Moura

O impostor

O estimado amigo e confrade William Haverly, em seu texto intitulado "Vendedor de passados", contou uma história cujos protagonistas eu seu quem são. Inclusive quem descobriu o impostor. O fato aconteceu de verdade e muita gente da alta sociedade daquele tempo sabe disso. Mas eu sei o desfecho. Porque conheço a pessoa que pegou o sujeito quando ele tentava dar mais um golpe usando emoção como fator de convencimento dos incautos. Relembrando: a ação do impostor começava com uma pesquisa nos jornais da época ou simplesmente ele ficava sabendo da morte de pessoas importantes de Porto Velho. Por vezes, a família nem havia abrandado a tristeza pela perda quando ele entrava em cena.
Viriato Moura

Quem escolher?

A vida é feita de escolhas. Quem dominar com sabedoria essa arte trilhará os melhores caminhos da existência. Dentre as muitas escolhas que precisamos fazer, algumas delas dizem respeito a pessoas. Diga-me com quem andas que te direi que és é uma máxima popular que contém verdade. Quem escolhe mal suas companhias é contaminado pelo que de ruim elas têm. Algumas pessoas se acham espertas escolhendo auxiliares de má qualidade. Acham que assim agindo podem brilhar mais ao lado deles. Essa é uma conclusão ilusória e perigosa. Quem se faz acompanhar de gente boa, competente, tende a agregar a virtude delas às suas.
Viriato Moura

Um médico para chamar de seu

Todos nós deveríamos ter o direito de um médico deste jeito. Um ser humano afável que nos conhecesse com maior profundidade; soubesse mais de nossa história pessoal, de nossos hábitos, vícios e manias; enfim, do nosso jeito de ser. Que nos desse orientações mesmo que nada lhe perguntássemos. Que nos dirigisse palavras de alento quando estivéssemos preocupados. Que nos aconselhasse em nossas indecisões existenciais. Que nos indicasse, nominalmente, os melhores especialistas para tratar dos males, reais e imaginários, que nos afligissem. Que nos ajudasse a escolher clínicas e hospitais que tivessem as melhores condições de nos atender com segurança e eficiência, quando precisássemos deles.
Viriato Moura

Os intolerantes

Ao ler o título deste artigo, o leitor talvez deduza que irá encontrar uma crítica severa aos intolerantes. Espera até que alguns deles sejam citados nominalmente. Não há como não lhe dá razão por ter pensado assim: afinal, a maioria de eminentes pensadores, através dos séculos, fez referências desairosas à intolerância. É mister que se faça, desde logo – antes que se coloque todas as intolerâncias no mesmo saco –, a diferença entre a intolerância que decorre de uma posição mental intransigente e refratária a tudo e a todos que não concordam com o intolerante, daquela que traduz a não aceitação de ideias e ações que não expressam, comprovadamente, o melhor resultado.
Viriato Moura

Pois é…

Mendel, o pai da genética, tinha razão: a gente tem a quem puxar. Para os nossos ascendentes, é claro. Quanto a minha mãe, que morreu poucas horas após o meu nascimento, não sei o que dela herdei. Quem a conheceu, disse-me que ela era a imagem da serenidade. É esse seu jeito de ser, mamãezinha querida, a senhora não me deixou. Com certeza deixou outros, que mesmo não sabendo de todo quais foram, os recebi e espero ter feito bom uso deles. Uma coisa ficou comigo: a saudade imensa, mesmo não a tendo conhecido pessoalmente. E que saudade...
Viriato Moura

Hebe não morreu

Que conversa sem gracinha é essa? Vêm vocês nos dizer que a Hebe foi dormir na sexta-feira passada e não acordou no sábado. Não acordou por quê? Morreu!... Não, não, e não. Protesto! Hebe não morreu. Apenas encerrou mais um de seus programas, deixando um gosto de quero mais, com aquele seu sorriso esfuziante que emanava as flores de suas 83 primaveras. Se você acreditou que Hebe morreu é porque você não sabe quem é a Hebe – que peninha que você não saiba! Sim, repito: quem é a Hebe. Diz-se “era” para o que ou quem já foi. Hebe é! É a garota humilde que conquistou o estrelato quando sequer sabíamos direito o que é ser estrela na televisão brasileira. Porque ela foi a precursora desse brilho que, para tão poucos, é o brilho da verdade. Hebe cantora, atriz e apresentadora. Hebe de verdade, da verdade. Entrou em nossas vidas ao longo de 60 anos para se mostrar simplesmente e totalmente Hebe.
Viriato Moura

Rejeição eleitoral: essa maldição tem cura?

Quais as razões que levam o eleitor a rejeitar um candidato? As mesmas que levam qualquer pessoa a rejeitar a outra. Ou seja, motivos procedentes e improcedentes. Elencar todos eles seria uma pretensão de quem não conhece gente. Gente é complicada nesse sentido – e em muitos outros também! Porque as pessoas nem sempre são rejeitadas pelo que verdadeiramente são. O que conta, na maioria das decisões de rejeitar, é a aparência. Há pessoas com quem jamais se trocou meia dúzia de palavras, ou até nunca se conviveu ou não se sabe informações que nos autorizem julgá-la, mas, mesmo assim, concluímos que é antipática, truculenta, incompetente, e por aí vai.
Viriato Moura

Jogue no lixo!

O ser humano diz que corre atrás da felicidade, mas, do jeito que pensa e age parece que não quer alcançá-la. A vida é como nós a sentimos. Se a concebermos como um vale de lágrimas e sofrimentos, tenderá a se materializar como tal. Por outro lado, se tivermos uma visão positiva dos fatos e cultivarmos a alegria de viver, ela tende a plasmar essa realidade. A maioria das pessoas, infelizmente, não se detém no lado bom da existência. É dada a manchar os momentos, mesmo os de grande felicidade, com recordações ruins, dolorosas – mazelas do passado. Ao contemplar a paisagem existencial, o faz através dos piores ângulos: o das sombras ameaçadoras e dos dias de tempestade e desassossego. Tempos que trazem a sensação de que o sol desapareceu de vez. Gente que prefere assistir, ouvir ou ler as notícias catastróficas, de maus presságios, e ainda difundi-las. Sobre outras pessoas, mesmo que não confesse isto, compensa-se com suas desgraças.
Viriato Moura

O mundo sobre os ombros

Qualquer nivelamento que se queira fazer em relação aos seres humanos é injusto. Esse pensamento, propagado por aqueles que se dizem preocupados com o coletivo e com a igualdade está a serviço da estupidez e da nulidade. Tocqueville, no século 19, em seu livro "Democracia na América", a maior obra já editada sobre o tema, escreve que a igualdade ama a mediocridade. De fato, como reitera o polêmico filósofo Luiz Felipe Pondé, em seu excelente "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia": “Os homens não são iguais – os poucos melhores sempre carregam a humanidade nas costas“.
Viriato Moura

Chatos: presença obrigatória

De certo modo, somos todos uns chatos. Uns mais outros menos, mas somos. O que nos diferencia é que alguns de nós somos chatos ocasionais, em dados momentos – nossos ou dos outros. Muitos de nós somos apenas chatos relativos. Ou seja, chatos para algumas pessoas ou em certas situações muito específicas e raras. Mas, senhoras e senhores, meninos e meninas, existem (e como!) os chatos de carteirinha. São essencialmente chatos. O que caracteriza o chato é a ausência, ou quase isso, do tempo certo para dizer ou fazer, ser ou não ser. Por isso é difícil escapar totalmente dessa pecha. Em algumas ocasiões estamos empolgados com determinado assunto e insistimos em falar sobre ele ou demais sobre ele. E não estamos nem aí para quem nos ouve. Ao chato interessa a sua vontade de se expressar, o seu jeito de ser. O outro, que o suporte. Casos há que está na cara que o outro não está interessado em nós, no que estamos dizendo, fazendo ou deixando de fazer, e dá sinais explícitos disso, mas continuamos com nosso blá-blá-blá, enchendo-lhe a paciência.
Viriato Moura

Aquele abraço e o abraço de tamanduá

As constantes buscas do cotidiano nos fazem negligentes com as essências da felicidade. Essa procura sem fim de algo que por vezes nem sabemos o que é, torna-nos um tanto alheios aos nossos relacionamentos interpessoais. Queremos ter sempre mais. A materialidade é insaciável. Um dia nosso sonho foi atingir determinado objetivo, e quando o atingimos, achamos que foi pouco, queremos mais e mais. Viver, para a maioria das pessoas, é querer mais. Isso nos faz sempre insatisfeitos. E a insatisfação, por óbvio, é a mãe da infelicidade. Enquanto não dermos o verdadeiro valor aos néctares da vida que vão além dos bens materiais, estaremos condenados à infelicidade.
Viriato Moura

Dia dos namorados: um brinde ao amor!

No mundo do imediatismo em que vivemos, a fugacidade se instalou nas relações afetivas. O verbo namorar foi substituído, em muitos casos, pelo ficar. Não há sentimentos em jogo. É a relação do aqui e agora. É tesão momentâneo, sexo. Só tem presente. Futuro, nem pensar. Amor não se pede. Amor se dá e recebe. Se assim não for, pode ser tudo, menos amor. Aquele que se humilha para conquistar o amor de outrem, jamais o terá. Quando muito, compaixão. Ninguém convence ninguém que merece ser amado. O amor nasce e morre por quase tudo e por quase nada.
Viriato Moura

Quem não respeita…

Lamentavelmente as boas maneiras estão saindo de moda. Nos tempos atuais são poucas as pessoas atentas a esse pormenor essencial para o harmonioso relacionamento humano. O que tem de gente mal educada, que não respeita a presença e o espaço alheio é uma enormidade. E não pensem que são apenas as pessoas de baixa condição social que agem assim. Muito pelo contrário, por vezes essas até são mais contidas, incomodam menos. Um dos exemplos de gente se acha e que não sabe se portar acontece habitualmente na capital do poder brasileiro. Quem já frequentou o aeroporto de Brasília sabe o que estou dizendo e, certamente, concluirá que tenho razão. Ali parece que só há autoridade e grande empresário. A cena se repete: o sujeito senta numa cadeira da sala de espera de seu voo, e começa a falar em alto e bom som ao celular. Grande parte desses conversa sobre negócios milionários e faz referência, como quem tem intimidade, a figurões da República. E os caras não estão nem aí se os circunstantes não querem ouvir aquelas particularidades e estão se sentido incomodados.
Viriato Moura

Assombrações

Recordo de relatos de adultos, ainda à mesa após o jantar, que arrepiavam nossos medos infantis em início de noites do passado. Mulas-sem-cabeça, corujas agourentas, odores da morte, maus presságios, ruídos estranhos, utensílios domésticos que se moviam sozinhos, caiam e quebravam; janelas e portas que se abriam e fechavam por nada, e palmas, inusitadas palmas. Falavam tanto nessas palmas de outro mundo que até as deste nos amedrontavam. Certa noite de outubro, como de costume nesses confins da Amazônia, chovia torrencialmente. Ventos fortes, raios e trovões compunham o cenário apavorante. Fomos todos para a cama cedo. De repente, para nosso desespero, um relâmpago seguido do apagar das luzes. Escuridão total. Ouvia-se apenas o som do vento que entrava, como um uivo, pelas frestas das janelas.
Viriato Moura

Dançar para não “dançar”

O coreógrafo Marcelo Felice há 13 anos realiza um projeto que para muitos descrentes na possibilidade de reabilitação do ser humano tinha tudo para dar errado. Marcelo e seu grupo de dança criaram o espetáculo Bizarrus, que já foi assistido por mais de 100 mil pessoas, cujos bailarinos cumprem pena no Urso Branco. Muitos condenados a décadas de prisão, tidos como irrecuperáveis. Resultado: o espetáculo é um sucesso, inclusive com aplaudidas apresentações em São Paulo. Alguns que já conquistaram a liberdade foram integrados à sociedade e passaram a colaborar com o projeto e a ajudar os outros que continuam cumprindo pena. Um bom exemplo do que a dança pode fazer por quem não quer mais "dançar" na vida.
Viriato Moura

O dia que não chegou

Dia 07 de abril comemora-se o Dia Mundial da Saúde, criado em 1948 pela Organização Mundial da Saúde. Festejar esse dia no Brasil é uma piada de mau gosto. É uma ofensa àqueles que sofrem nas longas filas das unidades de saúde pública e, quando atendidos e necessitam de internação, por vezes não recebem tratamento digno de um ser humano. Em nosso país saúde só é prioridade no discurso político. Atingido os objetivos eleitorais, tudo volta ser como antes ou até pior do que achávamos que não poderia piorar. Que o problema é complexo, isso não tenhamos dúvida que é. Torna-se ainda mais complicado devido a práticas maléficas que lhe são agregadas. Uma delas é a burocracia. A rapidez com que ocorrem os fatos danosos à saúde não é acompanhada, nem de longe, pela lerdeza da máquina pública para resolvê-lo. Muita gente competente, cheia de boas ideias, com o entusiasmo à flor da pele, teve essas virtudes enfraquecidas pelo desânimo diante desses entraves. Frustrados, jogaram a toalha e saíram com a injusta pecha de incompetentes.
Viriato Moura

Sem cura

Não seria pessimista prognosticar que essa doença, a corrupção, bem nutrida pelo sistema que aí está, não tem cura. E que aquele que ousar produzir uma vacina que acabe com ela de uma vez por todas pagará caro por sua ousadia. Aqueles que escrevem e falam sobre corrupção não devem achar que é uma perda de tempo fazê-lo. Se assim fazendo não há esperança de que um dia esse mal tenha cura, muito menos terá se assim não o fizermos. Quem sabe um milagre?
Viriato Moura

Rondônia é um bom negócio!

Não há dúvida: Rondônia é um bom negócio. É preciso que nós, que aqui vivemos, disseminemos esta informação em todas as direções. Como quem sobe ao cume de suas possibilidades e grita, o mais alto que puder, que nossa amada terra tem muito a oferecer. Não há o menor motivo para que se tenha dúvida sobre esta assertiva. Porque as razões são muitas e estão aí para quem quiser aproveitar. Temos povo trabalhador, nativo e egresso de diversos pontos do Brasil e até do estrangeiro; clima bom, terra fértil e abundante; agricultura e pecuária de qualidade, reservas minerais ainda não suficientemente exploradas, e um extenso manancial de encantos turísticos. Energia elétrica, que é vital para o progresso, com advento das hidrelétricas do Madeira a temos em abundância.
Viriato Moura

Desabafo na rede

A internet continua sendo terra de todos. Logo, paradoxalmente, terra de ninguém. É usada com diversos objetivos, que navegam entre nobres e sórdidos. Serve, portanto, para educar e para deseducar. Porque difunde ciência e ignorância. No âmbito moral, pode catequizar para as virtudes ou cair de boca na imoralidade ou até na amoralidade. Antes da internet, os mecanismos de censura dispunham de mais chance. Hoje, basta utilizarmos os meios de acesso à rede para podermos dizer o que bem entendemos. Com uma sutil pressão sobre um teclado mecânico ou digital, enviamos uma informação que, como uma injeção na veia, não tem volta. A partir do momento em que é lançada na circulação da rede pode produzir seus efeitos.