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Sandra Starling

José Serra também se esquece do que falou

Dias depois, em meio a uma discussão empolgada sobre a permanência ou o fim das coligações proporcionais no processo eleitoral, quando, espantosamente, PT e PSDB punham-se aparentemente em acordo, insurge-se o senador Serra, propondo a substituição das coligações pela “federação de partidos”, velha fórmula sempre agitada pelo PCdoB, temeroso de não conseguir eleger ninguém se não for abrigado em uma grande coligação proporcional. Para quem não conhece, a “federação” teria permanência maior do que apenas o período eleitoral e garantiria, assim, a sobrevivência dos pequenos partidos, ou dos partidos ideológicos.
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A ilusão individualista sobre a terceirização

Comecei minha carreira para me tornar professora fazendo o mestrado em ciência política. Somado à minha graduação em direito, o mestrado me deu ferramentas para enriquecer minha experiência de vida. Os complementos necessários – e aos quais não damos a devida atenção – foram os casamentos, a criação de meus filhos, e agora a existência de meus netos, a convivência com pessoas de variada extração social, política e econômica e a mera passagem do tempo. Na ciência política resolvi me especializar de início em estudos sobre o movimento operário e sindical e sobre a legislação trabalhista.
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A entrada de capital estrangeiro no setor petrolífero

Lembro-me bem do acordo com a Suíça: reciprocamente, os dois países, Suíça e Brasil, poderiam usufruir, por meio de investimentos e exploração, dos recursos do subsolo marinho. Uai, mas a Suíça tem mar?! O governo federal brasileiro tinha assinado um acordo com aquele país, permitindo que eles usufruíssem das riquezas do mar territorial do Brasil tendo em troca o direito de o Brasil fazer o mesmo com o mar de lá. Lembro-me de que pedi a assessores do antigo Ministério da Marinha que fossem a meu gabinete e lhes mostrei o acordo, porque a Marinha tinha em seu projeto de defesa nacional o uso das riquezas do subsolo marítimo como “elemento de persuasão”. Eles nada sabiam. E nem se falava ainda em “pré-sal”…
Sandra Starling

PT e PSDB, verso e reverso da mesma medalha

Afinal, depois de muito ler e refletir, consigo perceber onde me enganei nesses anos todos. Há muito escrevo e comento que PT e PSDB deveriam se unir para auxiliar o país a sair das crises em que tem se metido. E supunha que ambos poderiam juntos – guardadas as devidas diferenças – fugir ao destino de serem no governo reféns dos PMDBs e siglas fisiológicas em geral. Não vão conseguir. Afinal, na sexta-feira, dia 20, Dilma Rousseff reapareceu em público, como se ainda estivesse no palanque, e atacou o PSDB, acusando o adversário de ser o verdadeiro pai da operação Lava Jato.
Sandra Starling

Uma volta ao passado ou a permanência do velho?

Foi pelas mãos competentes do professor emérito da UFMG Fábio Wanderley Reis que tomei conhecimento do livro de Reinhard Bendix “Construção Nacional e Cidadania” (publicado no fim dos anos 60). Naquele tempo, no DCP da UFMG, nós, alunos do mestrado, nos víamos, quase todos, como marxistas e chegamos uma vez a tentar boicotar o curso oferecido pelo professor Fábio. Havia colegas que se diziam althusserianos e que falavam em “corte epistemológico” ou iniciavam uma frase com um sonoro “todavia”, o que me deixava tonta. Havia luxemburguistas, trotskistas, gramscianos e eu correndo atrás daquela sabedoria toda, pois, diferentemente da maioria dos colegas, fizera direito, e não ciências sociais ou economia. Mas, aluna dedicada que sempre fui, me meti a ler Bendix, pois tínhamos de fazer uma resenha crítica.
Sandra Starling

Os brasileiros e o complexo de vira-latas

Os salários dos “de baixo” subiram, a classe média tem agora outros segmentos, média-baixa e média-média, mas a desigualdade continua, com os muito ricos mais ricos ainda e os que vivem do salário disputando feito loucos o direito de comprar o que se vende nos shoppings da vida. E a consequência são black blocs, rolezinhos, quebra-quebras nas grandes cidades. E a presidente, que anunciou o novo lema de seu governo, “Brasil, pátria educadora”, não dá uma palavra acerca do fato de que o primeiro contingenciamento anunciado pela nova equipe econômica incide preferencialmente sobre o Ministério da Educação, além da Defesa e das Cidades (onde fica, também, a promessa de melhor mobilidade urbana, supostamente afeta a essa pasta)?
Sandra Starling

Respeitamos mesmo as crenças dos outros?

Por toda a parte, na Europa Ocidental, vão se fortalecendo grupos xenófobos que não querem aceitar em seus territórios imigrantes vindos, sobretudo, do Oriente Médio e do norte da África. Repudiam essa estranha gente de turbante ou véu, pele morena e cabelos escuros que invade o Velho Continente. São os novos bárbaros – argumentam. Como se barbárie alguma tivesse havido na “colonização” europeia nas Américas, na África, na Ásia e no Oriente Médio.
Sandra Starling

A reveladora montagem do segundo governo Dilma

Aldo Rebelo, que já foi ministro das Relações Institucionais, pulou para os Esportes e agora pousa na Ciência, Tecnologia e Inovação; Jacques Wagner foi do Trabalho e Emprego, passou para as Relações Institucionais e agora, apropriadamente, cai de paraquedas no Ministério da Defesa. Um desconhecido deputado mineiro – para agradar ao senador Crivella – vai dominar os Esportes. Para o MEC (coitados dos professores!) segue o irmão de Ciro Gomes. Kassab, aquele que fundou o partido de lado nenhum (nem direita, nem esquerda, recordam-se?), ocupará a poderosa pasta das Cidades. E, primor dos primores, num país onde ainda militam diuturnamente os bravos integrantes do MST, dona Kátia Abreu empalma o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Aliás, quanto a essa espertíssima latifundiária, tenho pronto um artigo mostrando como ela foi cavando sua aproximação com o governo.
Sandra Starling

Quando se perde totalmente a respeitabilidade

Nunca fiz nenhum levantamento sobre situações de obstrução no Congresso, portanto, não posso dizer que aquilo a que assisti na semana que passou, pela TV, tenha sido algo inédito em 190 anos. Posso afirmar, isso sim, que nunca vi um presidente tão sem iniciativa (não sei se propositalmente ou por acaso) e tampouco jamais imaginei que alguém do PCdoB agiria como agiu a minha ex-colega deputada Jandira Feghali. Ela pediu o esvaziamento das galerias porque sua colega e líder no Senado, Vanessa Grazotin, teria sido xingada de “vagabunda” pelos que ocupavam o espaço.
Sandra Starling

Constituinte exclusiva, plebiscito e referendo

Em 1992 estive na Suíça para uma muito proveitosa experiência. Aquele país, que ainda não pertencia ao Fundo Monetário Internacional (FMI), decidira discutir a questão de entrar ou não na entidade. Partidos de esquerda e diversos movimentos sociais convidaram pessoas de diferentes países do mundo, que sofriam intervenções do fundo, para discutir com seus associados e público em geral sobre as vantagens ou desvantagens dessa situação. Cada um de nós teve um roteiro diferente a percorrer. Na Suíça, pelo menos à época, o Parlamento só podia fazer emendas à Constituição se estas fossem autorizadas por pelo menos 50 mil eleitores em plebiscito.
Sandra Starling

O Congresso não respeita a Constituição Federal

Pela segunda vez consecutiva, as duas Casas do Congresso entram em recesso sem terem votado um dos instrumentos que deveriam ser levados muito a sério: senadores e deputados vão cuidar de suas vidas, neste ano, com a desculpa de fazer campanha eleitoral, sem terem votado a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Parece brincadeira. Quem ergueu a bandeira do orçamento impositivo para não ficar à mercê dos humores do Executivo nem sequer se lixa para verificar quais prioridades serão observadas na peça orçamentária que o governo deverá mandar ao exame congressual até 31 de agosto.
Sandra Starling

A insurgência dominada (ou domada)?

Corro nestes tempos, a duras penas, contra a bibliografia que usei antigamente. Tento – sem saber se consigo – entender o que se escreve agora sobre o capitalismo do século XXI (que ousei comentar, sem ler, na semana passada) e este “O novo tempo do mundo”, de Paulo Arantes, cujas notas de rodapé rodopiam em minha cabeça, já muito esquecida. Caio pelas tabelas, sem fôlego para correr das polícias e forças nacionais, sem poder aspirar bombas de gás lacrimogêneo ou gás de pimenta, sei lá o nome que dão a esses instrumentos de aquietar os desinquietos, desequilibrados e excluídos deste “mundo, vasto mundo”. Sou, aliás, desse tempo de Carlos Drummond de Andrade: o resto para mim é aprendizado até o fim da vida.
Sandra Starling

A história vivida e a história contada

Nas últimas semanas, os brasileiros que viveram ou conhecem a trajetória histórica do país lembraram a memorável campanha das Diretas, as multidões lotando as ruas e a participação decisiva das mais diversas expressões políticas do Brasil da época. Entre nós, mineiros, assim como há um culto acrítico às realizações de JK, também há um endeusamento do papel exercido pelo então governador do Estado, eleito diretamente em 1982. Tive a honra de ser dele adversária, naquele ano, representando o Partido dos Trabalhadores, minúsculo, desconhecido, pobre, indigente mesmo, sobretudo no desconhecimento dos meandros da chamada “grande política”.
Sandra Starling

Cá como lá, maus fados há…

Se você, leitor, prestar bem atenção, vai perceber que também do lado das oposições a coisa anda bem parecida: muito escarcéu para pouco resultado… Trocando em miúdos, como as práticas levianas e impublicáveis permeiam a ação política de vários partidos brasileiros, o melhor que têm a fazer, como declararam suas principais lideranças, é deixar que a ministra Rosa Weber descasque o abacaxi de decidir se haverá ou não uma só CPI enxuta, a da Petrobras, ou se entram na roda os casos do porto de Suape, em Pernambuco, que pode envolver o presidenciável Eduardo Campos, e os desvios na confusão do metrô de São Paulo, que pega em cheio emplumados tucanos, desde a época do falecido Mário Covas, podendo repercutir na candidatura de Aécio Neves.
Sandra Starling

A bomba que vai estourar mais adiante

Os dois governos Lula foram pródigos e prodigiosos em publicar maravilhas. Ele tinha bons marqueteiros e excelentes comunicadores, sobretudo depois que levou Franklin Martins para seu lado. Dilma é pobre nisso. Talvez seu constante mau humor impeça que ela deixe as pessoas mais soltas. Sei lá: nunca convivi com ela! Até pouco tempo, tudo andava meio confuso: agora já dá para saber porque há, ao mesmo tempo, tanto emprego formal e tanto seguro-desemprego. Normalmente, as duas coisas não andam juntas: quando uma cresce, a outra, despenca.
Sandra Starling

Você pretende voltar a acreditar em Papai Noel?

Por todo lado, vejo comentários sobre a nova lei de combate à corrupção, impondo pesadas multas para as empresas que não se comportarem de forma republicana em suas relações com o poder público. A novidade dessa lei seria a responsabilidade objetiva e o fato de tratar-se de processo administrativo. Responsabilidade objetiva significa que não há necessidade de provar que fulano ou beltrano, seja dono ou preposto da firma, andou por caminhos tortos. Basta que tenha havido o dano ao erário (oferta de propina, formação de cartel, superfaturamento, por exemplo). A lei prevê a delação premiada e, segundo seus defensores, viria a alinhar o Brasil aos países da OCDE, signatários de convenção da ONU para punir a corrupção. Os Estados Unidos seriam – eles, sempre eles – o modelito a ser seguido…
Sandra Starling

As esquisitices de Brasília e o ano que pode nem existir

Brasília é isso mesmo. Num abrir e fechar de olhos, tudo pode acontecer ou não acontecer nada. Ainda mais no fim do ano. Já se ouvem “Jingle Bells” por todos os lados, as árvores de Natal aqui ficam prontas muito antes do Advento, no Congresso todo mundo já comprou suas passagens “de volta às bases” e o governo… ah, o governo!, isto é, a presidente e sua turma todo dia pegam o helicóptero e ali, do heliporto do Palácio da Alvorada, decolam para algum ponto do país, onde vão inaugurar alguma obra, ou simplesmente, fazer campanha, que ano que vem é ano de reeleição.
Sandra Starling

Será isso a democracia?

Passo os olhos pelos jornais e fico preocupada com os quebra-quebras nas cidades que tiveram aumento na passagem dos ônibus. Compreendo a fúria dos que se sentem logrados pelas promessas de paraíso sobre a Terra de algum tempo atrás, e a dura realidade da defasagem entre salários e preços. Há quem diga que a inflação continua em alta. Outros, que o “viés é de baixa”, para usar o jargão em moda. Que o mínimo é muito maior que em anos passados, isso é pura verdade, mas também é pura verdade que, tirando o que é cobrado pelos que atendem serviços de casa em casa, os autônomos (bombeiros, reformadores de aparelhos estragados, eletricistas e aqueles que minha mãe chamava de “técnicos”, porque realizavam pequenos consertos que fazem o tormento das donas de casa), todo mundo anda se queixando do que ganha. Quando a chiadeira começa a atingir os taxistas, pode saber que pela frente vem problema. E os taxistas que ando pegando, aqui em Brasília, repetem todos um rosário de críticas ao governo federal. Mau sinal. Que parece não atingir os que promovem essa Copa das Confederações.
Sandra Starling

A técnica e a política na arte de governar

A pergunta ganha força ante as tensões crescentes entre a administração federal e o Congresso Nacional: o governante de perfil técnico obtém melhores resultados que o governante de perfil político? As travessias no oceano que separa o palácio do Planalto e as casas congressuais têm mostrado que a índole técnica da presidente Dilma Rousseff pode até servir de escudo para resistir às pressões da esfera política, mas impõe riscos à eficácia da ação governativa.
Sandra Starling

A PEC das domésticas e a confusão que pode causar

A emenda constitucional sobre as domésticas, justíssima, volto a insistir, não foi precedida de providências capazes de não causar a maior confusão em nosso país. Agora, começam a pulular providências às pressas: o governo pensa em diminuir o percentual dos patrões nas contribuições no INSS e com o FGTS – e já começam a surgir (como era de se esperar) os expedientes de burla à lei, que nem sequer entrou em vigor. Condomínios já se apressam a contratar domésticas e a dividir o tempo de trabalho delas entre os diversos condôminos. Menor salário, férias sem data única, ossos do ofício… e continua a desigualdade comemorada e celebrada pelos que vivem dos votos daqueles que nada têm e que só podem tentar mudar algo nas eleições, de quatro em quatro anos.
Sandra Starling

Servidor público ou servidor do público?

A mais recente dentre as espetaculares operações da Polícia Federal, apelidada de Porto Seguro, indiciou gente graúda na república brasileira. Foi de roldão o adjunto do advogado geral da União (AGU), cuja história merece ser lembrada. Ele fora preterido, em 2003, em competente ação de alto funcionário da Casa Civil, que descobriu inidoneidades por ele praticadas; em 2009, foi novamente vetado para alto cargo na AGU pela mesma Casa Civil, então comandada por Dilma Rousseff; e, finalmente, por obra e graça da sucessora dessa, Erenice Guerra (por onde anda?), foi emplacado como imediato de Adams, hoje, queridinho da presidente da República. No mais, foi tragada a secretária do ex-presidente Lula no escritório de São Paulo, e sua acompanhante costumeira em viagens internacionais, mantida no cargo por Dilma. E muita gente mais, inclusive um ex-senador da República (citado em antiga matéria da revista “Veja” como beneficiário de um enorme escândalo envolvendo transações com o governo francês, no governo FHC), o consultor jurídico do MEC, a superintendente da Secretaria de Patrimônio da União e integrantes de várias agências reguladoras.
Sandra Starling

Dinastias nada republicanas, nem democráticas

Quando o PT começou a participar de eleições, em 1982, realizamos inúmeros seminários para discutir programa de governo, conjuntura política e participação popular. Recordo-me bem de que o excelente professor e renomado sociólogo mineiro Otávio Dulci deu-nos, na ocasião, uma aula sobre as “famílias governamentáveis” de Minas Gerais, demonstrando como continuara concentrado o poder no Estado, mesmo após a proclamação da República. Ficamos todos boquiabertos com a prática da exclusão política, acompanhada da usual marginalização econômica. Havia sempre descendentes de sobrenomes famosos a mandar no território mineiro.
Sandra Starling

Dia virá em que as famílias se organizarão pelo afeto

Sei que o mundo anda pegando fogo nos últimos dias; que as intrigas em torno do mensalão aumentam; que o Cruzeiro Esporte Clube segue ladeira abaixo no Brasileirão. Mas deixo tudo isso de lado e resolvo tratar de um tema que vem me atormentando há algum tempo: o direito de herança. Estando nos Estados Unidos, vou atrás de documentos sobre a morte de meu irmão mais velho, ocorrida em Boston, há mais de 12 anos, a pedido de familiares. O motivo é resolver uma pendência em torno da titulação de um imóvel nas cercanias de Belo Horizonte.