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Sandra Castiel

Nós e nossa finitude

À medida que envelhecemos começamos a pensar no fim. Isto é compreensível, afinal quem há de pensar na morte ainda na juventude? Juventude é vida, é saúde, é a profusão dos hormônios, é paixão, é atração pelo outro, aliás,tão forte que se faz incontrolável, para garantir a perpetuação da espécie, assim é a vida. Então a gente vive tudo isso e mergulha de cabeça, se embriaga de vida, se embriaga de emoções, como se o tempo fosse algo estático, como se o amanhã fosse apenas o dia seguinte. Ilusão? Sem dúvida, porém, vive-se uma bela ilusão, uma ilusão que significa o melhor da vida, assim funciona a natureza, e nós estamos submetidos às suas regras, fazemos parte dela, mas criamos um mundo tão distante dessa realidade, que chegamos a nos esquecer de nossa finitude.
Sandra Castiel

Mulher

Há algumas décadas, coisa de quatro ou cinco, o mundo era masculino; nasci e cresci em cidade pequena, onde a mulher era olhada com desconfiança, assim que crescia, ou seja, assim que a natureza fazia seu trabalho. O pai era o primeiro a zelar por sua pureza, ou seja, tratava de mantê-la casta, até que aparecesse um "príncipe" para cuidar dela, isto era o que lhe era ensinado desde tenra idade. E o casamento, grosso modo, significava mudar de endereço e tornar-se uma espécie de empregada do marido: cozinhava, limpava, mantinha a casa em ordem e fechava os olhos para as escapadelas extraconjugais do companheiro, pois aprendia desde cedo que homem era assim mesmo. Mesmo que houvesse estudado, até onde lhe permitiam, a ocupação que lhe cabia fora de casa (e isso era uma grande conquista) era o magistério.
Sandra Castiel

Um dedo de prosa

Começo a digitar ouvindo o samba da Portela, deleitando a alma com o som de uma voz negra poderosa: "Sou carioca, sou de Madureira!...". Penso que assim o Brasil e o mundo se dará conta de que a alma carioca vive no subúrbio, e o suburbano é o "verdadeiro" carioca, pela bagagem cultural que colheu do entorno desde o nascimento até sempre, ao longo da vida. Ver a Portela passar me leva à juventude, em Porto Velho, quando as duas escolas de samba que mais se destacavam no carnaval carioca (e em todo o país) eram a Portela e o Salgueiro e ditavam as tendências para todo o Brasil. Torcíamos pela Portela, claro, afinal as cores azul e branco serviram de inspiração à nossa escola Pobres do Caiari, rival ferrenha da Diplomatas do Samba, cujas cores eram as do Salgueiro, vermelho e branco. Grande tempo... A Portela merece ser campeã. Viva a Portela!
Sandra Castiel

Feliz Ano Novo?

Chegamos ao fim de mais um ano, e não há como deixar de refletir sobre uma grande característica humana: a esperança. E esta característica salta aos olhos sobretudo na virada do ano: há que se esperar por coisas boas, há que se esperar por milagres diversos, temas que vão desde o encontro de um grande amor (ou reencontro), à cura de uma enfermidade difícil, à aquisição de uma casa própria ou carro, à conquista do emprego ou do diploma sonhado, à recuperação de um filho problemático, à volta da filha ou filho amado que rompeu os laços familiares, enfim, à solução de inúmeros conflitos que constituem o universo humano.
Sandra Castiel

A vida e uma festa!

Tenho procurado observar a vida de várias perspectivas. Acho que este é um dos raros privilégios de se envelhecer; afinal, alguma coisa boa há de se tirar da idade avançada, uma vez que muito da "festa" se perdeu ou vai-se perdendo no caminho rumo à velhice. É certo que, ao longo da trajetória de uma vida, a festa pode ser interrompida ou pela morte ou por alguma enfermidade que obrigue o vivente a recolher-se a um leito de hospital.
Sandra Castiel

Porto Velho, cem anos!

Porto Velho... cidade de minhas primeiras letras, Pôrto-Velho, no Grupo Escolar Barão do Solimões. Porto Velho da infância, nos comícios dos cutubas e peles-curtas, de Aluízio Ferreira e Renato Medeiros; Porto Velho das famílias pioneiras e tradicionais, das professoras de azul e branco, das festas no velho casarão do Ypiranga e do Bancrévea Clube; Porto Velho das noites dançantes na varanda do Pôrto-Velho Hotel; Porto Velho da Madeira-Mamoré, das viagens ao amanhecer no trem encantado, até Guajará Mirim, das paradas intermináveis: Santo Antônio, Zingamoche, Teotônio, Pedra-Canga, São Carlos, Luzitânia, São Patrício, Caracol, Jaci-Paraná (hora do almoço), Caldeirão do Inferno, Jirau, Três Irmãos, Mutum-Paraná e Abunã (pernoite no Hotel Brasil).
Sandra Castiel

Deus e os aviões

As notícias sobre as sucessivas quedas de aviões nos últimos meses reportaram-me ao início de minha adolescência, quando passei a estudar em um colégio religioso, era o Instituto Maria Auxiliadora, em Porto Velho. Em minha numerosa família, ouvíamos preceitos de ordem moral, porém não religiosos; minha mãe cultivava em nós a crença em um ser superior, porém não passava disto: nada de citações bíblicas, aulas de catecismo, missas, cultos etc. Um dia, durante a aula de religião no colégio, ouvimos da professora, uma freira salesiana chamada Irmã Julieta, a seguinte sentença: “Não cai uma folha de uma árvore, sem que Deus consinta”.
Sandra Castiel

Copa do mundo: o momento do hino

Mesmo sem querer, a gente acaba se envolvendo com a Copa do Mundo, afinal não se fala em outra coisa. No Rio de Janeiro, há uma grande profusão de turistas em torno evento, e, pelos quatro cantos da cidade, árvores e prédios estão enfeitados de verde e amarelo; o som das ruas mudou: buzinas e apitos estridentes confundem-se de vez em quando com um grito humano: BRASIL! Tudo é euforia! De várias partes do mundo chegam delegações para participar da Copa; parece que tudo ficou mais fácil, parece que tudo ficou mais perto, encurtaram-se as distâncias, o mundo ficou menor. Isto me reporta à infância longínqua, época em que nosso país era um gigante (era difícil locomover-se de uma região à outra), o mundo tinha dimensões incompreensíveis (pelo menos para mim) e o Brasil e o futebol eram inocentes.
Sandra Castiel

Autoajuda

O mundo moderno aprisiona cada vez mais as pessoas em si mesmas. Antes, as famílias eram grandes, e as casas sempre cheias; avôs e avós quando ficavam viúvos passavam a viver na casa dos filhos, ajudavam na criação dos netos. Hoje, o cenário familiar é diferente: grosso modo, as famílias tornaram-se pequenas, o número de filhos diminuiu consideravelmente; avôs e avós viúvos não convivem mais sob mesmo teto com filhos e netos; filhos deixam a casa paterna antes do casamento para viver sua própria vida, sua própria independência; o próprio casamento parece ter se tornado uma instituição ultrapassada, ou algo que tende a desaparecer, pelo menos no que diz respeito a uma união que dure até a maioridade dos filhos. O mundo mudou, mudaram-se os costumes.
Sandra Castiel

Nós, os dinossauros

Imagine, nos dias de hoje, uma escola cheia de regras e normas de disciplina, onde as crianças fazem filas e cantam hinos antes da entrada na sala de aula; onde a professora é autoridade inquestionável, tanto para os alunos como para os pais dos alunos, onde o magistério é exercido com muita paixão e idealismo; nessa escola, as crianças aprendem nas primeiras séries da vida escolar a ler, escrever, contar e a recitar poemas. Imagine, nos dias de hoje, jovens que esperam fazer quinze anos de idade para frequentar festas e para o primeiro namoro, namoro inocente e romântico, que permite aos namorados apenas beijinhos e mãos dadas na praça, aos domingos, na saída da sessão da tarde (matinê).
Sandra Castiel

Pássaros e flores, lágrimas e dores…

Noutro dia, folheando uma revista semanal, pus-me a pensar em uma norma incorporada pela imprensa culta há bastante tempo: ao citar o nome de alguém que já faleceu, cita-se ao lado o ano do nascimento e o ano da morte. Esta aliás é uma regra bastante informativa. Ao longo de décadas desenvolvi o costume de calcular o tempo em que essa pessoa viveu; se viveu pouco, lamento; se chegou aos oitenta anos, a lógica que desenvolvi a respeito, desde criança, aceita o fato como algo positivo: pelo menos viveu bastante, quem sabe teve tempo de superar as eventuais infelicidades, circunstâncias implacáveis que constituem a existência de um ser humano.
Sandra Castiel

Prisioneiros

Minha família acabou de passar por um susto terrível. Somos sete irmãs, todas avançadas nos anos (é a realidade), temos filhos e netos. Mas já houve um tempo em que vivíamos juntas, jovens e despreocupadas, na mesma casa, sempre uma casa antiga e acolhedora. Aquele foi, sem dúvida, o melhor tempo da vida. Nosso susto se deu em decorrência de um diagnóstico seguido de delicada cirurgia em uma das irmãs; somos unidas, não obstante as diferenças naturais, e nos amamos muito. Não concordo com o discurso que conclama a chamada terceira idade como a "melhor idade". Ponho-me a pensar nesse discurso idiota e reflito: melhor em quê? Isto me soa até como desrespeito à inteligência das pessoas que possuem senso crítico e certa capacidade de análise; reporta-me àquele célebre comercial de margarina em que aparece a família perfeita, e a vovó e o vovô de cabelos branquíssimos fazendo parte daquele contexto de mesa com toalha branca, céu azul e sol brilhando, marido mulher, filhos, cachorro etc. Por que melhor idade? Foi-se a juventude, foram-se as paixões, foi-se o vigor físico, foi-se a fase maravilhosa dos filhos crescendo, da busca pela realização profissional, do marido ou da esposa jovens e cheios de planos.
Sandra Castiel

A mãe de todos nós

Quando a gente é criança, a gente não consegue respirar se a mãe não estiver por perto, afinal ela sabe tudo sobre as pequenas e grandes coisas, ela sabe tudo sobre o que certo e o que é errado, ela parece conhecer todas as pessoas do mundo e cada filho pelo avesso: afinal ela é a mãe. Quando a gente é criança, nossa condição de incapazes nos leva a depositar sobre a figura materna nossa própria capacidade de existir: nada, absolutamente nada, que venha da mãe, essa figura idolatrada que nos alimenta com um grande sentimento amoroso, é questionado. Na adolescência, fase em que deitamos sobre o mundo um olhar próprio, começamos a enxergar as coisas da vida não mais através dos olhos da mãe; então descobrimos que ela também pode cometer equívocos e, não raramente, nos sentimos incomodados com todo aquele amor e com toda aquela proteção.
Sandra Castiel

Depressão

Abre o olho em meio à penumbra do quarto: é noite alta; sente de novo aquela sensação horrível, uma espécie de luto que a impede de ser feliz. Acreditava sinceramente que para ser feliz bastava respirar e contemplar a vida, sem dores. Mas por que cargas d’água esta sensação de luto, esta angústia, esta inquietação dorida que teima em brotar-lhe do peito e tomar conta de seu despertar, de seus momentos, de suas horas, de seus dias, de suas noites? Se antes, amava ouvir o canto dos pássaros, este agora lhe soa funesto, pois a remete amargamente à consciência da finitude de todas as coisas, sobretudo à sua própria finitude, lembrança triste, do tipo... “em breve vou morrer e não mais ouvirei o canto dos pássaros”; se antes deleitava a alma com o som de risos de crianças, agora pensa que não há mais crianças a sua volta e nunca mais haverá: sofre; se antes se encantava em plantar sementes de árvores frutíferas, agora pensa que as árvores são efêmeras como tudo que é orgânico, então pra quê contemplá-las?
Sandra Castiel

Amigos virtuais

Muita gente não gosta das redes sociais, como face book; os que não gostam argumentam que as redes sociais confinam as pessoas, privando-as do contato real com o próximo. Então se reportam ao passado, à proximidade com a vizinhança, ao tempo das cadeiras de embalo nas calçadas, etc. O fato é que o mundo mudou, as sociedades mudaram e impõem um novo modo de vida e de relações sociais. Certo é que as pessoas que viveram esse tempo precisam se adaptar a essas mudanças, senão acabam por se tornar arredias, reagindo contra a modernidade, reagindo contra as alternativas de contato como as redes sociais. Ora, onde, nos dias de hoje, existem cadeiras nas calçadas e o grupo da vizinhança reunido? Talvez em pequenas cidades do interior.
Sandra Castiel

O caminho de volta

A proximidade do inverno da vida levou-me a refletir sobre uma curiosidade: por que, à medida que envelhecemos, as lembranças remotas tornam-se cada vez mais nítidas em nossa mente? Quanto mais velhos, mais nos reportamos ao passado longínquo, à mocidade e à infância; passamos a lembrar tudo com detalhes: nossos pais ainda jovens, a infância junto a nossos irmãos, a fisionomia de avós, avôs e tias, as brincadeiras com os primos, as casas onde vivíamos, a vizinhança, a rotina de nossa vida então, a escola, os colegas de turma, as professoras que tivemos, eventuais apuros escolares, as broncas etc.
Sandra Castiel

Nós e as palavras

Acredito que as palavras, assim como as pessoas, são agrupadas de acordo com a afinidade; morte e vida, por exemplo, ficam muito longe uma da outra; não seria de bom tom colocá-las juntas, tanto que o guardião as situou nos extremos do templo, pois sabe que as palavras, assim como as pessoas, têm vontade própria, são movidas a sentimentos. Mas como separar morte e vida se, quando alguém morre, é comum ouvir-se: “- É a vida!” Neste quesito, o próprio guardião se confunde um pouco, mas felizmente seu lado divino esclarece tudo e nosso colecionador de palavras segue em frente.
Sandra Castiel

Nós e nossas duas almas

Cada criatura humana carrega consigo duas almas: uma que olha de dentro para fora, e outra que olha de fora para dentro. A alma interior normalmente se nutre do que trazemos conosco ao nascer, algo que transcende o imediato e que verdadeiramente nos humaniza. Porém, ao que parece, esta alma não é suficiente para que a chama da motivação se mantenha vívida, daí a necessidade da segunda alma, a perigosa alma exterior, a alma que nos domina e nos motiva a viver. Se à primeira alma basta a consciência de que podemos respirar e contemplar a vida, a natureza e a grandiosidade de tudo que é eterno, à segunda alma isto não é suficiente; esta quer mais; leviana, pode ser mudada ao gosto do freguês.
Sandra Castiel

Prosa miúda

Hoje acordei com uma palavra na cabeça, terei sonhado com ela? Pode ser. A palavra é "inspiração". Gosto desta palavra. Considero-a bela, quer pelo sentido, quer pela sonoridade. Comumente temos a impressão de que inspiração é privilégio de artista: o poeta precisa de inspiração para escrever seus versos, o compositor instrumental precisa de inspiração para sua partitura etc. Pouco meditamos, porém, sobre o fato de que a vida nos fornece inspiração a cada momento, para vivê-la, vivê-la em sua plenitude. E isto não significa felicidade contínua, não; viver plenamente é viver tudo, inclusive enfrentando aquele problemão. Neste quesito, desenvolvi uma técnica de sobrevivência emocional: Quando o problema é maior do que meu pequeno ser pode suportar, costumo compartilhá-lo com Ele; e Ele sempre tem a solução: no mínimo poderá ajudar-me a viver com o problemão. O importante é não deixar que as ruindades do mundo nos sequem a alma, pois uma alma seca é uma alma sem inspiração; isto, sim, é algo inaceitável...
Sandra Castiel

A lei de Deus

Antes do Natal, liguei para uma velha amiga a fim de cumprimentá-la. Curiosamente, seu rosto veio-me à lembrança com frequência nas últimas semanas: "é o chamado da amizade", pensei com meus botões. Porém, a voz que me atendeu do outro lado da linha não era a dela. Era uma de suas filhas que, com voz embargada pela emoção, repetia: "Mamãe faleceu... Mamãe faleceu". Bem que tentaram avisar, explicava a filha, porém, houve desencontros, recados não dados etc. O fato é que muitas amigas ainda não haviam tomado conhecimento da morte inesperada, e, assim como eu, dizia a moça, outras amigas seriam surpreendidas pela notícia. Pus-me a pensar no fato e na fragilidade de todos nós, seres viventes. Pus-me a pensar na vida e na morte. E a concluir que para alguma coisa serviram-me os anos. Daqui de onde estou posso contemplar minha vida inteira, minha infância e juventude, a idade adulta, a chegada da maturidade.
Sandra Castiel

O tilintar das moedas e o Cemitério dos Pretos Novos

Fato é que, em qualquer época e em qualquer lugar do planeta, o tilintar das moedas produz famigerados algozes, seja de pobres jovens e crianças arrancados de sua pátria (no caso dos africanos), seja de uma população inteira de uma cidade, munícipes privados das conquistas do desenvolvimento humano, um desenvolvimento que possui pré-requisitos: serviços eficientes de saneamento básico, de saúde e de educação. Se aos algozes dos negros escravizados o importante era garantir a rica colheita de suas safras para abarrotar seus cofres com barras de ouro, aos algozes da coletividade o importante é o consumo desenfreado, o acúmulo de bens, as viagens ao exterior, as mansões, os carros importados, o luxo e a ostentação. A qualidade de vida da população que se dane. Diferentes? Não creio.
Sandra Castiel

Uma noite com Fernando Pessoa

Ontem enquanto arrumava recortes de jornais antigos, um deles mobilizou minha atenção: tratava-se de uma crônica no Segundo Caderno de "O Globo", que eu recortara e guardara, encantada pela deliciosa narrativa de uma escritora de origem portuguesa sobre uma experiência fantástica: a noite que passara sozinha, dormindo no quarto que pertencera a Fernando Pessoa. O jornal, que começa a amarelar, é de 30 de novembro de 2011. Não obstante as mudanças por que passara o prédio em que vivera o poeta, ao longo do tempo, o quarto de Pessoa foi mantido intacto: a cama, o guarda-roupa, a cômoda, o criado-mudo. Nas paredes, seus versos manuscritos. Próximo à porta, um cabide com um traje completo do escritor: camisa social de cor branca, terno escuro, gravata, chapéu; no chão, os sapatos; tudo isto, no célebre endereço do poeta: rua Coelho da Rocha, 16, Lisboa, claro.
Sandra Castiel

Mentes complicadas

Tive uma amiga e colega professora, mulher cultíssima, urbana e conectada à modernidade, que esbanjava uma alegria de viver contagiante, independentemente das circunstâncias e eventuais adversidades; nada parecia surpreendê-la na vida; tinha uma leveza que simplificava tudo e era uma verdadeira levantadora de ânimos. Tal era o vigor e a energia positiva emanados daquela personalidade fantástica, que hei de confessar que, daqui de baixo, donde vivo carregando minha insignificância neste quesito, chegava a sentir uma pontinha de inveja: Por que cargas d’água, desde a infância, complico tanto e me deixo afetar pelas coisas mais simples e “naturais” da vida?
Sandra Castiel

Nós, mulheres

Sou de uma geração em que, desde tenra idade, aprendia-se que mulher nasceu para casar e ter filhos. A grande maioria dos livros que nos chegavam às mãos contava histórias de princesas colocadas em perigo por uma figura feminina má (comumente, a madrasta que vira bruxa) e libertadas da torre ou salvas da morte por um príncipe loiro, corajoso e galante. Portanto, nós meninas crescíamos convictas de que haveria um príncipe que nos salvaria das eventuais adversidades da vida, nos levaria para um maravilhoso castelo e, após uma festa de casamento que entraria para a história da Corte, seríamos eternamente felizes e teríamos muitos filhos, anjos perfeitos e obedientes.
Sandra Castiel

Antes que anoiteça

A maturidade vinda com o tempo levou-me a estabelecer certa analogia entre a idade humana e as estações do ano; volta e meia, surpreendo-me pensando ou dizendo que cheguei ao outono da vida, por exemplo; como estação, já fui primavera e verão. Amava ser primavera; criança, vivi plenamente as descobertas mais simples e realmente encantadoras da existência: o nascer do sol, as estrelas do céu, as incursões pelo quintal, o trabalho das formiguinhas operárias (existe coisa mais interessante do que segui-las?), a lua e suas diferentes formas e, claro, as brincadeiras da infância:amarelinha (nesta região era conhecida como “macaca”); queimada (aqui era conhecida como “cemitério” – quando o adversário era atingido pela bola, todo mundo gritava em coro: morreu!); o joguinho das cinco pedras – jogava-se as pedras juntinhas na calçada e o jogo de habilidade começava: uma ia para o alto, colhia-se duas, três, quatro.
Sandra Castiel

Estado de guerra

Há períodos em que a vida da gente é um estado de guerra. Como essa guerra ocorre em nosso íntimo, as pessoas em nossa volta não se dão conta disso e buscam na gente a companhia alegre, a conversa interessante, enfim, a saudável parceria do próximo, coisa que aliás torna a vida muito melhor. A pessoa cuja vida está em estado de guerra pode até fingir, mas isso não diminui a intensidade do bombardeio; a guerra continua lá e vai com ela ao trabalho, vai com ela ao supermercado, vai com ela ao restaurante e, o que é pior, dorme juntinho com ela.
Sandra Castiel

Os anjos vivem entre nós

Ao longo desta década de minha vida, desenvolvi uma convicção: vivemos rodeados de anjos. Para muitos, tal afirmação há de soar como uma heresia, afinal, a humanidade hoje dá mostras de que valores calcados no amor, na compaixão e na solidariedade parecem cada vez mais raros. É certo que se briga por qualquer coisa, filhos não reverenciam mais pais, como antigamente, e a ganância pelo dinheiro, pelas roupas de grife, pelo carro importado, pelas casas com piscina e pelo status social leva uma legião a roubar, a matar e a morrer. Sinal de um tempo em que quem dita os costumes é o shopping.
Sandra Castiel

Utopia

Fazer piada sobre políticos, no Brasil, é uma prática absolutamente corriqueira. Isso também ocorre em vários outros países. A diferença é que aqui a figura do político é permanentemente ridicularizada, achincalhada e desmoralizada, numa demonstração contundente do descontentamento e do descrédito dos brasileiros. Não há como negar essa evidência: a reputação da classe política de nosso país, de um modo geral, ultrapassou há muito o fundo do poço.
Sandra Castiel

Sobre a saga da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré

Cem anos depois do sonho, jaz a Estrada de Ferro Madeira Mamoré, abandonada e condenada ao esquecimento. Tanto já se falou sobre a Estrada de Ferro Madeira Mamoré!... Ao longo do tempo escritores ilustres, estudiosos, historiadores de várias nacionalidades, acadêmicos e pesquisadores debruçaram-se sobre sua história, sua saga, seu declínio, seu extermínio e, mais recentemente, sobre seu abandono. Ferrovia do Diabo, chamaram-na assim alguns; outros, Ferrovia de Deus.
Sandra Castiel

Minha mãe

O dia das mães sempre mexe com as emoções das pessoas. Penso em minha mãe e ponho-me a escrever sobre ela. Desse modo, vai daqui minha intenção de homenagear todas as mães, sobretudo as mortas; estas, então, não saem do coração da gente. Sou uma pessoa que já viveu várias décadas, portanto as lembranças da infância não são nítidas e nem apresentam uma sequência linear; elas se revelam como fragmentos que passeiam pela memória. Talvez ocorra desse modo com outras pessoas. Quanto mais significativas as situações vividas, quanto mais importantes foram aqueles que fizeram parte de nossa infância, mais intensos e rápidos esses flashes aparecem, como se nos desafiassem a persegui-los, numa busca interminável. É assim que consigo captar a imagem de minha mãe quando eu era criança de tenra idade.
Sandra Castiel

Madame Bovary e a metamorfose na Globo

Gosto de novelas; desde as mais modernas e sofisticadas até aquelas bem pesadonas, mexicanas, com finais previsíveis. As novelas da Rede Globo estão cada vez mais ousadas e sofisticadas. Uma das personagens de "Avenida Brasil", uma jovem culta que se passa por cozinheira, presenteia o patrão (da casa onde trabalha) com o livro "A Metamorfose", de Franz Kafka. Esta foi a maneira que encontrou de fazê-lo despertar para a própria realidade: vive explorado, enganado, aviltado e traído pela própria mulher, mas não consegue enxergar o que está diante de seu nariz; apenas deixa-se estar.
Sandra Castiel

Paradoxo

Noutro dia li um texto interessante, voltado à realidade de alunos universitários que são incapazes de ler um enunciado e compreendê-lo em sua plenitude; sua alfabetização não teve continuidade; não foi além de pequenos textos próprios às primeiras séries do ensino fundamental. Esta situação é comum neste país. Este é um tema recorrente entre escritores da área, mas o texto a que me refiro é diferente. Não se trata de mais um texto sobre educação; é, sim, uma crônica sobre a vida. O autor refere-se a esses alunos com o devido respeito e descreve a realidade da grande maioria deles: gente que não teve oportunidade de frequentar regularmente a escola e, mais tarde, busca recuperar o tempo perdido, fazendo cursos noturnos supletivos. Muitos desses indivíduos chegam ao ensino superior.
Sandra Castiel

O fim do patrimônio da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré

O ser humano possui em comum os sentimentos: quem não guarda objetos que lhe são caros, porque remetem à lembrança de alguém importante ou a momentos inesquecíveis? Você já imaginou, caro leitor, se pessoas de fora ocupassem sua casa e, em sua presença, jogassem no lixo objetos que, para você, possuem valor afetivo, deletassem de seu computador suas imagens mais preciosas, rasgassem as fotos de seus álbuns antigos, queimassem seus livros, pisassem na figura da santa por quem você nutre especial devoção, ou atirassem sua bíblia na lama? Isto seria o mesmo que tentar apagar suas pegadas, sua trajetória, os indícios de sua existência; seria o mesmo que passar uma borracha no mundo onde você se reconhece - um mundo que você ajudou a criar. Tudo isso porque ignoram sua história, não respeitam seu passado, não sabem o significado que aquelas referências têm para você e, certamente, terão para seus descendentes, cuja identidade será construída também a partir dessas referências.
Sandra Castiel

Assombrações

Podem me chamar de mística, não me importo; assumo que este tema realmente mobiliza minha atenção. Acredito em espíritos, do mesmo modo que acredito em seres extraterrestres. Não sou fanática religiosa nem lunática; apenas considero que espíritos existem e que andam por aqui, independentemente de nossa crença ou descrença. São apenas energias que alguns consideram aterrorizantes, consideram como assombrações. Claro que temos consciência dos mitos que envolvem a morte, fenômeno natural, ao longo de toda a existência humana no planeta; cada cultura manifesta de seu jeito peculiar o modo como a encara. O fato é que ela aterroriza, pois é a implacável e insuportável moira que vive à espreita.
Sandra Castiel

Dicionário de sentimentos

Às vezes fico me perguntando por que não há um dicionário de sentimentos humanos, desde os mais elevados aos mais rasos. Algo que transcenda a frieza da conceituação léxica e que seja capaz de traduzir em palavras simples o complicado, mas tão rico, universo da psicanálise. Há que se reconhecer que é difícil conceituar e dar sinônimos aos sentimentos. E como são confusas e delicadas as relações entre as pessoas!... São elas as geradoras de quase, digo quase, todos os sentimentos - que me perdoem os especialistas se estou afirmando uma inconsequência, mas a gente percebe a subjetividade das crianças, desde a tenra infância, em suas reações na interação com os coleguinhas de creche.
Sandra Castiel

A nossa vida

Há que se aproveitar a velhice, pois ela nos traz de volta as maravilhosas descobertas da infância, há muito esquecidas nas demandas e nas urgências da vida adulta... A maior vantagem de se envelhecer, além de poder ver os filhos adultos e também de saber como são os netos, é se dar ao luxo de sentar de novo no muro baixo da vida e dali contemplar suas verdadeiras belezas: árvores com frutas no pé, passarinhos, flores, sol brilhando, céu azul, céu estrelado, lua cheia, casinhas humildes no meio do nada, cheiro de terra molhada, muita sombra e água fresca, e tudo mais que se fotografou com a memória e se registrou na alma.
Sandra Castiel

A mãe do corpo

Ouvi falar a primeira vez sobre a "Mãe do Corpo" há mais de trinta anos, mas certamente as caboclas da Amazônia sempre conheceram essa senhora e aprenderam a lidar com suas manhas. Quando dei à luz meu filho, em Porto Velho, fui passar uns dias na casa de minha mãe, no bairro Caiari, pois ali, dizia ela, eu não precisaria preocupar-me com os afazeres domésticos e assim dedicar-me inteiramente aos cuidados com a criança recém-nascida. Em casa de minha mãe trabalhava, há cerca de vinte anos, Jaci, uma cabocla beiradeira que tinha uns sessenta anos de idade. Era uma pessoa de poucas palavras, mas quando ouvia algum queixume de doença, tratava logo de ensinar um remédio à base de ervas, todas da floresta amazônica, é claro, pois nascera e crescera no meio delas.
Sandra Castiel

Passageiros

Há alguns anos circulou pela internet uma mensagem bastante interessante sobre a vida e sobre as pessoas que cruzam nosso caminho ao longo da existência. Nela, a trajetória humana na Terra é comparada a uma viagem de trem: enquanto alguns embarcam em determinadas estações, outros desembarcam para sempre; há os que precisam despedir-se dos que se foram, receber os que chegam e continuar a difícil jornada -esta é individual e imprevisível. Prosseguir não é fácil, ainda mais quando se começa a viagem com um grupo grande e alegre com o qual se compartilha a trajetória: a cada estação o grupo fica menor -primeiro vão-se avôs e avós; depois pai e mãe. Como é difícil atender às exigências da continuidade da vida sem o apoio de entes tão amados...
Sandra Castiel

O fim do mundo

O ano vai acabar em 2012, segundo a previsão Maia. Há pessoas que se debruçam sobre este assunto há décadas: assistem a palestras sobre profecias, compram livros de vários autores sobre essa antiga civilização, estudam diferentes enfoques, enfim, essas pessoas estão convictas de que 2012 é o último ano da atual população terrestre; todos irão morrer, ou seja, os que sobreviverem até o dia 21/12/2012 morrerão no mesmo dia e na mesmíssima hora. Isso me reporta à infância, pois essa conversa sobre o fim do mundo é muito antiga: quando me vinham com esse tema, eu ficava deveras impressionada e responsabilizava imediatamente Deus.
Sandra Castiel

Gavetas vazias

Quando a gente é jovem a vida é uma festa. É verdade que de vez em quando há aborrecimentos, porém a vitalidade da juventude acaba por simplificá-los, para valorizar o que realmente é importante na vida: a alegria do momento - Brigou com a pessoa que até ontem você acreditava ser o amor de sua vida? Que pena!... Algumas horas de melancolia, e você já repara em como o coleguinha da escola é atraente. E a página é virada, abrindo espaço para outra história. A juventude tem pressa, vai à vida como um sedento vai ao pote, com muita vontade. Mas isto passa.
Sandra Castiel

Um Natal inesquecível

Já fazia algum tempo que a família chegara a Belém do Pará, para onde seguira a fim de tentar uma nova vida longe de Porto Velho. 1959: ano difícil. Nos primeiros dias, os parentes da mãe, que residiam em Belém, ajudaram nas acomodações, afinal era uma família numerosa, muitas filhas, quatro delas ainda pequenas. O pai afastara-se do emprego em Porto Velho, sem vencimentos, por perseguições políticas; a mãe licenciara-se por alguns meses, mas o salário de professora era insuficiente. Recomeçar a vida no Pará, de onde haviam saído há muito, parecia impossível.
Sandra Castiel

Mensagem de Natal e Ano Novo

O mês de dezembro é um mês especial para nós, cristãos. A atmosfera festiva das ruas invade nossos lares pela televisão, seja através das músicas natalinas, seja através dos símbolos do Natal nos comerciais - árvores, luzes, cores, papai Noel. As cidades se tornam espaços mágicos, sobretudo para as crianças - as crianças que têm a felicidade de fazer parte de uma família. Seja qual for nossa religião, cada um de nós, nesta época, se dá conta de que é um Ser que necessita entrar em sintonia com Deus. Então, se estivermos com saúde, agradecemos; se estivermos doente, clamamos pela cura com mais fervor. Se estivermos trabalhando, damos graças pelo pão que trazemos para casa; se estivermos sem trabalho, suplicamos à providência divina que nos ajude a encontrar uma oportunidade.
Sandra Castiel

Os mistérios da cachoeira de Samuel

Ao longo de minha vida e de minha profissão, já ouvi histórias referentes às diversas regiões do Brasil. Porém, tão ricas como as nossas não há. A selva amazônica é guardiã de mistérios impressionantes. Não é à toa que seus antigos habitantes traziam à ponta da língua uma boa história, verdadeira para quem a contava. Como amante de mistérios e genuína amazônida, creio em todas. Nos dias de hoje, grande parte da população da Amazônia vive distanciada da natureza. Isso não acontecia no passado. A floresta e os seres que nela habitam faziam parte de nossa vida. A natureza exuberante – árvores gigantescas, animais exóticos, igarapés caudalosos e banhos de rio - era o cotidiano das pessoas, e isso se traduzia no respeito que todos, crianças e adultos, nutriam por esse universo.
Sandra Castiel

Nossa insustentável leveza

Noutro dia assisti ao filme sobre a vida de Charles Darwin, o cientista inglês cuja teoria contida no livro "A Origem das Espécies" causou o maior rebuliço na humanidade. O filme é muito bom, chama-se "Criação". Mostra um Darwin ainda jovem, na Inglaterra dos idos de 1850, mais ou menos, casado e pai de muitos filhos. Darwin era cristão. Mas à medida que avançava nas descobertas científicas, suas convicções religiosas diminuíam. Perdeu completamente a fé quando morreu sua filha de dez anos. Atormentado e cético, Darwin tenta trazer para sua realidade a esposa, que, desesperada, busca na religião algum consolo para a morte dessa filha, uma menina linda e inteligente, com quem o jovem pai Darwin mantinha uma afinidade transcendental.
Sandra Castiel

Rasante sobre a lama humana

Diariamente, visito meu correio eletrônico. Além do trivial, há com frequência mensagens que contêm frases ou textos eventualmente atribuídos a algum célebre escritor. Algumas mensagens vêm ilustradas com belas imagens, música erudita etc. e trazem ensinamentos sobre a vida e sobre como enfrentar situações adversas. No mínimo, isso é algo positivo. Interessante é que a pedagogia contida nessas mensagens me reporta, embora em outro aspecto, às lições morais das fábulas de minha infância. Aliás, é impressionante como certas coisas provocam na gente lembranças remotas. Isto me leva a suspeitar de que minha alma é contemporânea de Matusalém.