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Samuel da Costa

O fim é uma certeza

Os passageiros dividiam o espaço do vagão, com correspondências e mercadorias advindas da cidade portuária. O trem estava a caminho do litoral para o interior. Os poucos passageiros, na maioria, eram de trabalhadores pobres e maltrapilhos, estavam inertes em seus mundos particulares. O silêncio ali imperava, reinava absoluto, em todos os sentidos, até o barulho da locomotiva parecia querer ficar lá fora. Sentada em um banco de madeira uma menina vestida, com um modesto e surrado vestido de chita floral rosa e incrivelmente limpo, laço surrado amarelo na cabeça e os pés estavam desnudos.
Samuel da Costa

Adeus Gestalt

No atelier quadros com paisagens tropicais estavam espalhados por toda a parte. Índios de varias etnias, Tupinambá, Xukuru, Xavante, Kamayurá, Kayabí, Wapichana, Macuxis e Kayapó, em cenas de caça e pesca. Índias banhando-se em rios, lagos e trançando o sisal, crianças indígenas brincando, o verde das matas e as cores fortes e vivas das araras predominavam, assim como as flores típicas da flora brasileira. Missael reconheceu cada etnia, e não deixou de achar graça das cenas retratadas, lembranças da infância passavam pela cabeça, truncadas, mas vinham. Estar ali era como voltar ao passado, não muito distante. Missael Da Maia sentia-se em casa pela primeira vez em anos.
Samuel da Costa

Todos aqueles que sobraram ll

Ao descer as escadas da casa um sentimento lhe invade a alma. Era como um chamado, tinha que ir à praia de qualquer jeito, com se alguém ali o espera-se. Desde criança na África escutava essa estória sobre a Quianda e seu canto sagrado, metade mulher e metade peixe. Cantava, seduzia e matava, era essa a estória que ouvia de pescadores e marinheiros de Benguela, Bengo e Luanda. Também ouvia a mesma estória dos ribeirinhos do rio Cuango e do rio kwanga. Começou como uma brisa fresca, típica da beira mar, mas agora esse zunido que se transformara em um canto finalmente.
Samuel da Costa

Todos aqueles que sobraram I

Naqueles anos de guerra subterrânea, tempos da chamada ‘’Guerra fria’’. Que o apanhou ainda criança na velha África, quando por diversão cantava, como criança marota que era, hinos da guerrilha perto de soldados portugueses que patrulhavam as ruas de seu país. Cantava o hino próximo aos soldados armados de fuzil para depois sair correndo. Aristo também se recorda de seus muitos exílios forçados em diferentes países. Nos anos em que viveu na Europa e dos amigos e inimigos que fez nesses conturbados anos de luta armada.
Samuel da Costa

Angelina

O sargento Tavares escuta o som das ondas a bater nas pedras, e o cheiro da maresia a lhe invadir as narinas e, não pode deixar de pensar na infância pobre que teve, estava ele com seu discurso pronto. –Canalha, maldito, calhorda! Diz Tavares de si para si mesmo, agora diante do genro, um branco total toma sua mente e a ideia de matar o jovem diante dele de repente lhe vem à cabeça, um lampejo apenas.
Samuel da Costa

Dark Saga 3

José Luiz não soube o porque de botar a velha garrucha, que pertenceu ao seu pai, na cintura e pegar o machado e ir cortar lenha sobre um sol forte. Mas naquele dia ele queria ficar sozinho em seus pensamentos. De fato isso estava longe de acontecer, pois parecei que uma multidão sussurrava em seus ouvidos. Eram vozes que a viam desconexas, mas viam com toda a força. José Luiz então se lembra do corte no pé, feito com o machado, isso foi há algum tempo, não bastara ter um só braço teve mais esse inconveniente em sua vida. E a lembrança do velho Adélio, seu avô, com suas histórias, lhe invadem a mente.
Samuel da Costa

Dark Saga 2

Martiniano em seu íntimo relutava em aceitar a sua nova realidade, àquela rotina diária, mas o fato era que estava se habituando a ela. Estava se habituando a espera, às vezes breve com um raio, outrora demorada, como seu o tempo pairasse no ar. Às vezes de dia, outrora à noite, a chuva e o sol, o calor e o frio e por fim fome e a fartura. Mas uma coisa não mudava em absoluto, era cheiro de sangue, a pólvora queimada e o barulho de espada que se digladiavam no ar.
Samuel da Costa

Dark Saga 1

Os maus modos à mesa a incomodava, como também o jeito brutal que ele tratava os escravos. Antes ela não precisava presenciar tais bestialidades que se praticava no mundo dos homens. Mas agora morando em uma província distante do império, a coisa era diferente. Tinha aquela gente negra e mestiça por toda parte, estavam tão próximos. Estavam tão presentes, no dia-a-dia, aqueles pobres diabos. E do outro lado a falta de um convívio civilizado, tinha a falta dos teatros, dos jornais, dos livros, revistas de moda vinda diretamente de Paris, das conversas nas soverterias e cafés com os amigos vindos do estrangeiro, um mundo tão cheio de novidades.