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Rubens Turci

O que é o Śuddha Dharma? – Parte 05

Um dos maiores méritos da Bhagavad Gītā do Maṇḍalam, em suma, está em sua cuidadosa estruturação que, além de explicitar o śuddha sāṁkhya, previne contra os argumentos falaciosos, tais quais os levantados por Śāṁkara em defesa do kevala sāṁkhya, em seu “Comentário à Bhagavad Gītā”. Śāṁkara critica o entendimento do śuddha sāṁkhya, que já estaria presente na tradição de comentaristas que o antecede. Entretanto, uma vez que o seu Comentário é o mais antigo que chegou até nós, pouco se sabe desta tradição, somente resgatada com a edição da Bhagavad Gītā do Maṇḍalam. Todos os manuscritos dos “Comentários à Bhagavad Gītā” anteriores a Śāṁkara se perderam. Segundo o próprio Śāṁkara, todavia, estes comentários entenderiam que a Bhagavad Gītā propõe a via de síntese dialética entre as vias da ação e da não-ação, aqui denominada de śuddha sāṁkhya.
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O que é o Śuddha Dharma? – Parte 04

Como a epistemologia śuddha sāṁkhya, descrita por Kṛṣṇa na Bhagavad Gītā, explica o tipo específico de atitude devocional (bhakti), conhecido como śraddhā, e que representa o elemento de ligação, capaz de levar Arjuna, finalmente, a tomar a sua decisão? E por fim, como considerar a epistemologia kevala sāṁkhya defendida por Śāṁkara e por grande parte da ortodoxia hindu, face àquela (śuddha sāṁkhya) descrita na Bhagavad Gītā e explicitamente destacada na versão do "Śuddha Dharma Maṇḍalam", publicada pela primeira vez em 1917? Este é um modo de se colocar algumas das questões que esta serie procura discutir e que
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O que é o Śuddha Dharma? – Parte 03

A Bhagavad Gītā é universalista. Trata, por isto mesmo, não apenas da superação desta ou daquela tradição, mas da sua própria superação. Daí a Bhagavad Gītā constituir-se, não propriamente como uma Escritura Sagrada – visto que é antes um Poema Filosófico –, mas como a Escritura das Escrituras Sagradas, ou seja, como aquela Escritura capaz de revelar, nas demais, a essência universal por detrás das suas vestimentas culturais. Enquanto os diversos sistemas religiosos definem conteúdos para a fé, a Bhagavad Gītā despe a fé de todas as suas vestimentas culturais externas e promove a reconciliação com a razão, manifestando-se, então, como śraddhā, ou convicção interior e fervor do coração, fruto do contato com a essência sagrada do real.
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O que é o Śuddha Dharma? – Parte 02

Dissemos, anteriormente, que o śuddha (essência, puro) dharma (sagrado) constitui a matéria, por excelência, de que trata a Bhagavad Gītā. Necessitamos, agora, aprofundar este ponto. A essência do sagrado (śuddha dharma) não é algo que possa ser “conhecido” pelo estudo teórico de qualquer Escritura. Do mesmo modo que o conhecimento detalhado do mapa de uma cidade não possibilita ao sujeito o mesmo tipo de experiência de quem, de fato, percorre todos os seus caminhos, assim também se dá no âmbito do śuddha dharma. Não basta estar familiarizado com textos e aspectos teóricos relativos ao sagrado. É necessário percorrer os caminhos, identificar as paisagens e aprender a distinguir todos os sinais que vão se apresentando para saber o momento de parar, de virar, os locais que se deve visitar, ou evitar, e assim por diante. Assim como as demais Escrituras,
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O que é o Śuddha Dharma? – Parte 01

O śuddha (essência, puro) dharma (sagrado) constitui a matéria, por excelência, de que trata a Bhagavad Gītā. Representa a revelação do sentido essencial (śuddha) de sagrado (dharma) feita por Kṛṣṇa a Arjuna. Embora permeie todos os sistemas sectários – tanto ortodoxos (Vedanta, Shivaísmo, Samkhya, Yoga, etc.) como heterodoxos (Tantra, Budismo, Jainismo, etc.) – também os transcende, visto que o śuddha dharma não pode ser reduzido a palavras e sistemas, representando, antes, a experiência única decorrente do estado de espírito alcançado por Arjuna no momento que antecede a grande batalha da qual tomará parte. Arjuna encontra-se além do estágio da pessoa religiosa comum. A sua confissão com Kṛṣṇa, se assim podemos chamar, é obra de um espírito maduro, que aprendeu a refletir antes de agir, para não ter razões de arrependimento e remorso. É, portanto, o próprio estado de espírito de Arjuna a causa para a sua conversão. Se há remorso e arrependimento em Arjuna isto se dá como antecipação dos resultados que supõe estar prestes a colher, em função das decisões a serem tomadas. O seu remorso é função da dor alheia, que quer redimir. O seu arrependimento e tristeza manifestam o desejo de possibilitar ao outro um caminho que também conduz à salvação. Daí que a fé que orienta a sua ação esteja abalada. Arjuna, entretanto, encontra-se no limiar de algo muito maior que a mera fé exterior que possuía no sagrado esboçado nas Escrituras. Ele está muito próximo de alcançar, em seu coração, um tipo de certeza e experiência com o sagrado que transcende a esfera daquilo que, até então, entendia meramente como objeto de fé.
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Como eu vejo o Projeto Reviver

A estória que quero contar para exemplificar como eu vejo o Projeto Reviver começa um pouco antes de um fato simples, que teria me passado despercebido, ou sido interpretado como mera coincidência, não fosse o próprio depoimento de um dos internos, uma estória de um dos muitos milagres que presenciei na Fazenda Mãe Natureza, sede da Grande Síntese, a instituição mantenedora do Projeto Reviver. Ela tem relação com a seguinte pergunta fundamental que todos devemos nos fazer: “como é que você espera se recuperar da vida que estava levando?”
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Espiritualidade, heresia, dogma e reencarnação

A doutrina da reencarnação sempre foi vista como uma ameaça aos dogmas da Igreja, embora estivesse presente entre os cristãos dos primeiros séculos. E ainda hoje o próprio conceito de “espiritualidade” costuma ser entendido como sinônimo de heresia. Eram considerados hereges todos aqueles que liam livros não autorizados pela Igreja e seguiam o cristianismo segundo as suas consciências. Quem divulgasse a doutrina da reencarnação, por exemplo, cometeria heresia e seria considerado “cismático” por não se submeter à Autoridade da Igreja por intenção e vontade própria (característicos do cisma). O ponto crucial para se reprimir a doutrina da reencarnação é a sua incompatibilidade do ponto de vista teológico-filosófico com o dogma da Santíssima Trindade, concebido para resolver as disputas entre as distintas correntes do cristianismo, que discutiam se não teria havido um tempo em que o Cristo ainda não existia. Vale dizer, se o Pai tivesse gerado o Filho, este, por ter sido gerado, teria tido um início de existência. O dogma defende, portanto, que o Cristo é unigênito e que somente Ele, e nenhum outro humano, teve existência em espírito antes do nascimento na carne.
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Yājña para o despertar sagrado em doze passos

Quando a realidade externa nos apresenta problemas, temos que entender que ela está nos contemplando com oportunidades de nos voltarmos sobre nós mesmos, para, a partir daí, lidarmos com o externo, que nada mais é que reflexo do interno. Essas ocasiões são sempre um convite para a compreensão ritualística de toda atividade humana em termos de yājña, dāna e tapas, tal como definidos na Bhagavad Gītā. No yājña oferecemos em sacrifício algo de nosso ego, de nossa natureza inferior. E o yājña vem sempre acompanhado de tapas, ou da postura austera em palavras, pensamentos e atos, e de dāna, ou do exercício de doação de si mesmo, em nome da harmonia e do Sagrado. A luz gerada pelo yājña é capaz de dissipar as trevas que nublam as moradas interiores e exteriores de cada um, auxiliando-nos em nossa jornada.
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Francisco Barreto na UFRJ (2)

Talvez tenha despertado com este desejo de escrever em função de um sonho, bastante interessante, que tive esta noite com um dos mestres mais elevados que já conheci. Tinha aquele inconfundível brilho nos olhos e, embora tomasse o cuidado de se passar por uma pessoa comum, um simples instrutor religioso no meio de tantos outros, da sua simples presença irradiava aquela paz do coração que já aprendera a identificar e que se fazia perceptível também para mais alguns.Observava aquele verdadeiromestre espiritual, totalmente atento e vigilante para não deixar transparecer nada que pudesse ferir as consciências não despertas da grande maioria ali presente, quando uma pessoa interrompeu o silêncio e, em voz alta e emocionada,
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Francisco Barreto na UFRJ

Francisco Barreto esteve na UFRJ (Casa da Ciência e CCMN) nos dias 01 e 02 desse mês de julho para o ciclo de palestras e atividades “Encontros com o Coração”. A tônica dos encontros foi o seu exemplo de quem vive a vida de uma maneira corajosa, sem rejeitar o mundo e as suas provas, mas buscando compreensão e forças para persistir, sem desistir, até o final. Esta mesma orientação está materializada nos vários projetos desenvolvidos pela Grande Síntese sob a sua direção, em especial, o Projeto Reviver, desenvolvido na Fazenda Mãe Natureza, às margens do rio São Francisco, no Povoado da Saúde, em Santana do São Francisco, Sergipe, na divisa com Alagoas.
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A Ciência como a Ciência do Sagrado

O universo necessita ser visto como uma obra de arte. Não basta compreendê-lo pela razão. Torna-se necessário emocionar-se com ele, ou indignar-se, até, ante os casos de violência e injustiças. É o coração que nos permite perceber a vida e o universo como uma espécie de poema cósmico, onde o solo, os rios, a água, o ar que respiramos e a própria vida aparecem como partes de um todo sagrado e em perfeito equilíbrio. Nem a razão tecnicista da ciência do século passado, nem os antigos dogmas de fé possibilitaram esta solução, que passa por reaprender a olhar para este universo e para a vida como expressões de algo sagrado, holístico e ecológico.
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Religião, espiritualidade e o Festival de Wesak

De 14 a 20 de maio próximo acontecem, em várias partes do mundo, as celebrações que tomam o nome de Festival de Wesak. O Festival de Wesak representa uma grande manifestação da religiosidade popular do Tibete e da Índia, onde se festeja, basicamente, a Iluminação do Buda. Ocorre durante a Lua Cheia do mês Wesak, que, em nosso calendário, corresponde ao final de abril e início de maio. O curioso é que este festival vem se transformando num ícone, não das antigas religiões orientais, mas da moderna espiritualidade. E a razão para isto talvez se encontre em suas próprias origens.
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Mente sustentável e a Bhagavad Gita

Há algum tempo acompanho os trabalhos e o ativismo do Prof. Evandro Vieira Ouriques (Coordenador do NETCCON - Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência. Escola de Comunicação da UFRJ) em torno de conceitos como “Território Mental” (o fluxo dos pensamentos, afetos e percepções) e “Mente Sustentável”. Existe certo paralelismo entre os nossos trabalhos. Ambos nos valemos das categorias políticas que orientaram, por exemplo, o pensamento de Gandhi.
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O selo do dharma

Segundo narra o Mahabharata, criaturas perigosas, vivendo de com acordo com os seus desejos passionais, ocultavam-se na floresta, onde também viviam os sábios, cujas paixões haviam sido sublimadas pelo anseio maior de experimentar o divino. A realidade apresenta-se para estes dois grupos de seres por dois modos distintos: apresenta-se como “samsara” (realidade sensível) para os primeiros; e como “nirvana” (realidade apreendida pela mente iluminada), para os segundos.
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A subjetividade e o “Movimento Espírita”

Vou comentar um sonho que tive à época dos primeiros rascunhos desta serie. Estava lendo um texto de alguém que dizia psicografar Chico Xavier e a leitura foi me causando certo estranhamento. Embora não fosse especialista, sabia que aquele estilo não era o dele. Chico Xavier, então, apareceu diante de mim e disse que as minhas desconfianças eram infundadas. Curiosamente, tinha o semblante de Alan Kardec. Louvou aquele meu zelo e comentou, inclusive, sobre um antigo desafeto que vivera de plagiar e ofender a essência da Doutrina Espírita. Entretanto, acrescentou, estes lobos era nos serviam de teste.
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Coração Tranquilo(5)

Quando Blavastsky apresentou na Sociedade Teosófica os negativos desta foto ninguém conhecia nada a respeito desses mestres. Apesar das máquinas fotográficas pouco sensíveis da época, esta imagem captara, na verdade, o primeiro registro fotográfico sobre a existência desses mestres. Considerando-se que este fato gera polêmicas até hoje, pode-se imaginar, então, a verdadeira revolução que esta foto provocou dentro da Teosofia. Acusada de falsificar os negativos, Blavatsky sofreu muito.
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Coração tranquilo(4)

Na ação encontramos todos os ensinamentos. Quando estamos atentos e vigilantes, percebemos que as ações que se apresentam em nosso dia-a-dia desempenham as funções de um verdadeiro mestre, propondo-nos o despertar da quarta faculdade em nós, que é Dhriti, a faculdade intuitiva. Dhriti possibilita a realização da síntese (samahara) das faculdades do conhecimento, do desejo e da ação (jnana, iccha e karma).
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Coração tranquilo(3)

Há um decreto que fazemos aqui na fazenda, antes de todos os trabalhos, que define bem o espírito e sentido das ações coletivas, corajosas, com as quais todos precisamos nos comprometer, se queremos deixar para as gerações futuras um mundo melhor: Eu uno as minhas mãos às suas mãos, o meu coração aos seus corações, para que juntos possamos fazer tudo aquilo que sozinho eu não consigo.
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A dialética do concreto

As discussões presentes no Mahabharata dão conta tanto da ortodoxia, representada por aqueles que aceitam as verdades dos Vedas, como da heterodoxia, representada por aqueles que rejeitam tal autoridade védica, como os jainistas e budistas. É minha tese que o texto épico Mahabharata, compreendido em sua totalidade, reproduz os valores morais, conforme expostos em toda a literatura sagrada do período védico e upanishádico, enquanto que o seu episódio principal, ou seja, a Bhagavad Gita, representa uma reflexão crítica desta tradição.
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A vivência na Fazenda Mãe Natureza

A mente segue métodos e metodologias; o coração, não. O coração apenas busca o seu ritmo e procura se harmonizar, para que cada um possa evoluir junto na escola, sem perder a cadência, nem o compasso. A mente filia-se a distintas correntes – correntes religiosas, correntes filosóficas, correntes políticas. O coração, não. O coração não tem corrente, porque não sabe viver acorrentado.
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Coração tranquilo(2)

Durante estes dias, como é de se imaginar, estou passando por várias experiências – sonhos místicos e epifanias durante os trabalhos e as práticas coletivas. Na madrugada de domingo, após um desses sonhos, acordei extremamente leve. Pouco depois, notei que um peso que eu parecia carregar nas costas nestes últimos anos havia sumido. O cansaço e a dor nas pernas também haviam se ido. Havia me livrado do fantasma que me atormentava há anos, impedindo-me de avançar rumo à transcendência.
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Coração tranquilo

Sexta-feira foi um dia difícil e sublime. Nunca pensei a falta que poderia sentir da água. A sede não me permitia sequer pensar na fome. Os preparativos todos que existem na fazenda, entretanto, logo, me fizeram direcionar a minha atenção para o coração. Trabalhei pesado na cozinha, ajudando na limpeza, enquanto outros preparavam as refeições dos internos para toda a semana. Fogões industriais e panelas imensas. Muitas tigelas e travessas. Fiquei lavando e enxugando por horas. Isto me ajudou a enfrentar o jejum naquele primeiro dia que foi o mais difícil. O relato de outras pessoas sobre o mesmo processo também me dava forças para seguir.
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Antes que os olhos possam ver…

Escrevi esse livro despretensioso, de natureza confessional, mais para aprender a ouvir os ecos do coração, muito embora ainda não soubesse dessa sua capacidade de nos reapresentar tudo como verdade e caminho. Se tratei da pedagogia da dor, foi para me reencontrar com aquela pedagogia do amor, que me aparecera de forma tão natural ainda na primeira infância.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: a escuta do coração

Parodiando um antigo ditado, diria que, depois que o discípulo está pronto, o mestre “desaparece”. Bateis e abrir-se-vos-á, está escrito. Em outras palavras, existe um momento a partir do qual os mestres passam a se apresentar através da nossa consciência, revelando-nos os perigos do caminho assim como os modos de superá-los. Tais movimentos da consciência, que promovem a contínua reavaliação dos hábitos e valores, representam verdadeiras iniciações, as quais, aos poucos, ensinam-nos a reconhecer e confiar nos diferentes tons e vozes com ressonância, unicamente, no coração.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: a necessidade provisória das religiões

Poder-se-ia, então, perguntar: de que vale o conselho de uma instituição religiosa para aquele que já aprendeu a se aconselhar com o sagrado em seu coração? A frase “as religiões são muletas”, de Krishnamurti, por exemplo, sugere que as religiões institucionalizadas são, de certo modo, desnecessárias. Jesus não “seguia” nenhuma religião. O Buda diz ter atingido a sua iluminação após ter negado a verdade professada pelas religiões do seu tempo. Martinho Lutero ousou deixar a Igreja Romana. Todavia, os exemplos não são muitos. De fato, foram poucos aqueles que foram bem sucedidos sem estas muletas.
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A doutrina do coração, conforme a sua revelação original Bhagavad Gita

Os Anos Sessenta buscaram a sua fonte de inspiração para desenvolver a visão ecológica, em grande parte, nos textos sagrados da Índia, onde predomina uma visão holística da realidade. Os termos então em voga, “ativismo”, “consciência”, “paz e amor”, “tolerância racial”, “respeito à diversidade”, “integridade”, “verdade”, “coerência”, “dignidade”, “cidadania”, “cooperação”, “solidariedade”, etc., exigiam das pessoas algo para além daquilo que a ciência e as religiões conseguiam oferecer. Exigiam uma compreensão ecológica profunda da realidade, onde as fronteiras entre o que pertence ao coração e à razão ficavam menos nítidas. O universo passava a ser visto como uma obra de arte. Não bastava compreendê-lo pela razão – tornava-se necessário emocionar-se com ele, ou indignar-se, até, ante os casos de violência e injustiças. E era o coração que nos p
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A doutrina do coração conforme a sua revelação original na Bhagavad Gita

A ideia de síntese dialética do sagrado surge no Mahabharata e alcança o seu clímax na Gita. Sai Baba a resume como se segue: “Há uma só casta, a casta da humanidade; há uma só linguagem, a linguagem do coração; há uma só religião, a religião do amor; há um só Deus, e Ele é Onipresente.”. Quando o coração está pronto, abre-se para o sagrado, e para esta compreensão de que “Fora da Caridade, ou seja, fora do Amor”, nas palavras de Chico Xavier, “não há salvação.”.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: luz no caminho

No budismo, por exemplo, tomam a forma das Quatro Verdades Sagradas, enunciadas no primeiro sermão do Buda, logo após a sua iluminação. A primeira verdade refere-se a duhkha, ou sofrimento a que todos estamos submetidos. A segunda verdade identifica no desejo a causa de todo sofrimento. A terceira afirma que a cura para o sofrimento é possível através da remoção de sua causa (o desejo). Uma vez que o desejo é eliminado, o sofrimento acaba e se experimenta o nirvana. A quarta verdade delineia a sagrada disciplina óctupla do Buda para a realização deste fim.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: algumas leis do funcionamento objetivo

Assim como o texto de Chico Xavier, a Gita também funciona como um manual para a reta-ação. A premissa subjacente, tanto à obra de Chico Xavier como um todo, como à Gita, afirma que não somos simplesmente seres individuais, mas que formamos um corpo sagrado, onde cada indivíduo funcionaria como um órgão interdependente.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: o coração tem razões que a própria razão desconhece

Costuma-se dizer que traduzir é, por si só, trair, violar, desvirtuar. Entretanto, isto não deve ser motivo para que não procedamos às traduções de um sistema linguístico para outro. Da mesma forma, isto também vale para as ‘traduções’, dentro de um mesmo idioma, de um sistema de pensamento para outro, que se constrói sob diferentes paradigmas. É somente desta maneira que pode a física contemporânea, por exemplo, tirar vantagem dos teoremas oriundos, tanto da Mecânica Quântica, quanto da Teoria da Relatividade.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: o Cristo interior

O primeiro capítulo da Gita descreve o estado de confusão mental e depressão de Arjuna. Já os demais capítulos convidam-nos a vencer os nossos inimigos internos, ou seja, aquilo que antes se via como inimigos externos. Para tal, destaca-se, devemos mudar o nosso modo de operar no mundo, invertendo o nosso funcionamento de modo que a nossa natureza inferior (ahamkara), egoísta, passe o comando do nosso ser para a nossa natureza superior (atman), altruísta.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: a batalha do ser

Antes de me referir ao texto da Gita propriamente dito, quero ressaltar dois pontos. O primeiro, diz respeito à ética, conforme expressa na famosa frase de Sócrates, proferida logo após o seu julgamento, quando fora condenado à tomar a cicuta. O segundo ponto liga-se ao primeiro por discutir a natureza mesma da ação e como ela se vincula ao mistério da renúncia, que faz com que a ação seja, a um só tempo, caridosa, amorosa e perfeitamente ética.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: espiritualidade e heresia

Hoje é comum ouvir-se falar em ‘espiritualidade nativa’, ‘espiritualidade feminina’, e assim por diante, para designar aquilo que as religiões institucionalizadas nem sempre conseguem abranger. O termo funciona como um esforço para unir, antes que para dividir. Em linhas gerais, define-se ‘espiritualidade’ como a vida interior e o conjunto de práticas que a sustém, sem que isto se dê necessariamente em associação com qualquer religião institucionalizada. É através deste termo que se pode colocar juntos, sob uma mesma categoria, pessoas tão distintas quanto o Bispo Desmond Tutu, Dom Helder Camara, Gandhi, Tolstoy, Joana D’Arc e o Dalai Lama Tenzin Gyatzo, por exemplo. O termo ‘espiritualidade’ empresta fôlego novo para lidar com as antigas divergências e se apresenta com um bom candidato para substituir o papel que se atribui à ‘religião’.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: a disciplina do coração

Isto me fez pensar na obra de Chico Xavier e como ela se relaciona com a antiga disciplina do coração, fundada no amor, conforme a exposição de Krishna à Arjuna na Bhagavad Gita. Os romances de Chico Xavier trazem ao ocidente esse aprofundamento sobre a disciplina introduzida por Cristo. A sua obra retrata a relação do ser humano com a divindade que reside no coração e a sua lei, mantendo-se fiel à simplicidade do Sermão de Cristo e, ao mesmo tempo, tratando de alguns detalhes mais técnicos que só aparecem na Bhagavad Gita.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: o novo paradigma no Sermão da Montanha

Por isto mesmo, considerando o Sermão da Montanha, só é prudente aquele que, como Chico Xavier, conhecendo, pratica, pois a justiça anunciada por Jesus foi aquela do coração, começando na mente, enquanto pensamento, passando pela vontade, e, finalmente, transformando-se em atos. Por isto nos pede Tiago para que sejamos praticantes e não meramente ouvintes. E isto se confirma em João, onde se cita àqueles que evitam o estudo e a prática da palavra daquele em quem professam crer. Não é parecer bom, ou mostrar-se piedoso, mas ser e viver o que nos leva ao objetivo final.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: a experiência do olhar

A alma também poderia ser identificada e interpretada em termos de alguns sinais mais fundamentais . Esta capacidade natural de interpretação manifestar-se-ia, nos seus níveis mais rudimentares, por exemplo, como um sentimento de simpatia ou antipatia que um ser desperta no outro, sem que se saiba ao certo a razão.
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Chico Xavier e a Bhagavad Gita: a presença dos ancestrais

Era plena madrugada e eu sabia que não podia parar a leitura. Não estava refeito do choque que me causara escrever estas notas sobre as orelhas das páginas do texto de André Luiz, e me incomodava ainda o fato de eu grafar com a minha caligrafia a confissão de que aquele ser que agora me inspirava teria, no passado, mesmo sendo monoglota, psicografado em sânscrito, quando,
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A grande síntese dialética do sagrado

O cuidado e o critério são qualidades que devemos cultivar sempre. Certamente é difícil manter a coerência de um sistema de pensamento quando introduzimos nele elementos que lhe são estranhos. Entretanto, isto não nos deveria desmotivar de realizar tais experimentos. Quando o coração está pronto, abre-se para todos os sistemas. Os sistemas de pensamento são quebra-cabeças, onde as distintas peças representam os conceitos básicos. Basta misturar as peças de distintos quebra-cabeças para perceber que deixa de ser simples montar as figuras. Para o espírito maduro, entretanto, não é tarefa difícil separar outra vez as peças.
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A Consagração do Alimento, das Ações e do Meio-Ambiente

Há três orações simples que estimulam o fortalecimento do vegetarianismo e da ecologia profunda, favorecendo o desenvolvimento de uma atitude adequada perante todas as questões que a vida nos apresenta. A primeira oração é de "Consagração do Alimento e Agradecimento"; a segunda, de "Consagração das Ações"; e a terceira, de "Consagração do Ambiente", como veremos a seguir.
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A Forma Triangular e a Grande Invocação

A Rede de Triângulos, portanto, pretende ser uma forma de promover a saúde mental e física do nosso planeta. Diferentemente da grande maioria das práticas religiosas, a Grande Invocação de Triângulos estimula a compreensão da diversidade de crenças. Nela, nada se pede. É uma Invocação desinteressada, impessoal e universal. Os membros dos triângulos apenas procuram cooperar dentro do plano universal, com a consciência de que a boa vontade é a expressão, no coração humano, da vontade divina. E assim, cada um, aos poucos, vai-se descobrindo, dentro da sua própria tradição, como fonte de amor e luz espiritual. Cristo já dizia que onde dois ou mais se reunissem em seu nome, ali ele se faria presente.
Rubens Turci

Da janela, depois das chuvas…

A arquitetura e a paisagem da cidade me revelavam como fomos desenvolvendo o medo de nos importar com as pessoas. As catástrofes passaram a ter um quê de contagioso, levando muitos ao refúgio dos shoppings, onde se pode consumir e ter aquela sensação de que se é imune a tudo. Afinal, a interação com as vítimas, do ponto de vista prático, parece um gasto inútil de tempo e energia, onde ainda se corre o risco de “contágio” – do mesmo jeito que se diz que fortuna atrai fortuna, se diz também desgraça atrai desgraça. Melhor o shopping que a solidariedade.
Rubens Turci

Ecos da Grande Síntese

É chegado o tempo de estendermos o sentimento de corpo para além das fronteiras do corpo físico, de modo a percebemos que formamos um corpo social e também um outro corpo, que agora estamos começando a chamar de corpo sócio-ambiental. É chegado o tempo de compreender que o nosso corpo é o universo.
Rubens Turci

Perdendo a fé nos velhos dogmas

Quando os anos sessenta chocaram o ocidente, dando início à derrocada da antropocêntrica visão de mundo que até então nos orientava, poucos imaginavam que daquela semente lisérgica surgiria também a força “eco-lógica” capaz de fundar a moderna “eco-sofia”, ou ecologia profunda, conforme formulada por Arne Naess, e motivar as futuras gerações a questionarem as contradições presentes na tradição e também em seus representantes.
Rubens Turci

Sathya Sai Baba

Sathya Sai Baba é considerado por muitos como uma encarnação divina (Avatar), ou seja, um ser realizado que desceu à Terra em missão espiritual. Em razão disto, ainda hoje, recebe milhares de visitantes em seu ashram (espécie de comunidade espiritual), conhecido como "Morada da Paz Suprema" (Prashanti Nilayam), que fica no estado de Andhra-Pradesh, num vilarejo conhecido como Puttaparthi. Também não são poucos, por outro lado, aqueles que vêem Sai Baba como uma ameaça aos valores da tradição judaico-cristã do mundo ocidental.