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Romero Venâncio

Imagens do inconsciente

Um filme tocante, belo, sensível, singular no cinema brasileiro. O projeto de Leon Hirszman juntamente com Nise da Silveira começa ainda nos anos 60 quando o cineasta conhece o trabalho revolucionário da psiquiatra no Rio de Janeiro e se encanta com tudo. Prossegue nos anos 70 quando fazem o projeto do filme e vem a lume em 1983 e termina em 1986… “Imagens do Inconsciente” é composto de três partes: “Em busca do espaço cotidiano” (filme que segue com a narração de Ferreira Gullar); “No reino das mães” e “A barca do sol”.
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Milton canta Zumbi na Missa dos Quilombos

Pode uma missa ser proibida pelo Vaticano e censurada pelo governo militar de plantão no Brasil? Pode, se estamos falando de uma missa que foi acontecimento único na história da Igreja católica no Brasil: A Missa dos Quilombos. Em 1981, quando Milton Nascimento fazia uma turnê pelo Brasil na divulgação do seu álbum "Sentinela", recebeu um convite de Dom Helder Câmara (Arcebispo de Olinda e Recife) e Dom José Maria Pires (Arcebispo da Paraíba) para musicar a liturgia de uma “missa memorial” a ser realizada no Recife. Num intervalo entre uma apresentação e outra,
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Por que ler Hilda Hilst: nota de leitura

Obras que nos introduzem ao pensamento de determinado autor ou autora, quando não se resumem a superficialidade, são sempre bem vindas. É o caso do trabalho coletivo organizado pelo professor da UNICAMP Alcir Pécora sobre a escritora paulista Hilda Hilst. O distinto professor é um velho conhecido pela organização da obra dispersa de Hilda Hilst para a editora Globo. Um trabalho de primeiríssima qualidade. Muito da obra de Hilda Hilst estava fora de catálogo ou esgotada e sem perspectiva de reedições. Em cada uma das obras reeditadas, o Alcir Pécora faz uma introdução cuidadosa. Mesmo assim, as reclamações eram muitas sobre as dificuldades de leitura das obras da escritora paulista. Muito densa, hermética na maioria das vezes, pornográfica, sacrílega e por ai vai… As incompreensões eram e são muitas.
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Arte e sociedade em Lukács: escritos estéticos. 1932-1967

Lançado em 2009 pela editora da UFRJ, estes escritos seletos de Lukács vem em boa hora. Momento em que a crítica literária e os cursos de artes vivem um impacto considerável de “estudos pós-modernos” e de fraca teoria. A crítica de Lukács é a certeza de exigência cuidadosa com o texto na sua tessitura literária e tem a vantagem de nos colocar diante de uma boa tradição do modernismo ocidental. A reflexão de Lukács, obviamente, não começa nos anos 30 do século passado. Os primeiros escritos do pensador húngaro se iniciam por volta de 1902 e tem um grande momento com as publicações de “A alma e as formas” (1911) e “A teoria do Romance” (1915). Duas obras ensaísticas da mais alta qualidade. Nesta pequena obra-prima, “A Teoria do Romance”, obra pré-marxista revela um Lukács fazendo a passagem do idealismo subjetivo de Kant para o idealismo histórico-objetivo de Hegel. Obra concebida inicialmente como uma introdução a Dostoievski, termina por se tornar um texto autônomo. Ainda hoje, texto obrigatório em teoria da literatura que mereça este nome.
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Notas miúdas sobre cinema, os árabes e nossos dias

Ninguém duvida mais do potencial ideológico do cinema desde que D. W. Griffith lançou em 1915 o seu filme “O nascimento de uma Nação”. Película claramente racista, em que brancos atores pintados de negros são difamados como violentos contra brancos e ainda que os negros são destituídos de inteligência. O filme dava um reforço aos escravistas americanos ainda descontentes com a libertação dos escravos. Os rumos do filme e as reações que sofreu mesmo nos EUA e as mudanças de Griffith não vem ao caso, o que nos importa é que ele abriu um portal que não se fechará jamais na arte cinematográfica: a “sétima arte” tem poder ideológico de manipulação coletiva das massas. Como bem afirmava Walter Benjamin, o cinema pode tornar-se um “poderoso aparelho publicitário”. Chegamos a isto, também. A mais recente noticia deste papel a que pode se prestar a imagem cinematográfica foi nos apresentado esta semana (setembro de 2012) no Youtube com trechos do filme: Innocence of Muslims do estreante “diretor” Sam Bacile. Ele mesmo se intitula de judeu israelense que mora nos Estados Unidos.
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Nas esquinas de alguma beleza que passou: notas

A obra de arte não tem uma precisão para brotar. Pode aparecer em momentos de abertura ou de autoritarismo. Mas tenhamos claro uma coisa: ela (a obra de arte) será sempre libertária. Na forma ou no conteúdo e quando se encontram os dois, a obra chega a sua “perfeição”. Na música popular brasileira temos exemplos vários para tal afirmação. Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaré, Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque... Se repararmos bem, essas obras têm contexto preciso, mas não se limitam a tal contexto. Não são reduzidas a uma situação histórica, mas sempre sabendo que tal contexto existe e situa qualquer obra de arte que valha o nome.
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“Gigante” ou da celebração das coisas simples

O filme uruguaio visto e refletido a partir do livro “Max Weber: ciência e valores” nos pode remeter a uma leitura apaixonante. Óbvio que filme e livro não tem nada em comum de imediato. Mas podemos ligar um ao outro pelo que mostram e dizem. O livro trata de interpretar Max Weber fora dos cânones positivista em que foi o sociólogo alemão encalacrado. Um leitura “caleidoscópica”, logo, multifacetada e compreensiva. O filme nos coloca a questão sem explicar, de como alguém descobre esta enamorado de outro alguém. O sentimento de Jara é tão simples como tão belo… E sério, a ponto de mudar sua vida completamente. O filme mantem-se na tradição cinematográfica do “minimalismo estético” que em muito lembra Robert Bresson. Pequenas histórias que se tornam grandes pela simplicidade e pelo agigantamento da narrativa.
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O Van Gogh de R. Altman

O diretor optou por a narrar de maneira um pouco naturalista o cotidiano que vai enlouquecendo o pintor Van Gogh. O resultado é um filme extraordinário e que responde e supera o horrivel filme de Vincente Minelli de 1956 sobre o mesmo Van Gogh. O filme todo é o sofrimento de Vincent e a ajuda constante e conflituosa do irmão Theo. O irmão, um divulgador de artes em Paris faz o que pode para divulgar a obra do irmão, em vão. Um filme duro e bonito, como toda obra de arte. A loucura do pintor está a altura da sua genialidade. Só que tem um problema: um gênio ainda sem reconhecimento e pobre. O desespero pela falta de dinheiro, as vezes até para comer, faz do artista em questão um desesperado e numa Paris, capital do século XIX, altamente burguesa e fria em todos os sentidos.
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A lucidez e sua face sombria: um filme de Alexander Kluge

O lançamento do filme do alemão Alexander Kluge é uma noticia interessante e inteligente, desde que aqueles que vão ver sua película tenha alguma ideia do que o aguarda. A Versátil acaba de lançar no Brasil o seu mais recente filme: Noticias da antiguidade ideológica: Marx, Eisenstein, O Capital. Originalmente lançado em 2008 na Alemanha em plena crise do capitalismo e de seus bancos fraudulentos, o filme já nascia dentro de uma atualidade sem concorrência no tipo de cinema feito na Europa e no resto do mundo.